Copom deve manter juros em 15% ao ano, maior nível em 20 anos

Expectativa do mercado é para uma taxa inalterada na reunião do Copom desta quarta-feira (28); Fed também decide os juros nos Estados Unidos

Sede do Banco Central, em Brasília

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decide nesta quarta-feira (28) a taxa básica de juros para os próximos meses. Na primeira reunião de 2026, a expectativa do mercado é de que o colegiado mantenha a Selic em 15% ao ano, mas apresente um comunicado que abre espaço para o início do ciclo de cortes em março.

Inalterada nas últimas quatro reuniões, a Selic está no maior nível desde junho de 2006, quando foi fixada em 15,25% ao ano. A taxa de juros é o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação. O patamar elevado é usado com o objetivo de desacelerar o consumo e levar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta de 3%.

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Nessa lógica, a autoridade monetária tem ressaltado que está confiante em manter a política monetária restritiva por um “período bastante prolongado” caso seja necessário. A expectativa do mercado é de que o comunicado volte a destacar esse aspecto, uma vez que inflação fechou 2025 em 4,26%, dentro do teto meta e abaixo do esperado pelo mercado.

Segundo o gestor de renda fixa do Inter Asset, a decisão do Copom é amplamente esperada pelo mercado. O especialista destaca que o horizonte relevante da política monetária do Copom passa a ser o terceiro trimestre de 2027, com projeção de IPCA em torno de 3,1%, ligeiramente abaixo do indicado no Relatório de Política Monetária (RPM) de dezembro.

“Esse movimento, tudo o mais constante, abre espaço para que, na reunião de março, as projeções passem a permitir um eventual ajuste das condições monetárias vigentes. Já o comunicado deve manter um tom duro, reforçando o compromisso do Banco Central (BC) com o cumprimento das metas de inflação, uma vez que as projeções de mercado ainda indicam apenas uma reancoragem parcial das expectativas”, disse.

Qual o impacto da taxa de juros?

A Selic é a taxa de referência do mercado financeiro. Quando a taxa sobe, as taxas de juros reais também tendem a subir, que pode levar a diminuição de investimentos pelas empresas e à diminuição de consumo por parte das famílias. Isso ocorre porque o crédito fica mais caro, na medida em que a taxa de juros cobrada pelas instituições financeiras também sobe, desestimulando inclusive o financiamento de bens duráveis.

Outro canal importante de transmissão da política monetária é a taxa de câmbio, principalmente nas economias emergentes. Quando a taxa de juros sobe, a moeda doméstica tende a se valorizar. O dólar, por exemplo, fica mais barato frente ao real, diminuindo o nível de preço dos bens comercializáveis internacionalmente.

A política monetária atua também por meio de variações na riqueza dos agentes econômicos. Por exemplo, um aumento nas taxas de juros, ao desestimular a atividade econômica e o lucro das empresas, tende a diminuir o preço das ações. Essa redução do valor da riqueza financeira das famílias e empresas pode desestimular os planos de investimento.

Super Quarta

O mercado ainda está de olho na decisão de juros do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos. A coincidência de reuniões entre as autoridades monetárias norte-americana e brasileira ganharam o apelido de “Super Quarta”. Em dezembro, o Fed fez o terceiro corte seguido na taxa, levando o intervalo para entre 3,5% a 3,75%, em uma redução de 0,25% ponto percentual.

Porém, a expectativa do mercado é que na reunião desta quarta-feira (28) a taxa de juros nos EUA se mantenha inalterada. Como os Estados Unidos são a economia mais estável do mundo, seu mercado trabalha como se alimentasse outras economias com o seu dinheiro. Uma taxa de juros alta nos EUA torna os títulos do tesouro americano o melhor investimento, por terem praticamente risco zero. Isso faz com que os investidores retirem dinheiro do Brasil e apliquem no exterior.

Segundo o economista sênior do Banco Inter, André Valério, esse diferencial nos juros é um dos principais determinantes da taxa de câmbio. “Atualmente, temos um diferencial elevadíssimo. Quanto maior essa diferença, menor pressão de depreciação cambial nós temos. E isso é importante pois um câmbio depreciado tende a gerar repasse inflacionário, aumentando os preços dos bens em reais”, disse.

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Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

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