‘Dívida de sono’ e fadiga: as ameaças à saúde do trabalhador noturno na indústria

Impacto do ritmo circadiano afeta segurança e saúde física de funcionários; especialistas do Sesi MG detalham protocolos para combater efeitos nocivos da jornada norturna

O acúmulo da chamada “dívida de sono” coloca o corpo em um estado de preservação que compromete a segurança operacional

O trabalho noturno e o revezamento de turnos na indústria devem ser alvo de atenção redobrada pela gestão quanto à preservação da saúde dos trabalhadores. As alterações no assim chamado ritmo circadiano são causas de problemas físicos e mentais diversos, principalmente devido à inversão do ciclo sono-vigília.

Essa mudança é responsável por uma desorganização temporal interna do organismo, alterando e desestruturando funções fisiológicas e psicológicas. O fenômeno causa impacto na secreção de hormônios como a melatonina, o cortisol e hormônios tireoidianos, o que resulta em prejuízos ao desempenho cognitivo, motor e à saúde de longo prazo.

Riscos biológicos e a ‘dívida de sono’

Em entrevista à Itatiaia, Raphael Kalil Motta Moreira, Médico do Trabalho Líder pelo Sesi MG e especialista em medicina do trabalho, aponta que a exposição prolongada a esses regimes de trabalho manifesta-se em sintomas como insônia, dificuldades digestivas e aumento de doenças cardiovasculares.

Moreira explica que “essas alterações decorrem de um processo de dessincronização entre a organização temporal interna do organismo e a organização temporal externa imposta pelos turnos de trabalho, rompendo a estrutura temporal das funções fisiológicas e psicológicas”.

O médico alerta que o impacto vai além do cansaço físico, atingindo a capacidade de execução das tarefas. “A fadiga, seja física ou mental, provoca um declínio significativo no desempenho cognitivo e motor, resultando em reflexos lentos, lapsos de atenção e uma diminuição na qualidade da tomada de decisões”.

Segundo o especialista, a fadiga atua diretamente na biologia do trabalhador, “diminuindo a velocidade de transmissão de informações pelo neurônio motor e reduzindo a ativação cerebral”.

O acúmulo da chamada “dívida de sono” coloca o corpo em um estado de preservação que compromete a segurança operacional. Raphael Moreira detalha que o cérebro passa a operar em uma espécie de piloto automático, apresentando sinais como tonteira, dores de cabeça, perda frequente de memória e irritabilidade. "É importante ressaltar que esses sintomas não somem com curtos períodos de descanso, como por exemplo, férias”.

Estratégias de prevenção e tecnologia

Para mitigar esses riscos, as indústrias devem adotar métodos administrativos e tecnológicos que protejam o trabalhador. Fernanda Gabriela de Souza Pinto, especialista em ergonomia do Sesi MG, afirma ser fundamental intervir diretamente na organização temporal do trabalho.

Ela recomenda a priorização de “rodízios no sentido horário (manha-tarde-noite), limitação de noites consecutivas, garantia de tempos adequados de recuperação entre turnos, pausas estruturadas ao longo da madrugada e adaptação das exigências das tarefas aos horários biologicamente mais críticos”.

Além das mudanças organizacionais, o uso de tecnologia tem se tornado um aliado na prevenção de acidentes. Moreira menciona que ferramentas para detectar sinais de cansaço, como bocejos e piscar excessivo, já são realidade em setores de mineração e logística.

Há também o uso de óculos de prontidão operacional, em que o empregado realiza uma medição de seu nível de vigília. Por fim, o médico ressalta que “a análise e as ações preventivas devem ultrapassar o posto de trabalho, incorporando fatores psicossociais, impactos sobre a vida social e familiar, monotonia, exigências cognitivas e efeitos cumulativos do trabalho noturno”.

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Recomendações de ergonomia e organização do trabalho

De acordo com a ergonomista Fernanda Gabriela de Souza Pinto, as indústrias devem adotar as seguintes medidas para amenizar os efeitos danosos do trabalho noturno:

  • Rodízio de turnos: as escalas devem priorizar o sentido horário, passando sucessivamente pelos períodos da manhã, tarde e noite.
  • Limitação de jornada: restringir o número de noites trabalhadas consecutivamente para evitar o desgaste extremo.
  • Tempo de recuperação: garantir intervalos adequados entre os turnos para que o organismo possa se recuperar.
  • Pausas estruturadas: estabelecer períodos de descanso organizados especificamente durante a madrugada.
  • Adaptação de tarefas: ajustar a exigência das atividades nos horários considerados biologicamente mais críticos para o ser humano.
  • Consideração individual: levar em conta a variabilidade entre os trabalhadores e o envelhecimento funcional da equipe ao planejar as funções.

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Amanda Alves é graduada, especialista e mestre em artes visuais pela UEMG e atua como consultora na área. Atualmente, cursa Jornalismo e escreve sobre Cultura e Indústria no portal da Itatiaia. Apaixonada por cultura pop, fotografia e cinema, Amanda é mãe do Joaquim.

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