Ciro Dias Reis | ‘Maldição do petróleo’ está na origem da crise na Venezuela

“Maldição do petróleo” é como especialistas definem a condição de nações produtoras que se acomodam na geração fácil de recursos advindos da exploração da commodity e não tiram proveito de projetos potenciais capazes de perpetuar a riqueza proporcionada

“Maldição do petróleo” está na origem da crise na Venezuela

Mais do que fechar o foco nos detalhes da ação militar americana que capturou o autocrático presidente Nicolás Maduro e sua esposa neste primeiro sábado de 2026 ou mesmo discutir os próximos movimentos no tabuleiro de xadrez da Venezuela, vale a pena olhar para a big picture dos rumos do país ao longo dos últimos cinquenta anos.

Trata-se de um exercício didático.

Para isso nada melhor do que lembrar da chamada “maldição do petróleo”. É como especialistas definem a condição de nações produtoras que se acomodam na geração fácil de recursos advindos da exploração da commodity e não tiram proveito de projetos potenciais capazes de perpetuar a riqueza proporcionada. Tal opção acaba abrindo espaço para zonas de conforto e corrupção nos altos escalões do poder, além de gerar estagnação econômica resultante da falta de diversificação do setor produtivo.

Este é prejudicado quando uma enorme quantidade de dólares chega ao país, barateia as importações e assim desestimula a inovação e os investimentos locais.

Mais: cria-se uma perigosa dependência dos preços internacionais sempre oscilantes do petróleo. Assim, gastos criados em tempos de bonança ficam ameaçados quando o valor do barril cai e derruba as receitas do país.

A Venezuela sempre dependeu excessivamente de sua produção de petróleo, de longe sua mais importante atividade econômica. Suas reservas são as maiores do mundo. Nos anos 1960 o país vivia em ambiente democrático e tinha ambientes econômico e social estáveis. A inauguração de uma siderúrgica moderna de grande porte, a Sidor, trazia esperanças de uma aposta governamental na expansão econômica (privatizada em 1997 a empresa foi nacionalizada novamente em 2008, entrou em decadência e chegou a 2025 operando com menos de 10% de sua capacidade instalada).

Os anos 1970 trouxeram mudanças.

Quando, em 1973, ocorreu o primeiro choque do petróleo provocado pelos grandes países produtores (árabes à frente) o preço da commodity saltou rapidamente de 3 para 12 dólares por barril, beneficiando os cofres do governo de Caracas. Em 1978-1979 um segundo choque do petróleo elevou o preço do barril para 38 dólares, garantindo aos venezuelanos um novo salto financeiro e o maior poder de compra entre os habitantes da América Latina - quase o triplo que o dos brasileiros, na época.

O presidente Carlos Andrés Perez, que governou o país entre 1974/1979 e 1989/1993 fez alguns movimentos modernizadores, como a expansão da Usina hidrelétrica de Guri. Ela representa a principal fonte de energia elétrica do país, abastecendo aproximadamente 70% da demanda energética nacional. Mas a falta de planejamento adequado fez com a usina passasse a enfrentar desafios constantes relacionados à variabilidade do regime de chuvas e à gestão dos recursos hídricos. Isso causou vários apagões no país nos últimos anos.

Em boa parte da década de 1980 a Venezuela continuou se beneficiando de uma abundância de recursos e crescendo mais de 4% ao ano com inflação baixa. Caracas chegou a ser uma referência de capital moderna, com edifícios, hotéis e restaurantes sofisticados e muitos voos diários para Miami (distante apenas quatro horas). Na Flórida venezuelanos tanto faziam veraneio como compravam apartamentos para usufruir durante o ano todo.

O país tradicionalmente abrigou importantes empresas de atuação global, mas essa presença foi aos poucos se esvaziando conforme surgiam os primeiros sinais de falta de um efetivo projeto nacional de desenvolvimento de médio e longo prazos, e diante da crescente dependência do petróleo. Além, é claro, da imposição de períodos de controle cambial por parte do governo com grande poder de impacto na gestão financeira das empresas.

A gigante de consumo P&G por exemplo, embora ainda atue naquele mercado, chegou a ter no país o centro de inovação e a chefia das operações para América do Sul, depois transferidos para o Brasil.

A Fiat operou por vários anos uma importante fábrica de veículos em Valência, distante 200 quilômetros da capital. A unidade foi fechada definitivamente depois de dificuldades encontradas na gestão de um negócio que trabalha com cadeia de fornecedores e distribuidores complexa, que exige estabilidade e previsibilidade.

A fabricante de pneus Bridgestone preferiu vender suas instalações para uma empresa local e, assim, deixar o país. Solução idêntica foi adotada pelo Citibank depois de mais de 100 anos de atuação naquele mercado: negociou seus ativos com um banco venezuelano e disse adeus.

Em 2013 havia 32 companhias aéreas estrangeiras voando para a Venezuela e em 2017 restavam apenas onze. A razão: os controles cambiais impostos pelo governo em tempos de vacas magras devido a queda os preços do petróleo ocorrida a partir de 2014, que levaram várias operadoras a deixar o mercado. O número continuou caindo até o ano passado. LATAM e Gol operaram voos para Caracas até o terceiro trimestre de 2025.

Quando Hugo Chávez, padrinho político de Nicolás Maduro, assumiu pela primeira vez o governo em 1999, o país produzia mais de 3 milhões de barris de petróleo por dia, número que caiu pela metade por falta de investimentos e atualização do processo de exploração. No início dos anos 2000, com o produto em ciclo de alta (30 dólares por barril) Chavez teve condições de financiar vários programas sociais, inclusive redes populares de supermercados a preços subsidiados que lhe garantiram alta popularidade.

A questão é que o país passou a importar praticamente tudo, inclusive eletrodomésticos. A falta de modernização na sua principal atividade econômica e as oscilações de preços da commodity passaram gradativamente a minar a economia local e aumentar os problemas sociais. Os pouco mais de doze anos de Nicolás Maduro no poder evidenciaram não apenas a manipulação política mas a própria degradação do cenário nacional, em diferentes dimensões.

Segundo a ONU cerca de 8 milhões de venezuelanos deixaram seu país desde 2014 em função dos problemas políticos e econômicos, principalmente em direção a vizinhos da região e Espanha. E cerca de 5 milhões dos aproximadamente 30 milhões de habitantes do país enfrentam algum grau de insegurança alimentar.

Sanções impostas pelos Estados Unidos ao comércio do petróleo de Caracas no mercado internacional impuseram forte revés adicional a uma nação que, durante décadas, já vinha tendo sua capacidade de crescimento drenada por políticas ineficientes ou populistas, além de negligentes na gestão recursos.

Caso típico de “maldição do petróleo”.

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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