Bruna Braga | Capacitismo e exclusão

‘Capacitismo é a discriminação, preconceito e opressão contra pessoas com deficiência (PcD), baseada na crença de que corpos e mentes ‘padrão’ são superiores, tornando as PcD incapazes ou inferiores’

Eduardo Paes usou acessório como bengala e óculos escuros para imitar deficientes visuais

Como um prefeito fantasiado de pessoa com deficiência visual e a falta de material didático em braile para mais de 45 mil alunos fez a empreendedora social Janaína Barcelos, fundadora do Instituto Holofotes, mobilizar milhares de pessoas nas redes sociais por mais inclusão.

Uma cena me chamou a atenção durante o Carnaval, na rede social da Janaína Barcelos, fundadora do Instituto Holofotes, eu a vi, comentando um vídeo do atual prefeito do Rio de Janeiro, fantasiado de pessoa com deficiência visual, utilizando uma bengala e óculos, sorrindo e pulando o Carnaval em um camarote famoso da Sapucaí. Aos risos, ele brincava com a dor de milhares de pessoas que lutam diariamente por direitos basicos e principalmente, por respeito e inclusão. A brincadeira do prefeito tem nome e é crime: capacitismo!

“Capacitismo é a discriminação, preconceito e opressão contra pessoas com deficiência (PcD), baseada na crença de que corpos e mentes “padrão” são superiores, tornando as PcD incapazes ou inferiores. O ato é crime, com previsão na Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015) e no Decreto 11.793/2023, sendo punido com reclusão e multa.”
Fonte: Internet

O fato é que o ano de 2026 já começou literalmente “cego” para os direitos das pessoas com deficiência e “sambando na cara” de milhares delas. Segundo a Abridef (Associação Brasileira da Indústria, Comércio e Serviços de Tecnologia Assistiva para Pessoas com Deficiência) através de dados do IBGE, estima-se que cerca de 45 mil crianças e jovens com deficiência visual não terão acesso aos livros didáticos em braile este ano, aliás, elas sequer foram incluídas no orçamento anual do Ministério da Educação (MEC). Esse fato mostra mais uma vez, como o poder público não enxerga as pessoas com deficiência visual e por isso, pessoas como a Janaína Barcelos são fundamentais na luta pelos direitos da comunidade cega/baixa visão e aos olhos de muitos.

Pedi a Janaína que escrevesse um texto contando um pouco sobre seu trabalho e quero compartilhá-lo aqui com você, para que juntos, possamos ajudar o Instituto Holofotes a conscientizar o mundo e a apoiar na inclusão das pessoas com deficiência visual.

Janaína Barcelos criou o Instituto Holofotes

Da dor a ação: por que escolhi iluminar o que ninguém quer ver

Por Janaína Barcelos

Nos últimos anos, tenho dedicado minha vida a iluminar aquilo que muitos insistem em manter nas sombras: a realidade das pessoas com deficiência no Brasil. À frente do Instituto Holofotes, há 13 anos, desde o Miss Brasil, encontrei não apenas uma missão, mas um chamado. Meu trabalho nasceu da urgência de romper com a invisibilidade que atravessa nossos corpos, nossas histórias e nossos direitos.

Recentemente, o episódio ocorrido no carnaval do Rio de Janeiro, envolvendo a postura capacitista do próprio prefeito, reacendeu em mim a certeza de que ainda temos um longo caminho pela frente. Quando uma pessoa com deficiência visual é tratada com descaso em um evento público, não é um caso isolado: é o reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a enxergar. E quando a sociedade não enxerga, ela exclui.

É por isso que sigo levantando a voz — mesmo quando esperam silêncio. Sigo denunciando, mesmo quando esperam conformismo. Sigo educando, mesmo quando esperam paciência infinita. Porque a luta contra o capacitismo é diária, e a invisibilidade é uma violência que não podemos mais aceitar.

No Instituto Holofotes, trabalhamos para que nenhuma pessoa com deficiência seja tratada como exceção, que crianças cegas tenham livros em braile, que adultos tenham autonomia e inclusão de verdade. Minha luta é para que políticas públicas sejam cumpridas e que a dignidade não seja negociável.

Eu escrevo esta coluna não para falar de mim, mas para falar de nós. De todos que, como eu, acreditam que a inclusão precisa sair do discurso e entrar na prática. Que acreditam que o Brasil pode — e deve — ser um país onde cada pessoa tenha o direito de existir plenamente.

Enquanto houver escuridão, seguirei com meu holofote aceso.

Liderando a inclusão: assine a petição!

Eu acompanho o trabalho da Janaína há alguns anos, me encantei pelo fato daquela mulher maravilhosa, mãe, miss e jornalista, não ter se rendido ao descobrir em 2012, ser portadora de uma doença chamada retinose pigmentar, que faz a pessoa ir perdendo aos poucos a visão. Janaína criou o Instituto Holofotes em 2013, hoje faz palestras e treinamentos por todo o Brasil, criou também o Visão Experience, que acontece há 4 anos, levando para empresas, escolas e instituições uma vivência que provoca, desconstrói e transforma a vida de quem não possui deficiência visual. “Não é sobre “sensibilizar”, mas sim, responsabilizar. É mostrar que acessibilidade não é gentileza, é obrigação e que inclusão não é favor, mas justiça. Entender que o capacitismo, tão naturalizado no cotidiano, precisa ser enfrentado com coragem e constância”, diz Janaína.

Para tentar reverter esse retrocesso da não acessibilidade ao material didático em braile nas escolas brasileiras, Janaína realizou uma denúncia ao Ministério Público Federal e criou a petição: Nenhuma Criança Cega Sem Livros em Braile. “Para garantir que os direitos das crianças cegas e baixa visão de todo o Brasil sejam preservados no futuro, solicitei com urgência ao deputado federal Gilberto Abramo, uma audiência pública em Brasília com o Ministério de Educação (MEC) e na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) que prontamente me atendeu. Vamos acompanhar de perto os próximos passos”, diz Janaína.

Por isso, queremos te convidar a acessar o link abaixo e assinar a petição, afinal, precisamos ultrapassar 5000 assinaturas! Juntos, podemos garantir a inclusão e o acesso ao material em braile para nossas crianças e jovens que já enfrentam tantas dificuldades no cotidiano.

Clique no link e faça a sua parte!

Por Bruna Braga com contribuição de Janaína Barcelos

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Bruna Braga é jornalista, consultora em RSC e fundadora da Terceirolhar

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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