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Memória e futuro: Barbacena discute destino do terreno do Hospital Colônia

Sobreviventes que ainda moram no local onde funciovana o manicômio serão realocados para uma fazenda a partir da segunda-feira (25)

Por e 
HOSPITAL-COLÔNIA DE BARBACENA • Governo de Minas/ Arquivo

O terreno do antigo Hospital Colônia de Barbacena, na Região do Campos das Vertentes, em Minas Gerais, que tinha oito milhões de metros quadrados e 16 pavilhões, está no centro da discussão sobre o que fazer com tanto espaço — visto que o governo de Minas anunciou o fechamento definitivo do local, conhecido por ter sido palco de graves violações de direitos humanos no século XX. Os 14 sobreviventes que ainda moram onde funcionava o manicômio começarão ser realocados na próxima semana.

O prefeito de Barbacena, Carlos Du (PSD), contou à reportagem que parte dos prédios, pertencentes ao governo de Minas, foram passados para o Executivo municipal. "Vamos fazer a nossa 'Cidade de Saúde'. Uma UBS [Unidade de Saúde Básica] está terminando de ser construída, o Centro de Especialidade Odontológico vai ser feito aqui também", disse.

Parte do espaço já foi transformado e se tornou o Hospital Regional de Barbacena. "É o 'João XXIII' de Barbacena, tanto de trauma, quanto de queimados", disse o secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti. Ele ainda explicou que outra parte do terreno funciona o Centro Hospitalar Psiquiátrico do município.

Por fim, as casas onde os sobreviventes ficavam serão utilizadas pela administração do hospital. "Para aumentar a parte assistencial, de atendimento ao paciente no prédio onde é o Hospital Regional de Barbacena", explicou Baccheretti.

Sobreviventes do Hospital Colônia serão realocados

Os 14 sobreviventes que ainda moram no terreno onde funcionava o manicômio começarão a ser realocados a partir da próxima segunda-feira (25). Em entrevista à reportagem, Carlos Du indicou que os sobreviventes serão transferidos para uma fazenda, na zona rural de Barbacena.

Outros pacientes que saíram do Hospital Colônia antes do fechamento definitivo do local foram, aos poucos, direcionados para dezenas de residência terapêuticas também em Barbacena.

Preservação histórica

Ações movidas por organizações sociais correm na Justiça na tentativa de reparação às vítimas, já que o ciclo de violência foi institucionalizado pelo estado durante décadas. Algumas faculdades e universidades que compravam cadáveres de vítimas do manicômio — como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) — pediram desculpas publicamente. Ainda na busca de reparação e preservação da memória dos 60 mil mortos no local, há a cobrança pela preservação histórica.

O ex-diretor do Hospital Colônia e psiquiatra, Jairo Toledo, foi uma das figuras que participou do processo de desativação do manicômio. Ele contou que o Colônia chegou a ter cinco mil pacientes ao mesmo tempo, o espaço foi descrito por ele como um verdadeiro "campo de concentração". Entre as práticas cruéis do manicômio percebidas por ele, está a internação involuntária de pessoas que sequer tinham transtorno psiquiátrico.

Hoje, Jairo Toledo tem um projeto de um memorial no espaço do cemitério onde se enterrou 60 mil pessoas. "O espaço tem que ser preservado em memória daqueles pacientes. Veja a Alemanha o que fez nos cemitérios do país", disse. O psiquiatra também pede a retomada do Festival da Loucura na cidade que, por meio da arte, conscientizava sobre a saúde mental e celebrava as diferenças.

Fim do manicômio judiciário

Também neste ano, há a expectativa de encerramento das atividades do Hospital Psiquiátrico e Judiciário Jorge Vaz, conhecido como manicômio judiciário. As mudanças no município causam alívio por encerrar ciclos de sofrimento, mas abrem o debate sobre a destinação das pessoas em sofrimento mental que não têm acolhimento.

Qualquer pessoa pode ter sofrimento mental e a necessidade de atendimento psiquiátrico não é exclusividade de ninguém. A barulhenta tragédia dentro do hospital foi silenciosa no lado de fora dos muros e, por isso, a luta agora é outra: garantir que este silêncio não se erga novamente sobre a dignidade humana.

Holocausto brasileiro

O ocorrido no Hospital Colônia ficou conhecido como Holocausto Brasileiro, termo cunhado pela jornalista Daniela Arbex, que escreveu um livro homônimo. Arbex denunciou que mais de 60 mil pessoas foram vítimas de um genocídio. Logo na introdução da obra, é apresentado um comparativo entre o Colônia e os campos de concentração da Alemanha nazista. No manicômio, os internos sofriam torturas, além de serem submetidos a situações degradantes, como falta de alimentos, água limpa e vestes e viverem amontoados.

“Quando filmei lá, imagino que deviam ter mais ou menos umas 5.000 pessoas internadas. Os pátios eram impressionantes. Você tinha separações dos crônicos, dos que estavam passando por fases agudas, o pavilhão das mulheres, dos homens, das crianças. Era aquilo ali uma coisa medonha”, descreve Helvécio Ratton.

O jornalista Hiram Firmino, autor do premiado livro Nos Porões da Loucura, foi um dos primeiros a denunciar esse cenário ainda nos anos 70. À Itatiaia, ele contou que o Colônia funcionava como um depósito de pessoas, além de um ponto para venda de cadáveres.

Em 9 de abril deste ano, a UFMG publicou um pedido de desculpas público pela aquisição, no século XX, de cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena. No livro Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex revelou que, entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país.

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Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

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Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.