Belo Horizonte
Itatiaia

Sobreviventes do Hospital Colônia que vivem no terreno do manicômio serão realocados

Eles serão transferidos a partir da próxima segunda-feira (25)

Por e 
Itatiaia / Edson Costa

Os 14 sobreviventes do Hospital Colônia em Barbacena que ainda moram no terreno onde funcionava o manicômio, marcado por violações de direitos humanos no século XX, começarão a ser realocados a partir da próxima segunda-feira (25). De acordo com a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), eles, que são todos idosos, moram em residências construídas no território e serão transferidos para um sítio, uma espécie de casa de acolhimento, na zona rural de Barbacena, no Campo das Vertentes.

O Hospital Colônia é conhecido por ter sido destino de pessoas internadas de maneira compulsória, muitas sem sequer terem transtornos psiquiátricos. “Era simplesmente um controle que a sociedade fazia, despejando ali dentro os indesejáveis, os desafetos, gente que brigava com a família, uma moça que tinha ficado grávida. Você via ali dentro um espelho da sociedade brasileira: os pobres, pretos e os deserdados da sociedade”, descreve o cineasta Helvécio Ratton, que foi ao manicômio na época em que ele funcionava e gravou o documentário Em Nome da Razão.

Segundo a Fhemig, os 14 sobreviventes foram levados para o Colônia há décadas, a maioria sem ter diagnóstico de transtorno psiquiátrico. A fundação contou que alguns deles chegaram lá ainda crianças. Conforme o Governo de Minas, os ex-internos não têm familiares, não falam e “vivem em condições bem específicas de saúde”.

Atualmente, eles são assistidos pelo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHBP), localizado no mesmo território onde vivem. Segundo o Governo de Minas, o centro é focado em tratamento humanizado. Na mesma área, também fica o Museu da Loucura. De acordo com a Fhemig, ambos continuarão funcionando. Já o manicômio Colônia começou a ser desativado na década de 80.

Holocausto brasileiro

O ocorrido no Hospital Colônia ficou conhecido como Holocausto Brasileiro, termo cunhado pela jornalista Daniela Arbex, que escreveu um livro homônimo. Arbex denunciou que mais de 60 mil pessoas foram vítimas de um genocídio. Logo na introdução da obra, é apresentado um comparativo entre o Colônia e os campos de concentração da Alemanha nazista. No manicômio, os internos sofriam torturas, além de serem submetidos a situações degradantes, como falta de alimentos, água limpa e vestes e viverem amontoados.

“Quando filmei lá, imagino que deviam ter mais ou menos umas 5.000 pessoas internadas. Os pátios eram impressionantes. Você tinha separações dos crônicos, dos que estavam passando por fases agudas, o pavilhão das mulheres, dos homens, das crianças. Era aquilo ali uma coisa medonha”, descreve Helvécio Ratton.

O jornalista Hiram Firmino, autor do premiado livro Nos Porões da Loucura, foi um dos primeiros a denunciar esse cenário ainda nos anos 70. À Itatiaia, ele contou que o Colônia funcionava como um depósito de pessoas, além de um ponto para venda de cadáveres.

Compra de cadáveres

Em 9 de abril deste ano, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicou um pedido de desculpas público pela aquisição, no século XX, de cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena. No livro Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex revelou que, entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país.

Em declaração assinada no dia 18 de março, a então reitora da UFMG, Sandra Goulart, Almeida reconhece que o “Hospital Colônia de Barbacena e outras instituições psiquiátricas de Minas Gerais foram palco de uma das mais cruéis violações de direitos humanos já praticadas no Brasil: a internação de pessoas de todas as idades por supostos transtornos mentais”.

Por

Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.

Por

Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.