Ex-diretor do Hospital Colônia relata como o manicômio foi desativado
No manicômio, localizado em Barbacena, cerca de 60 mil pessoas morreram e milhares mais sofreram torturas e outras violações de direitos humanos no século XX

Ex-diretor do Hospital Colônia, Jairo Toledo conta como foi o processo de desativação do manicômio, que foi cenário de violações de direitos humanos no século XX. Ele foi um dos principais responsáveis por colocar um ponto final em um dos capítulos mais cruéis da história brasileira. No espaço, localizado em Barbacena, cerca de 60 mil pessoas morreram e milhares mais sofreram torturas e outras degradações, como ficar amontoados e não ter alimentos e água.
Jairo Toledo conta que o Colônia chegou a ter cinco mil pacientes ao mesmo tempo, o espaço foi descrito por ele como um verdadeiro “campo de concentração”. Entre as práticas cruéis do manicômio percebidas por ele, está a internação involuntária de pessoas que sequer tinham transtorno psiquiátrico. “Isso tinha que modificar. Tinha que inverter isso”, contou à Itatiaia.
O ex-diretor afirma que também impôs uma mudança no tratamento dos cadáveres. Conforme a jornalista mineira Daniela Arbex, que escreveu o livro Holocausto Brasileiro, cerca de 60 mil pessoas morreram no manicômio. Para a sobrevivente Coleta Rodrigues Gomes, de 75 anos, a forma com a qual os mortos eram tratados é uma das memórias mais marcantes do tempo que viveu no Colônia. “Eles carregavam os ‘difuntos’, eles tinham até o cemitério da paz, e jogavam lá no cemitério da paz. Eu acho que ‘nem punha’ a roupa neles. Tinha uma carrocinha grande de carregar os ‘difuntos’, Acho que nem caixão não tinha para carregar os ‘difuntos’”, contou à Itatiaia.
Além do descaso com os corpos, Arbex denunciou que 1.853 corpos de pacientes foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país. Jairo Toledo quis mudar isso também. Ele conta que, na época em que era diretor, os funcionários passaram a velar os mortos, o que viabilizou que ele justificasse a decisão de não mandar os corpos para universidades.
Outro fato importante para o fim do manicômio, que passou a ser desativado na década de 80, foi a visita do psiquiatra italiano Franco Basaglia. O profissional era referência mundial na luta contra o modelo manicomial. “O que ele fez? Foi lá no Raul Soares e foi em Barbacena, foi nos hospícios todos, e saiu e falou: "Isso aqui é um campo de concentração, desde o atendente até o diretor de cada uma dessas instituição exerce a função de condenador e de torturadores", explica o jornalista Hiram Firmino, autor do premiado livro Nos Porões da Loucura, que acompanhou Basaglia à época.
Fim dos manicômios
Para a psicóloga e professora da UFMG Teresa Kurimoto, as críticas e questionamentos às práticas do Hospital Colônia em Barbacena no século XX foram o estopim para o início da proibição do modelo manicomial no Brasil.
“Essa revolta [contra os manicômios] acontece num momento em que, no Brasil e fora do Brasil, se tem pessoas, grupos e pesquisadores olhando para esse fenômeno e questionando se esse cuidado que sequestrava as pessoas para dentro de um espaço, que cerceava acessos aos direitos direitos fundamentais, que cerceava as coisas mais básicas, efetivamente tinha algum efeito terapêutico”, afirma Kurimoto.
Miriam Abou-Yd, psiquiatra e psicóloga, detalha que a luta dos movimentos sociais antimanicomial no Brasil tem origem em 1987 no Encontro Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental em Bauru (SP). “Nesse encontro, usuários, familiares, trabalhadores e gestores decidiram lutar pela inclusão da diferença, pela garantia de direito, autonomia e reinserção social das pessoas em sofrimento mental e por uma sociedade sem manicômios”, explica ela, que também é militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental e da Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos.
Segundo ela, a partir desse encontro, por pressão das entidades antimanicomiais, esses tipos de hospitais começaram a ser substituídos pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), descrita pela psiquiatra e psicóloga como: “Uma rede de cuidados ampla, territorializada, comunitária, diversificada e em condições de atender os usuários da saúde mental em seus diferentes momentos e necessidades”.
Miriam Abou-Yd explica que, também por pressão do movimento antimanicomial, foi aprovada a Lei da Reforma Psiquiátrica (nº 10.216/2001) em 2001. “Ela nos deu um arcabouço jurídico para avançar na reforma”, afirma. A legislação foi o marco definitivo do fim dos manicômios.
Sobreviventes realocados
Atualmente, 14 ex-pacientes do Colônia ainda vivem no território onde funcionou o manicômio. A partir da próxima segunda-feira (25), eles serão realocados. De acordo com a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), eles, que são todos idosos, moram em residências construídas no território e serão transferidos para um sítio, uma espécie de casa de acolhimento, na zona rural de Barbacena
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Segundo a Fhemig, os 14 sobreviventes foram levados para o Colônia há décadas, a maioria sem ter diagnóstico de transtorno psiquiátrico. A fundação contou que alguns deles chegaram lá ainda crianças. Conforme o Governo de Minas, os ex-internos não têm familiares, não falam e “vivem em condições bem específicas de saúde”.
Atualmente, eles são assistidos pelo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHBP), localizado no mesmo território onde vivem. Segundo o Governo de Minas, o centro é focado em tratamento humanizado. Na mesma área, também fica o Museu da Loucura. De acordo com a Fhemig, ambos continuarão funcionando.
Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.
Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.




