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Sobrevivente do Hospital Colônia relata que tomava choques grávida

O manicômio em Barbacena é conhecido por ter sido cenário de violações de direitos humanos no século XX

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Sobrevivente do Hospital Colônia relata que tomava choques grávida • TADEU SCAFUTTO/ITATIAIA

Coleta Rodrigues Gomes, de 75 anos, carrega com ela memórias de um dos episódios mais cruéis da história de Minas Gerais e do país, conhecido como Holocausto Brasileiro. Ela é uma das sobreviventes do Hospital Colônia, cenário de violações de direitos humanos no século XX, localizado em Barbacena. No manicômio, conhecido por ter sido destino de pessoas internadas de maneira compulsória, muitas sem sequer terem transtornos psiquiátricos, os “pacientes” sofriam torturas e eram submetidos a situações degradantes, como falta de alimentos, água limpa e vestes, além de viverem amontoados. Coleta foi uma das vítimas e sofreu sessões de eletroconvulsoterapia mesmo grávida. 

“Lá o tratamento da gente lá era choque, não é remédio não. É só choque, choque. Cheguei aqui em Barbacena é choque, choque. E põe um algodão na boca, eles ‘aplica’ e a gente não vê mais nada. O que eu tinha mais medo era desse negócio de choque”, contou à Itatiaia. Dona Coleta foi levada ao Colônia por um tio quando tinha 19 anos. Ela relata que na época vivia abatida e não conseguia realizar tarefas simples. Primeiro, havia sido internada no Hospital Galba Velloso, na capital mineira. Ao olhar para trás, Coleta acredita que tinha depressão e que a família não tinha condições de oferecer tratamento. 

Dona Coleta relembra que passou pelas sessões de eletroconvulsoterapia, feitas sem anestesia ou sedativos, mesmo grávida de três meses. “Eu falando que ‘tava’ grávida eles ‘vai’ falar que é a doideira minha”, disse a sobrevivente. Atualmente, ela vive em uma residência terapêutica da Prefeitura de Barbacena. 

Renato Rosa, servidor público, escritor e pesquisador do tema, é guia do Museu da Loucura, localizado no antigo espaço do hospital, e afirma que o choque elétrico sem sedação era comum no Colônia. “Era para gerar a convulsão no paciente com doenças como demência precoce, depressão grave, que a pessoa tenha tendência suicida, catatonia e etc”, explica. Além dos choques, o manicômio tem registros de pelo menos 50 lobotomias, procedimento que destruía parte do cérebro com a justificativa de ser uma forma de tentar controlar pacientes considerados agressivos ou resistentes aos tratamentos. 

A ex-paciente do Colônia relembra também a forma com a qual os corpos dos internados eram tratados. “Eles carregavam os ‘difuntos’, eles tinham até o cemitério da paz, e jogavam lá no cemitério da paz. Eu acho que ‘nem punha’ a roupa neles. Tinha uma carrocinha grande de carregar os ‘difuntos’, Acho que nem caixão não tinha para carregar os ‘difuntos’, conta. 

Holocausto brasileiro

O ocorrido no Hospital Colônia ficou conhecido como Holocausto Brasileiro, termo cunhado pela jornalista Daniela Arbex, que escreveu um livro homônimo. Arbex denunciou que mais de 60 mil pessoas foram vítimas de um genocídio. Logo na introdução da obra, é apresentado um comparativo entre o Colônia e os campos de concentração da Alemanha nazista.

Psicóloga e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Teresa Kurimoto afirma que os “pacientes” do Colônia eram submetidos a medidas que tentavam conter reações por parte deles. Entre elas, a profissional cita a prática de arrancar os dentes das pessoas internadas, que descreve como “higienista e absolutamente violenta”. 

O guia Renato Rosa conta que tem uma ligação pessoal com o Colônia, visto que o avô paterno dele, Sebastião Rosa, e a tia-avó dele, Etelvina Gregório, foram internados no manicômio. “Sempre morei a 500 metros depois do último pavilhão, meus pais me contaram que quando eu tinha 1 aninho, 2 aninhos, eles tinham que abafar o som nos meus ouvidos por causa dos gritos dos pacientes”, contou à Itatiaia. 

O Hospital Colônia é conhecido por ter sido destino de pessoas internadas de maneira compulsória. “Era simplesmente um controle que a sociedade fazia, despejando ali dentro os indesejáveis, os desafetos, gente que brigava com a família, uma moça que tinha ficado grávida. Você via ali dentro um espelho da sociedade brasileira: os pobres, pretos e os deserdados da sociedade”, descreve o cineasta Helvécio Ratton, que foi ao manicômio na época em que ele funcionava e gravou o documentário Em Nome da Razão.

O jornalista Hiram Firmino, autor do premiado livro Nos Porões da Loucura, foi um dos primeiros a denunciar esse cenário ainda nos anos 70. À Itatiaia, ele contou que o Colônia funcionava como um “depósito de pessoas”, além de um ponto para venda de cadáveres. No livro Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex revelou que, entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país.

Sobreviventes realocados

Os 14 sobreviventes do Hospital Colônia em Barbacena que ainda moram no terreno onde funcionava o manicômio, marcado por violações de direitos humanos no século XX, começarão a ser realocados a partir da próxima segunda-feira (25). De acordo com a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), eles, que são todos idosos, moram em residências construídas no território e serão transferidos para um sítio, uma espécie de casa de acolhimento, na zona rural de Barbacena, no Campo das Vertentes.

Segundo a Fhemig, os 14 sobreviventes foram levados para o Colônia há décadas, a maioria sem ter diagnóstico de transtorno psiquiátrico. A fundação contou que alguns deles chegaram lá ainda crianças. Conforme o Governo de Minas, os ex-internos não têm familiares, não falam e “vivem em condições bem específicas de saúde”. 

Atualmente, eles são assistidos pelo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHBP), localizado no mesmo território onde vivem. Segundo o Governo de Minas, o centro é focado em tratamento humanizado. Na mesma área, também fica o Museu da Loucura. De acordo com a Fhemig, ambos continuarão funcionando.

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Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

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Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.