Greve dos professores em BH expõe sobrecarga histórica de mães
Mães, que reconhecem o mérito do movimento, relatam que precisam abrir mão do trabalho ou estudos para cuidar dos filhos no dias de paralisação

Há pouco mais de um mês, trabalhadores e trabalhadoras em educação concursados da rede municipal de Belo Horizonte estão em greve. Entre as reivindicações da categoria estão reajuste salarial e diálogo sobre a atuação das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) na rede. Por causa da greve, algumas escolas têm adotado a paralisação, total ou pontual. Apesar de reconhecerem o mérito do movimento, mães relatam que são as mais sobrecarregadas. Em entrevista à Itatiaia, algumas afirmam que o cuidado dos filhos nos dias em que as aulas são suspensas recai mais sobre elas do que sobre os pais. Especialista aponta que esse cenário mostra a exploração histórica de mães e mulheres que formam as chamadas “redes de apoio”.
Paula Ferreira, de 41 anos, é bióloga e mãe de um menino, de cinco, que estuda em uma Escola Municipal de Educação Infantil (Emei). Ela conta que, no caso do filho, as paralisações têm sido em dias pontuais. Quando as aulas são suspensas, Paula relata que precisa abrir mão dos estudos para concursos públicos para cuidar do filho, ao passo que o marido segue trabalhando. “Sempre sou só eu”, diz.
No caso da bióloga, ela conta que não tem revezamento de quem vai cuidar do filho nesses casos, mas afirma que entende o motivo de o marido não poder abrir mão do trabalho. Paula reconhece que o companheiro poderia ter o emprego colocado em xeque caso precisasse faltar para ficar com o menino.
No entanto, lamenta ter que abrir mão dos estudos, motivo pelo qual decidiu ficar sem trabalhar. “Também me sinto prejudicada porque estou com um plano estruturado de passar em concurso e daqui a pouco vai chegar no limite porque não vai dar para ficar sem renda, preciso fazer meu tempo valer”, afirma. Paula conta que não tem família em Belo Horizonte para ajudá-la.
A situação vivida por Cleidiane Silva, de 31 anos, manicure e mãe de um menino, também de cinco anos, é semelhante. Quando as aulas da Emei do filho são suspensas, ela afirma que precisa desmarcar as clientes do dia para ficar com ele. Segundo ela, o marido trabalha à noite, mas faz trabalhos como pintor à tarde, o que o impediria de ficar com a criança. A manicure diz que ele é o principal “provedor da casa”.
“Fico sobrecarregada, maternalmente falando”, afirma Cleidiane. Além de ter que desmarcar os atendimentos, ela conta que se preocupa com o que o filho faz dentro de casa. Em uma tentativa de suprir a falta do aprendizado diário, ela afirma que tenta fazer brincadeiras de ensinamentos com ele, como jogos com as letras do alfabeto.
Cleidiane diz que também sofre um prejuízo financeiro, visto que perde o dinheiro dos atendimentos desmarcados e precisa continuar pagando a van escolar do filho. Além disso, aponta que os trabalhos domésticos aumentam, uma vez que precisa providenciar o almoço e lanches no decorrer do dia, refeições que normalmente o filho faria na escola. “Queria ter alguém para olhar ele pra mim”, lamenta a manicure.
Sobrecarga histórica
“O maior impacto sobre essas mães revela desigualdades históricas e anteriores à greve. O cuidado com as crianças ainda recai principalmente sobre as mulheres, isso é machismo, sexismo e também é uma forma de egoísmo social e familiar. Quando você espera que a mãe, a avó, a tia, resolva tudo, a balança entre as funções numa família está totalmente desequilibrada”, afirma a Drª Adla Betsaida Martins Teixeira, professora titular da Faculdade de Educação da UFMG e coordenadora do grupo gênero, sexualidade e sexo.
A profissional, que também coordena projetos ligados à saúde e educação de mulheres, ressalta que é solidária à greve dos professores. “Não podemos colocar essas mães sobrecarregadas contra professoras ou professores desvalorizados”, atesta e completa: “A greve só aponta um sintoma do quanto a nossa sociedade ainda define que a mulher é que é responsável pela criança, pela educação, pelo para casa, pela alimentação, pela vestimenta. E os homens, que muitas vezes nem são mais ‘provedores’, não se envolvem tanto”.
Rede de apoio feminina
Adla Betsaida Martins Teixeira aponta ainda como a sobrecarga não recai apenas nas mães, mas também nas mulheres da família, que costumam ser as principais integrantes das redes de apoio.
É o que ocorre na casa de Francielle Oliveira, de 31 anos, e Tharcysio Jardim, 31, pais de um menino de três anos, que estuda na Escola Municipal Marconi. Para ajudá-los nos dias de paralisação, Tharcysio conta que eles costumam pedir ajuda às avós. Às vezes, o padrinho é acionado.
Tharcysio avalia que na casa dele a responsabilidade é bem equilibrada, mas diz que reconhece que isso é uma exceção quando comparado com outras famílias do convívio social dele. Segundo o empresário, nos dias de paralisação, ele e a companheira tentam dividir os turnos. No entanto, ele diz que isso só é possível por ser dono da própria empresa.
Apesar de dividirem os tempos que vão cuidar do filho, afazeres domésticos, como cozinhar, recaem sobre Francielle. Ela conta que, mesmo quando o companheiro vai ficar com a criança, ela prepara o almoço. “E [sou eu] quem planeja todas as rotas que teremos que calcular ao receber a notícia que no dia seguinte não haverá aula”, conta a fisioterapeuta.
Francielle afirma que entende o motivo da greve, até porque as melhorias reivindicadas são pensadas nos alunos, mas diz que a falta de antecedência nos avisos dos dias de paralisação dificultam ainda mais a rotina.
“A gente sabe que a greve traz transtornos para as famílias, assim como traz transtornos para a gente, porque também somos mães trabalhadoras”, afirma a diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte (Sind-Rede), Carol Pasqualini. Ela diz que é importante destacar que as reivindicações são em prol dos alunos, e das próprias famílias.
“A decisão de uma greve é tomada quando entendemos que esgotamos todos os meios para tentar solucionar as questões. E o problema é que se a gente não faz a greve, a situação na escola se deteriora tanto que o prejuízo é muito maior. Os trabalhadores neste momento estão lutando por melhoria de condições de trabalho nas escolas, por garantia de qualidade para o atendimento dos estudantes e por consequência das suas famílias”, diz Pasqualini, que também é professora da rede municipal.
Greve continua
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte (Sind-Rede) decidiu pela continuidade da greve. A decisão unânime foi tomada em assembleia realizada nessa quinta-feira (28) na Praça da Liberdade, Região Centro-Sul de BH, um dia após o movimento completar um mês. A categoria explica que greve não necessariamente implica em paralisação. O ato fica a critério dos educadores de cada escola.
"A decisão de manter o movimento reflete a indignação dos trabalhadores diante das recentes posturas da administração municipal. A categoria denuncia publicamente o corte de ponto dos trabalhadores grevistas e o posicionamento intransigente da Secretaria Municipal de Educação (SMED), que inviabilizou qualquer proposta de reposição dos dias parados", informou o sindicato em nota. Segundo a entidade, a pasta encerrou as negociações de maneira unilateral.
Em comunicado emitido dessa quarta-feira (27), o Sind-Rede afirmou que o Executivo municipal não tem avançado no diálogo sobre "pautas urgentes” — como a terceirização via Organização da Sociedade Civil (OSCs) na educação infantil, a falta de professores nas escolas e a necessidade de repasses justos para as Caixas Escolares.
Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) afirmou: “A Secretaria Municipal de Educação lamenta a decisão dos professores de manterem a greve e ressalta que já atendeu a todas as sete reivindicações prioritárias da categoria. Já foram realizadas várias reuniões com a categoria na tentativa de encerrar a paralisação que tantos transtornos causam para pais e alunos."
Segundo o Executivo municipal, nessa quinta-feira (28), 65 escolas mantiveram 100% das turmas com aulas normais, 240 funcionaram parcialmente e 8 fizeram greve geral. "Os números mostram que 70% das turmas tiveram aula normalmente na manhã desta quinta-feira. Em razão de a assembleia ter sido realizada pela manhã, a expectativa da SMED é que no período da tarde o percentual de turmas com aulas normais seja maior", informou a PBH.
Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.



