Parlamentares de direita e esquerda vão ao TJMG após absolvição de homem acusado de estuprar menina de 12

Decisão do TJMG que absolveu homem de 35 anos acusado de estuprar uma criança de 12 anos gerou revolta entre deputados de direita e esquerda

O entendimento do desembargador Magid Nauef Lauar de que o casal compunha um núcleo familiar foi tema de reuniões do presidente do tribunal Luiz Carlos Corrêa Júnior com nomes da esquerda e da direita.

A repercussão nacional do caso em que um homem de 35 anos foi absolvido da acusação de estuprar uma menina de 12 uniu parlamentares de esquerda e direita para pedir um posicionamento do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O entendimento do desembargador Magid Nauef Lauar de que o casal compunha um núcleo familiar foi tema de reuniões do presidente do tribunal Luiz Carlos Corrêa Júnior com nomes da esquerda e da direita.

Hoje pela manhã, o deputado Nikolas Ferreira (PL) acompanhado pelo vice-governador Mateus Simões (PSD), se encontrou com o presidente do tribunal. Ao fim do encontro, o deputado falou à imprensa sobre as demandas feitas ao Judiciário Estadual.

“Queremos ver as providências que podem ser feitas. Sabemos que gera revolta absurda em pais e mães, é um caso extremamente atípico. Ele usava drogas em frente a essa criança, tinha troca de cestas básicas para a mãe. Esse desembargador, que foi o relator deste caso, teve outro que votou igual. Espero que seja revertido nas instâncias superiores. O que aconteceu para esse desembargador dar essa decisão tão esdrúxula?”, questionou o parlamentar.

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Já na noite de segunda-feira (23), o presente do TJMG recebeu a deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL-MG) e as vereadoras Iza Lourença (PSOL-MG), de Belo Horizonte, e Moara Saboia (PT-MG), de Contagem.

Ao final do encontro, a deputada afirmou que o balanço da reunião foi “positivo”, com o Tribunal de Justiça se comprometendo a abrir uma nova Vara Cível da Infância e da Adolescência e a ampliar o debate para melhorar a formação de juízes e desembargadores que atuam em casos como o ocorrido no Triângulo Mineiro.

“Acho que vamos ter um resultado dessa comoção da sociedade que vai alterar a forma como têm sido naturalizadas as relações de homens mais velhos com crianças e adolescentes”, disse à reportagem.

O TJMG afirmou ainda apurar denúncias surgidas após a repercussão do caso com pessoas alegando terem sofridos abusos sexuais por parte do próprio desembargado Magid Lauar

À Itatiaia , Bella elogiou a postura do presidente do TJMG, Luiz Carlos Corrêa Junior, por abrir espaço para o diálogo com o Poder Legislativo após a “pressão” sobre a instituição. “Acho que vamos ter um resultado dessa comoção da sociedade que vai alterar a forma como têm sido naturalizadas as relações de homens mais velhos com crianças e adolescentes”, disse à reportagem.

Polarização política não afeta debate

Questionada sobre o engajamento de parlamentares progressistas, como as deputadas Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG), e de conservadores, como Nikolas Ferreira, a vereadora de Contagem, que também participou da reunião, ponderou.

Ela afirmou que o apartidarismo é importante para o avanço da pauta, mas lembrou que temas semelhantes têm enfrentado resistência no Congresso Nacional, em Brasília.

Em conversa com a reportagem, citou, por exemplo, o projeto de decreto legislativo que, se aprovado em definitivo, pode dificultar o acesso de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual ao aborto legal.

O texto foi aprovado em novembro de 2025 na Câmara dos Deputados, com 317 votos favoráveis e 111 contrários. Entre os parlamentares que votaram “sim” está o deputado Nikolas Ferreira. “É uma criança de 12 anos que foi abusada por um homem de 35 anos, que fornecia alimentos à família da vítima e que teve o entendimento de que eles mantinham uma relação conjugal. Isso é o que o Congresso aprovou no ano passado, quando quis proibir a interrupção da gravidez em caso de estupro”, disse Moara.

A medida aprovada pelos deputados susta uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), aprovada em dezembro de 2024, que estabelece diretrizes para o atendimento de menores em casos de aborto legal.

Na prática, a resolução — afetada pela aprovação do projeto — possibilita o aborto em crianças e adolescentes grávidas que relatem que a gestação é resultante de abuso sexual, bem como nos casos de risco de vida para a gestante ou de anencefalia do feto.

O entendimento da maioria da Câmara é que a norma extrapola as atribuições do Conanda ao dispensar, por exemplo, a apresentação de boletim de ocorrência.

Para os deputados favoráveis ao projeto, a prioridade dada ao desejo do menor contraria o Código Penal, que atribui aos pais ou responsáveis a decisão. Agora, a proposta tramita no Senado Federal.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, com passagem pela Rádio UFMG Educativa. Na Itatiaia, já foi produtora de programas da grade e repórter da Central de Trânsito Itatiaia Emive.

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