Governo estuda recorrer ao STF para tentar barrar PEC dos agentes de saúde
Equipe econômica avalia que proposta aprovada pelo Congresso cria despesas sem indicar fonte de compensação e pode recorrer ao Supremo para contestar a medida

Preocupado com o impacto fiscal, o governo federal estuda recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter a derrota imposta com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria regras especiais de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias. A informação foi confirmada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, após a aprovação da proposta pelo Senado.
O principal argumento da equipe econômica é que a proposta cria um novo benefício previdenciário sem indicar uma fonte de compensação para os gastos, o que, na avaliação do governo, contraria a Constituição e à jurisprudência do STF. "Se não estiver apontando fonte de receita, descumprindo a jurisprudência do Supremo, é provável que o governo vá ao Supremo.", destacou.
A PEC foi aprovada em dois turnos pelo Senado, nesta terça-feira(14), e agora segue para promulgação pelo Congresso Nacional. O texto estabelece aposentadoria aos 57 anos para mulheres e aos 60 anos para homens, desde que os profissionais tenham 25 anos de contribuição e de efetivo exercício na função. A proposta também garante paridade e integralidade aos servidores enquadrados nas regras e proíbe a terceirização dos agentes, exceto em situações de emergência em saúde pública.
O Ministério da Previdência estima que a medida terá um impacto de aproximadamente R$ 30 bilhões nos próximos dez anos. Estudos da equipe econômica também apontam que os efeitos fiscais poderão superar os R$ 54 bilhões a longo prazo, considerando a antecipação das aposentadorias e a redução das receitas previdenciárias.
Nos bastidores, o Palácio do Planalto tentou adiar a votação e reduzir o impacto fiscal da PEC, mas não conseguiu reunir apoio suficiente para alterar o texto, tendo visto inclusive membros da base aliada votarem a favor da medida.
Integrantes da equipe econômica classificam a proposta como uma "pauta-bomba", por ampliar despesas obrigatórias em um momento de esforço do governo para equilibrar as contas públicas. Durigan afirmou já ter conversado com os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, na tentativa de evitar a aprovação de medidas com elevado impacto fiscal.
Apesar da resistência do Palácio do Planalto, a PEC recebeu amplo apoio no Congresso e foi aprovada. Agora, a discussão pode sair do Congresso e chegar ao Supremo Tribunal Federal. Caso o governo confirme a judicialização, caberá à Corte decidir se a proposta atende às exigências constitucionais para a criação de novas despesas obrigatórias.
João Pedro Melo é jornalista, formado pelo UniCEUB. Tem mais de dez anos de experiência na cobertura de Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. Teve passagens pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação como repórter de política na TV e no rádio.



