'Achei que não daria tempo de sair', diz estudante mineira sobre terremoto na Colômbia
Intercambista da UFMG em Bogotá, capital do país, Elisa Exmalte acordou com a casa tremendo e se escondeu debaixo da mesa antes de correr para a rua

“Eu acordei achando que estava tonta. Só depois percebi que estava vivendo um terremoto.” O relato é da estudante mineira Elisa Exmalte, de 21 anos, aluna de Geografia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que está em intercâmbio na Universidade do Rosário, em Bogotá, capital da Colômbia. Na manhã do terremoto, que atingiu o país nesta segunda-feira (10), ela acordou com o quarto tremendo e precisou decidir, em segundos, se ficava dentro de casa ou tentava escapar para a rua.
Em entrevista à Itatiaia e através de um vídeo publicado em seu perfil nas redes sociais, a jovem compartilhou momentos de tensão durante o fenômeno. Segundo Elisa, o tremor começou por volta das 7h34 daquele dia. Ela dormia em um quarto de uma residência estudantil quando sentiu uma sensação de enjoo e tontura, algo que inicialmente associou às crises de enxaqueca que vinha enfrentando. “Eu não pensei que fosse um terremoto de início”, contou.
O que a fez perceber a gravidade da situação foi um som incomum vindo do banheiro do imóvel. “Escutei o vidro do box batendo. Normalmente ele treme quando o som da igreja aqui perto está muito alto, mas dessa vez não tinha música, não tinha nada. O único barulho era o pessoal saindo de casa às pressas e o vidro batendo. Aí eu entendi que tinha alguma coisa errada acontecendo”, relatou a jovem.
Quando tomou consciência do que acontecia, o tremor já durava havia mais de um minuto. “A primeira coisa que pensei foi que talvez não desse tempo de chegar até o lado de fora da casa. O corredor é muito grande e eu fiquei com medo de o teto desabar antes que eu conseguisse sair dali” Assustada, ela pegou o passaporte e o telefone celular e se escondeu debaixo da mesa do quarto. “Eu estava agachada porque não conseguia nem ficar em pé direito, estava tudo tremendo.”
Pouco depois, ouviu outras pessoas deixando a residência e decidiu segui-las. “Pensei: eu não quero ficar sozinha.” Ao alcançar a lavanderia, próxima à saída da casa, o tremor cessou. “Encontrei duas meninas e perguntei: ‘Gente, eu estou doida?’. Elas responderam: ‘Não, realmente estava tremendo’.”
Já do lado de fora de casa, Elisa se surpreendeu com a tranquilidade dos colegas colombianos. “Uma amiga falou: ‘Isso não foi um terremoto, foi um tremor’. Como eu nunca tinha vivido isso, imaginei que tivesse sido algo leve, um 4 ou 5 na escala Richter.” A estudante então começou a acompanhar os boletins do Serviço Geológico da Colômbia e viu a magnitude aumentar a cada atualização. “Primeiro falaram 6,6, depois 6,8, 7,1, até chegar a 7,4. Foi aí que caiu a ficha de que tinha sido mesmo algo muito forte”.
Mesmo sendo estudante de Geografia e de Ciências do Sistema Terra, Elisa afirma que nada a preparou para a sensação física de um grande terremoto. “Eu sabia que a Colômbia é uma área de forte atividade sísmica e acompanho o site do Serviço Geológico, onde quase todo dia aparece algum tremor. Mas geralmente são abalos tão fracos que as pessoas nem sentem. Esse foi completamente diferente”, disse a jovem.
Ela acredita que o tremor tenha durado entre 90 segundos e dois minutos, tempo suficiente para parecer interminável. “As pessoas que moram comigo disseram que nunca tinham sentido um terremoto tão longo na vida. Eu não imaginava que pudesse durar tanto”.
Assim que chegou à rua, Elisa enviou mensagens para a família em Minas Gerais. “A primeira coisa que fiz foi avisar que estava bem. Achei que seria muito pior se eles descobrissem pela mídia.” Segundo ela, os parentes ficaram assustados, mas foram se acalmando à medida que recebiam novas mensagens.
O episódio também provocou uma reflexão pessoal e acadêmica em Elisa. “Como geógrafa, foi uma experiência surreal. Mudou completamente a minha visão sobre geologia, tectônica de placas e a dinâmica da Terra. Foi algo que eu senti no corpo inteiro”, comentou a estudante.
Apesar do fascínio científico, ela faz questão de destacar o drama humano provocado pelo desastre. “O meu relato vem de Bogotá, onde não houve grandes danos nem vítimas. Mas no oeste do país a situação é muito crítica. Há cidades incomunicáveis, estradas bloqueadas e pessoas procurando familiares nos escombros. Eu não consigo imaginar o desespero de ver um prédio cair na sua frente”, desabafou.
Elisa está na Colômbia há quase dois meses e permanecerá no país até o fim do semestre. “É o meu primeiro terremoto e eu nunca imaginei que seria algo tão forte. Hoje eu me sinto aliviada por estar segura, mas também muito sensibilizada com quem perdeu familiares, casa e tudo o que tinha.”
O que se sabe sobre o terremoto na Colômbia?
O terremoto que atingiu a Colômbia na manhã dessa segunda-feira (10) foi um dos mais fortes registrados no país nas últimas décadas. O Serviço Geológico Colombiano informou magnitude de 7,4, com epicentro no oeste colombiano, a mais de 200 quilômetros de Bogotá.
Até esta quarta-feira (12), o governo colombiano confirmava mais de 240 mortos e dezenas de desaparecidos, número que continua sendo atualizado pelas equipes de resgate. Autoridades locais relatam prédios desabados, bairros destruídos, interrupção de energia, falhas de comunicação e bloqueio de rodovias em regiões próximas ao epicentro do tremor As cidades mais afetadas foram Cali, Pereira, Quibdó e Manizales.
Em pronunciamento oficial, o presidente da Colômbia declarou situação de emergência nas áreas mais afetadas e afirmou que “todos os recursos do Estado estão mobilizados para salvar vidas”. O governo informou ainda o envio de militares, bombeiros e equipes de defesa civil para operações de busca e resgate. O presidente declarou, nesta terça-feira (11), estado de luto oficial de três dias em todo o país.
O Serviço Geológico registrou ainda mais de 70 réplicas nas horas seguintes ao tremor principal, algumas com magnitude próxima de 5. Em Bogotá, porém, a maioria dessas réplicas não foi sentida pela população.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



