Após 40 anos, mãe e filho descobrem que médico usou o próprio sêmen em inseminação artificial
Família entrou com um processo contra o profissional quando descobriu que obstetra e especialista em fertilidade seria pai biológico do filho; ação judicial ainda cita outras possíveis vítimas

Uma mulher de Wisconsin, nos Estados Unidos, e seu filho adulto entraram na Justiça contra um ex-obstetra e especialista em fertilidade após exames de DNA indicarem que o médico teria usado o próprio esperma em um procedimento de inseminação artificial realizado no início da década de 1980, sem o consentimento da paciente. O caso veio à tona mais de 40 anos depois do ocorrido.
A ação foi apresentada no Tribunal do Condado de Milwaukee por Mary Ellen Lukezich e seu filho, Joseph Laedtke Heider, contra o médico aposentado Frederick Dettmann, hoje com 91 anos. Segundo a denúncia, ela procurou tratamento para engravidar junto com o marido e foi informada de que o sêmen utilizado seria de um doador anônimo, descrito como um estudante de medicina saudável. Joseph nasceu em 1983.
Como o caso foi descoberto?
A família afirma que só descobriu a suposta fraude em dezembro de 2024, quando Joseph realizou um teste genético por meio do serviço Ancestry.com. O exame apontou que ele tinha diversos meios-irmãos desconhecidos e indicou compatibilidade genética direta com o ex-médico. A ação sustenta que o doador prometido nunca existiu e que o médico, desde o início da oferta, tinha intenção de utilizar o próprio sêmen no processo de inseminação.
De acordo com o processo, Joseph identificou pelo menos nove meios-irmãos geneticamente ligados ao ginecologista, o que levou a família a suspeitar que outras pacientes também possam ter sido inseminadas com material genético do próprio médico. O advogado dos autores afirmou que outras mulheres já procuraram o escritório relatando experiências consideradas desconfortáveis durante atendimentos realizados pelo obstetra desde os anos 1970.
Médico nega acusações
Em nota enviada à imprensa americana, o obstetra negou as alegações. O ex-médico afirmou que não se lembra dos fatos narrados nem das pessoas envolvidas, citando o longo intervalo de tempo transcorrido desde os procedimentos. Ele se aposentou sem registro público de punições disciplinares relacionadas ao caso. As autoridades locais informaram que não há investigação criminal ativa, em parte porque muitos registros médicos já não estariam disponíveis devido às regras de retenção documental e ao tempo decorrido desde os fatos.
Família busca justiça
A ação apresentada em Milwaukee pede indenização por danos ainda não especificados e solicita julgamento por júri. A família afirma que o objetivo do processo é responsabilizar o ex-médico e incentivar outras possíveis vítimas a procurar assistência jurídica e esclarecer a própria origem biológica.
Segundo o jornal norte-americano Daily Mail, Joseph falou sobre o impacto emocional da revelação durante uma coletiva de imprensa realizada em junho desse ano. Na ocasião, o homem disso que "toda sua identidade foi construída sobre uma mentira".
"Palavras não conseguem expressar completamente o que se sente ao descobrir que toda a sua identidade foi construída sobre uma mentira", disse ele. "O que ele fez foi incompreensível e representou uma traição de confiança tão grande que eu só queria garantir que, se tiver a oportunidade de responsabilizá-lo pela dor que causou à minha mãe e pelas coisas que a submeteu, talvez ela não soubesse na época", completou Joseph.
A mãe e vítima da falsa inseminação, Mary Ellen, também comentou o crime. A mulher relatou a sensação de violação ao tomar conhecimento do que o médico teria feito, mesmo há cerca de 40 anos. "Sinto que fui estuprada [...] Não está certo. Quero que outras mulheres se sintam bem em denunciar", declarou.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



