Em 2008, um estudante do curso de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) decide empreender vendendo camisetas on-line. Um adolescente mergulhava cada vez mais no mundo da criminalidade e era preso pela primeira vez. Ambos viviam em Juiz de Fora, em um momento longe da fama construída no século XX como polo industrial e têxtil, a “Manchester Mineira”.
Dezessete anos depois, o adolescente se tornou um homem que caminha todos os dias para longe da rota de destruição que parecia irreversível. O universitário se tornou um empreendedor que abriu o caminho para ele e outras pessoas em um cenário eternamente desfavorável a quem decide atuar no comércio. Ampliou o atendimento do online para o real, sobreviveu aos temidos “anos iniciais” onde muitos se perdem e sonhos e planos são descartados como tecidos sem possibilidade de remendo.
Apesar de um cenário onde há cores opacas - os dados solicitados ao Centro Industrial e à Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Inclusivo, da Inovação e Competitividade (Sedic) não foram disponibilizados para a reportagem - a Chico Rei se estabelece como nome nacional e internacional no mercado, segue em direção para o futuro apostando nas pessoas e no que não é possível comprar: valores, talento, criatividade e identidade 100% mineira.
Identidade mineira faz parte dos valores da Chico Rei, destaca Bruno Imbrizi
Potência de Juiz de Fora para romper barreiras
A empresa que começou em um quarto hoje tem fábricas, empregados em diferentes unidades, mais de 3 mil criações, clientes em todos os cantos. Fundador e CEO, Bruno Imbrizi aponta como diferenciais da Chico Rei o investimento na criatividade, tecnologia e a parceria com vários artistas na criação das camisetas e outros produtos vendidos no site e nas lojas próprias em Juiz de Fora, Tiradentes e Belo Horizonte e nas multimarcas em vários estados brasileiros.
“Seja na minha cabeça ou efetivamente construindo, sempre foi uma marca para romper barreiras, seja nacional ou internacionalmente. Ser uma potência vindo de Juiz de Fora é um orgulho danado, porque a gente encontra potência nas nossas raízes, na nossa construção. Então, não à toa que a maior parte da nossa produção é feita aqui. A esmagadora parte, quase 95%, feita em Juiz de Fora. A gente está falando de uma relação com a cidade muito potente”.
Sem perder a identidade complexa de Minas Gerais, que são muitas dependendo de onde se vive, Imbrizi comentou como é possível que peças de roupas ou acessórios contenham tantos significados desde a escolha do tecido até chegar aos clientes.
“Está muito conectado com a cultura da empresa. A nossa preocupação com a relação com a comunidade, ela se expande, seja para falar de ecologia, seja para falar de relações mais justas, seja de qualquer assunto que a gente troque numa estampa da Chico, ela tem que reverberar nas nossas ações. Então quando a gente se preocupa com que tipo de fio de algodão a gente compra, eu estou me conectando com a ponta final”.
Ouça a entrevista com Bruno Imbrizi
‘Não sei costurar, mas posso aprender': o resgate de Marcus Vinícius
A tradição oral apresenta Chico Rei como um rei no Congo que foi escravizado e trazido para o Brasil. Em Minas Gerais juntou pó de ouro até comprar a própria liberdade e a de outros escravizados. Ser livre faz parte da trajetória do personagem lendário e da empresa que batizou quase três séculos depois.
No entanto, a liberdade ainda não é plena para Marcus Vinícius Alves, que completa 35 anos em 17 de setembro. Com um currículo de façanhas descumprindo diversos artigos do Código Penal, ao ponto de ter se tornado conhecido entre os policiais, ter colecionado crimes e processos da adolescência à juventude.
“O que me levou a esta vida foi a facilidade de ter as coisas, de ver uma pessoa com tênis da Nike, o que eu também queria usar. Querer sair, querer fazer um lanche”, contou.
O tráfico de drogas, inclusive na própria casa, as companhias envolvidas com o crime, os homicídios consumados e tentados encontraram um freio na condenação em 2014, que o levou para permanecer no complexo penitenciário de Linhares.
Preso, ele priorizou estudo e trabalho. Concluiu o ensino médio. Trabalhou na faxina, no setor de distribuição de alimentos para os outros acautelados. Foi barbeiro. E conheceu Isa e Rose, que cuidavam da unidade que a Chico Rei implantou na Ariosvaldo Campos Pires.
O auxiliar de logística Marcus Vinícius embala os pedidos encomendados no site da Chico Rei
O projeto começou há cinco anos, em parceria de empresas privadas com a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Neste período, 58 acautelados reduziam um dia de sentença a cada três trabalhados. Todos são assalariados e recebem conforme a lei: 25% destinados para uma poupança judicial, 50% para assistência familiar/pessoal e 25% para o Estado.
Atualmente são 16 pessoas trabalhando nos setores de confecção e passadoria, respondendo por 15% da produção de camisetas da empresa. Três ex-acautelados foram contratados para a fábrica externa e três cartas de emprego estavam em andamento neste ano. A empresa investiu R$ 240 mil no preparo da unidade, R$ 90 mil na capacitação de detentos e R$ 40 mil na reforma de celas para 110 detentos.
Uma destas celas abrigou Marcus Vinícius por 11 meses. Durante o horário de trabalho, Rose e Isa tentavam mostrar que havia outro caminho a ser trilhado, mas na época – ele assume – ainda estava com a ‘cabeça virada para o crime’. Elas não desistiram, mesmo quando ele foi transferido a pedido para outra unidade, o que o afastou do trabalho na Chico Rei e o fez se arrepender imediatamente. Depois de nove meses, conseguiu voltar a trabalhar, em uma fábrica de meias, em seguida na marcenaria e na limpeza e cuidado do jardim do complexo penitenciário.
Após retornar de uma saída temporária quando ficou sete dias em casa, Marcus Vinícius recebeu mais uma chance na vida, proporcionada pela intercessão de dona Isa e dona Rose. Depois de três meses, ele foi transferido para o Albergue no Centro de Juiz de Fora e começou a trabalhar na fábrica, onde está há três anos, como auxiliar de logística.
Ouça Marcus Vinícius contando como o significado da vida dele foi recosturado por este emprego.
Trabalho digno é caminho para ressocialização
À Itatiaia, o Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen-MG) informou, via assessoria da Sejusp, que 167 presos trabalham nas duas penitenciárias em Juiz de Fora: 91 em parcerias privadas e 76 na faxina, manutenção, fabricação de uniformes, lavanderia e oficina mecânica dos estabelecimentos prisionais.
“Durante o cumprimento da pena, a oferta de trabalho proporciona sua qualificação ao fornecer conhecimentos, habilidades e competências necessárias para desempenho de suas funções de maneira eficaz, para que, ao se tornar um egresso do sistema prisional, ele possa encontrar com mais facilidade um meio de prover seu sustento e o de sua família por meio do trabalho digno”, diz a nota.
Conforme a Sejusp, a Penitenciária José Edson Cavalieri possui sete parcerias de trabalho com empresas privadas, além de parcerias com o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (Demlurb), Empresa Municipal de Pavimentações e Urbanidades (Empav), Hospital João Penido e Ordem dos Advogados do Brasil Seção Minas Gerais (OAB/MG). Já a Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires tem quatro parcerias de trabalho com empresas privadas.
Conexão interna e externa arrematada com valores consistentes
Segundo o site oficial, o nome da marca foi escolhido reforçando os laços com a identidade mineira “o que de melhor a história de Chico Rei carrega: busca por liberdade, relações coletivas e orgulho de sua terra”.
Nestes 17 anos, a empresa reformou uma escola municipal vizinha da antiga fábrica na Cidade Alta. Na época da pandemia, doou R$ 300 mil em máscaras e destinou à cadeia de produção musical a renda das vendas da camiseta ‘Paciência’ feita em parceria com Lenine e Dudu Falcão. A matéria-prima possui padrões internacionais certificada pelos selos Better Cotton Initiative e PETA Approved Vegan.
“Quando a gente se preocupa com o tipo de trabalho que a gente tem internamente, eu estou me conectando com o público que está consumindo um produto pensado para as estampas que são entregues. A gente fala de educação, de luta indígena, de uma luta antirracista, enfim, todos os níveis que a gente vai conversar na ponta, ele tem que ser amparado pelo meio desse processo, não adianta eu ter um processo de produção superzuado no sentido de exploração ou não ter que preocupar com o meio ambiente e no final querer dialogar de uma maneira bonita, fica muito frágil. A Chico é uma marca e uma empresa muito consistente, tudo que a gente entrega é o que a gente realiza, isso é base para gente”, diz Bruno Imbrizi.
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— Rádio FM Itatiaia / Juiz de Fora (@ItatiaiaJF) August 30, 2025
📷 Roberta Oliveira/Itatiaia#itatiaia #itasat #itatiaiajf #juizdefora #empreendedorismo #comercio #industria #fabrica #camisetas #emprego #ressocializacao #economia #minasgerais pic.twitter.com/5CzIInbFw4
E agindo conforme o que empresa prega, dona Isa e dona Rose seguem presentes na vida de Marcus Vinícius: “Eu acho que elas pensam ‘ele ainda não está pronto’’, contou.
Neste caminho, com tropeços e falhas, ele trabalha todo dia pensando em não dar mais preocupação à esposa e às filhas de relacionamento anteriores. Depois de quase dois anos, está há cinco meses sem a tornozeleira eletrônica, ainda comparece ao Albergue para assinar. A liberdade não é completa. E isso amplia a responsabilidade de quem será avô em breve e se assustou com momentos simples e óbvios de quem trabalha com a carteira assinada, como o dia em que recebeu o primeiro salário.
O auxiliar de logística fala sobre saber que muitas encomendas – das personalidades como Zeca Pagodinho, Milton Nascimento, Marcos Mion e todos que compram pelo site - passam pelas mãos dele, mãos que já fizeram mal, mas que agora embalam de segunda a sexta, das 7h às 17h, alegrias, presentes e manifestações de carinho.
“Para mim, é uma vitória estar lá trabalhando, porque eu não encontraria um serviço que eu tenho hoje em dia, de carteira assinada, com salário bom. Se eu chegasse no mercado de trabalho para entregar um currículo, eu acho que eu não ia ser bem-visto. Então, eu saio de casa feliz e gosto muito de trabalhar lá”, afirmou Marcus Vinícius.
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