A internet está sendo reconstruída para máquinas, não para pessoas
A inteligência artificial questiona justamente essa lógica. Se uma máquina consegue pesquisar, comparar e executar uma tarefa por nós, por que continuaríamos percorrendo cada etapa pessoalmente?

Imagine que você precise viajar no próximo fim de semana. Hoje, provavelmente abriria um aplicativo de passagens, compararia hotéis, leria avaliações, escolheria um restaurante e faria algumas reservas: cinco ou seis aplicativos para organizar uma única viagem. Agora imagine apenas dizer ao seu assistente de inteligência artificial: “Quero ir ao Rio no sábado, ficar num bom hotel perto da praia, gastar até tanto e jantar num restaurante japonês.” Minutos depois, tudo está resolvido: passagens compradas, hotel reservado, mesa marcada, pagamentos feitos dentro do limite que você autorizou. Você não abriu um site, não navegou por menus, não preencheu um formulário. A internet continuou funcionando, mas você praticamente não precisou usá-la.
Parece uma pequena mudança na experiência do consumidor. Pode ser uma das maiores transformações da história da economia digital.
Neste ano, o Google transformou sua principal plataforma de IA para empresas, a Vertex AI, no Gemini Enterprise Agent Platform, um ambiente único para criar, escalar, governar e gerenciar agentes de inteligência artificial. Diferentemente dos sistemas que apenas esperam um comando e devolvem uma resposta, esses agentes usam ferramentas, consultam sistemas, executam código e realizam tarefas longas em ambientes protegidos na nuvem. A empresa também apresentou chips desenhados para rodar grandes quantidades de agentes ao mesmo tempo. É mais um passo de uma transformação que avança em silêncio: as grandes empresas de tecnologia estão montando a infraestrutura para que milhões de agentes trabalhem simultaneamente na rede. Não se trata apenas de assistentes mais inteligentes. Estamos adaptando a própria arquitetura da internet a um novo tipo de usuário: máquinas que agem em nome de pessoas.
Da atenção à execução
Para entender o tamanho dessa mudança, vale lembrar como a internet evoluiu. Primeiro, acessávamos páginas. Depois, os buscadores organizaram esse conteúdo. Com os smartphones, os aplicativos passaram a concentrar nossa vida digital: um para pedir comida, outro para chamar um carro, outro para falar com o banco. Esse modelo criou empresas gigantescas porque transformou a atenção humana em ativo econômico. Quanto mais tempo passávamos navegando, mais oportunidades havia para vender produtos, serviços e publicidade.
A inteligência artificial questiona justamente essa lógica. Se uma máquina consegue pesquisar, comparar e executar uma tarefa por nós, por que continuaríamos percorrendo cada etapa pessoalmente?
É uma mudança muito mais profunda do que trocar uma caixa de busca por uma conversa. Hoje, quando perguntamos ao Google qual é o melhor hotel de uma cidade, recebemos informações que nos ajudam a decidir. Na internet dos agentes, a inteligência poderá executar a decisão: avaliar localização, preço e reputação, checar disponibilidade e concluir a reserva dentro dos limites autorizados. O mesmo valerá para compras, seguros, serviços financeiros, consultas médicas, contratos e uma infinidade de tarefas administrativas. Continuaremos definindo objetivos, preferências e autorizações, mas uma parte crescente do caminho será percorrida sem nós.
E a infraestrutura para isso já está sendo construída. O Google criou um protocolo próprio para pagamentos feitos por agentes, o AP2, e passou a oferecer conexões padronizadas para que agentes usem seus serviços. A Mastercard lançou o Agent Pay, que permite a uma IA pagar em nome do cliente sem nunca ter acesso ao número do cartão, e já registrou transações reais em vários países. Em Hong Kong, um agente reservou e pagou sozinho uma corrida de táxi até o aeroporto. Em julho, Visa, Mastercard e dezenas de outras empresas formalizaram uma fundação dedicada a padrões de pagamento entre agentes. A Stripe também desenvolve ferramentas para que agentes façam compras. As iniciativas estão em estágios diferentes, mas a direção é clara: durante décadas, a internet foi feita para que pessoas encontrassem empresas. Agora surgem sistemas que permitem a uma IA identificar outra, verificar permissões, contratar serviços e pagar por eles. Estamos criando as condições para uma economia em que máquinas negociam diretamente com máquinas.
O que muda para empresas
As consequências para o comércio eletrônico podem ser enormes. Hoje, empresas gastam fortunas para aparecer nos primeiros resultados de busca, atrair visitantes e convencê-los a comprar. Toda uma indústria nasceu em torno de anúncios, palavras-chave, otimização de páginas e taxa de conversão. Mas o que acontece quando o consumidor diz à sua IA que precisa de uma TV de 65 polegadas, com tais características, pelo menor preço e entregue até sexta? O agente consulta fornecedores, compara condições e compra. O consumidor talvez nunca veja a página inicial da loja, seus banners ou os anúncios que ela preparou.
Os sites não vão desaparecer, nem a publicidade. As pessoas continuarão querendo explorar produtos, descobrir novidades e decidir por conta própria. Mas parte do comércio deve migrar de uma disputa pela atenção humana para uma disputa pela preferência dos agentes. Produtos, preços, estoques, condições e reputação precisarão ser legíveis não só para consumidores, mas para inteligências artificiais. Depois de décadas brigando por posições no Google, as empresas vão começar a disputar a recomendação de agentes.
Algo parecido pode acontecer com os aplicativos, sobretudo no trabalho. Abrimos um CRM para consultar um cliente, um ERP para checar um dado financeiro, uma plataforma de atendimento para responder uma mensagem. Muitas vezes o valor desses sistemas está menos na interface e mais nos dados e processos que organizam. Se um agente puder acessá-los com segurança e agir por nós, a necessidade de navegar manualmente por dezenas de telas diminui. Os bancos de dados, as regras de negócio e as integrações continuam essenciais. O que tende a desaparecer é a obrigação de o usuário conhecer e operar cada interface para fazer seu trabalho.
Acredito que esteja aí uma das maiores oportunidades dessa revolução. Nos últimos anos, muitas organizações se concentraram em chatbots que respondem perguntas. A próxima etapa exige IAs que executem processos completos, conectando sistemas, departamentos e empresas. Não basta informar o saldo de uma conta: será preciso entender a solicitação, consultar os dados autorizados, executar a operação e registrar o resultado. O valor estará cada vez menos em responder e cada vez mais em resolver.
Confiança, dinheiro e controle
Essa nova internet traz desafios do mesmo tamanho. Se um agente pode comprar, contratar, cancelar e transferir informações, como garantir que ele está de fato autorizado? Como uma loja saberá que aquela IA representa um consumidor legítimo? Quem responde quando a máquina compra a coisa errada ou acessa o que não devia? E como impedir que criminosos usem agentes para aplicar golpes em escala? Não é por acaso que boa parte do esforço de Google, Mastercard e Visa está em identidade digital, autenticação, limites de gasto e rastreabilidade. A Mastercard, por exemplo, exige que cada agente seja registrado e verificado antes de poder transacionar, numa espécie de “conheça seu agente”. A autonomia dos agentes só vai crescer de forma sustentável se vier acompanhada de mecanismos de confiança e responsabilidade.
Há também uma questão econômica. A internet atual foi financiada, em boa parte, pela atenção humana: milhões de sites oferecem conteúdo gratuito porque monetizam visitas e anúncios. Se agentes passarem a consumir esse conteúdo diretamente, sem exibir páginas nem publicidade, o modelo fica sob pressão. Veículos de comunicação, produtores de conteúdo e negócios que dependem de tráfego precisarão encontrar novas fontes de receita. Ao mesmo tempo, podem surgir modelos em que agentes pagam diretamente por informações e serviços, uma camada econômica paralela desenhada para transações automatizadas.
Talvez a mudança mais importante, porém, esteja na nossa relação com a tecnologia. A cada geração, fomos obrigados a nos adaptar às máquinas: aprender a usar o computador, a navegar, a buscar, a operar aplicativos. A IA começa a inverter essa relação. Em vez de aprender onde clicar e qual formulário preencher, poderemos simplesmente explicar o que queremos e deixar que a máquina descubra como fazer. Isso pode tornar a tecnologia muito mais acessível para idosos e para milhões de pessoas que hoje esbarram em sistemas complicados. Mas também exige cuidado para que conveniência não vire dependência e para que as decisões importantes continuem nas mãos humanas.
Não acredito no fim da internet como a conhecemos. Continuaremos acessando sites, usando aplicativos e consumindo conteúdo. O que começa a mudar é quem realiza uma parte crescente das atividades digitais. A internet deixa de ser apenas um lugar que visitamos e passa a ser também uma infraestrutura onde inteligências artificiais trabalham por nós.
Nos primeiros anos, a grande revolução foi encontrar informação sem sair de casa. Depois, passamos a comprar, contratar e administrar a vida inteira por meio de uma tela. A próxima revolução pode ser justamente não precisar mais olhar para ela.
Durante trinta anos, construímos uma internet para que pessoas navegassem entre máquinas. Agora começamos a construir uma internet em que as máquinas navegam por nós.
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Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.



