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A IA está ficando grátis. E isso pode acabar com milhares de negócios

Em algum momento, dizer que uma empresa utiliza IA poderá soar tão irrelevante quanto dizer hoje que ela utiliza computador.

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As principais empresas de IA do mundo
As principais empresas de IA do mundo

Durante os últimos três anos, boa parte da corrida da inteligência artificial foi baseada em uma premissa simples: inteligência artificial avançada era algo caro, escasso e concentrado nas mãos de poucas empresas. Ter acesso aos melhores modelos significava pagar assinaturas, consumir APIs e administrar uma infraestrutura que ainda representava um custo relevante. Foi nesse cenário que nasceram milhares de startups e novos produtos. Empresas pegaram modelos desenvolvidos por OpenAI, Google, Anthropic e outros laboratórios, adicionaram uma interface, especializaram minimamente a experiência para determinada atividade e começaram a cobrar pelo acesso. Só que uma mudança silenciosa está acontecendo: a inteligência artificial está ficando cada vez melhor e, ao mesmo tempo, cada vez mais barata.

Em algumas situações, praticamente grátis. E isso pode ser uma excelente notícia para os usuários, mas uma péssima notícia para milhares de negócios construídos nos últimos anos.

Nas últimas semanas, essa tendência ficou ainda mais evidente. A OpenAI ampliou o acesso gratuito ao ChatGPT, enquanto Google e outros grandes laboratórios continuam lançando modelos mais rápidos, eficientes e baratos. Essa combinação talvez seja mais importante do que simplesmente acompanhar qual empresa ocupa o primeiro lugar em determinado ranking. Estamos assistindo a uma redução acelerada do custo da inteligência.

Aquilo que poucos anos atrás exigia equipes especializadas, infraestrutura tecnológica e investimentos elevados começa a estar disponível para qualquer pessoa com acesso à internet. É parecido com o que aconteceu com armazenamento, processamento e distribuição de conteúdo ao longo da história da tecnologia: primeiro são recursos caros e escassos; depois se transformam em infraestrutura abundante. A diferença é que, desta vez, o recurso que está se tornando abundante é algo que durante toda a história humana consideramos extremamente valioso: a capacidade de produzir conhecimento, analisar informações, criar e resolver problemas.

Isso cria um problema enorme para uma parcela do mercado de inteligência artificial. Nos últimos anos, tornou-se relativamente comum encontrar empresas cujo produto, quando retiramos a embalagem, consiste basicamente em uma camada construída sobre um grande modelo de linguagem. Uma IA para escrever contratos, outra para produzir textos de marketing, outra para montar apresentações, outra para responder clientes, outra para analisar documentos.

Muitas dessas soluções foram importantes porque simplificaram o acesso à tecnologia em um momento em que utilizar os grandes modelos ainda exigia conhecimento e configuração. Mas existe uma pergunta desconfortável que todo empreendedor de IA deveria fazer neste momento: o que acontece com o meu negócio quando o modelo que está por trás dele fizer sozinho aquilo que hoje eu cobro para entregar? Se a resposta for “meu produto deixa de ser necessário”, talvez não exista ali uma empresa de tecnologia sustentável, mas apenas uma oportunidade temporária criada pela limitação atual dos modelos.

Já vimos esse filme antes. No início da popularização da internet, surgiram negócios especializados simplesmente em oferecer acesso à rede. As lan houses foram fundamentais porque computadores e conexões eram caros e inacessíveis para grande parte da população. Durante algum tempo, possuir máquinas conectadas à internet era suficiente para construir um negócio. Depois os computadores ficaram baratos, a banda larga chegou às casas e finalmente a internet passou a morar no bolso das pessoas.

O valor não desapareceu: ele apenas mudou de lugar. As empresas que dependiam exclusivamente da escassez do acesso desapareceram, enquanto aquelas que construíram produtos, plataformas, comunidades, dados e serviços sobre a internet se tornaram gigantes. Acredito que estamos próximos de assistir ao mesmo fenômeno com a inteligência artificial.
Isso não significa que as empresas de IA vão desaparecer. Muito pelo contrário. Provavelmente veremos algumas das maiores empresas da próxima década nascerem justamente agora. Mas a vantagem competitiva dificilmente estará simplesmente em “ter uma IA”.

Se todos tiverem acesso a modelos extremamente poderosos por preços próximos de zero, o modelo deixa de ser o produto e passa a ser infraestrutura. A eletricidade é fundamental para praticamente todas as empresas, mas poucas empresas conseguem cobrar de seus clientes simplesmente pelo fato de utilizarem eletricidade. A internet está presente em praticamente todos os negócios modernos, mas dizer que uma empresa “usa internet” não representa vantagem competitiva. A inteligência artificial caminha rapidamente para ocupar posição semelhante.

Em algum momento, dizer que uma empresa utiliza IA poderá soar tão irrelevante quanto dizer hoje que ela utiliza computador.

O valor estará em tudo aquilo que existe ao redor dessa inteligência. Dados proprietários, conhecimento acumulado, integração com sistemas, acesso a mercados, distribuição, marca, relacionamento com clientes e, principalmente, capacidade de transformar inteligência em execução real.

Existe uma diferença gigantesca entre uma IA que responde como uma empresa deveria atender determinado cliente e uma infraestrutura conectada ao CRM, ao financeiro, aos canais de comunicação e às regras daquele negócio, capaz de identificar o cliente, compreender seu histórico, tomar uma decisão permitida e executar uma jornada inteira.

Quanto mais barato ficar o cérebro, mais importante ficará aquilo a que esse cérebro está conectado. Talvez essa seja uma das principais mudanças de estratégia que empresas e empreendedores precisarão compreender nos próximos anos.
Existe ainda uma consequência mais profunda.

Se o custo da inteligência continuar caindo, não serão apenas startups de IA que enfrentarão esse questionamento. Empresas tradicionais também precisarão descobrir quanto do preço que cobram atualmente está associado a atividades intelectuais que poderão ser realizadas por máquinas a um custo infinitamente menor.

Consultorias, agências, escritórios, empresas de software, serviços financeiros, educação e inúmeras outras indústrias possuem modelos de negócio construídos, em alguma medida, sobre a escassez de conhecimento especializado e de horas humanas. Quando parte desse conhecimento passa a ser abundante, o cliente inevitavelmente começa a perguntar por que deveria continuar pagando o mesmo preço. Isso não significa o desaparecimento desses setores, mas provavelmente provocará uma profunda reorganização de onde está o valor dentro deles.

Talvez, portanto, estejamos olhando para a questão errada quando discutimos qual será a melhor inteligência artificial. GPT, Gemini, Claude e os modelos que ainda surgirão continuarão disputando desempenho, velocidade e capacidade.

Para a maioria das empresas, porém, pode chegar um momento em que essa escolha será semelhante à decisão sobre qual provedor de nuvem ou infraestrutura está por trás de determinado serviço: importante tecnicamente, mas quase invisível para o consumidor. Modelos poderão ser substituídos, combinados e escolhidos automaticamente conforme preço e tarefa. O vencedor não será necessariamente quem possuir a IA mais inteligente, mas quem souber utilizar inteligência abundante para construir algo que continue raro.

Durante séculos, inteligência foi um dos recursos mais escassos e caros da economia. Formar especialistas levava décadas. Contratar conhecimento custava caro. Escalar capacidade intelectual significava contratar mais pessoas. A inteligência artificial começa a romper essa relação.

Pela primeira vez, podemos estar caminhando para uma economia em que adicionar capacidade intelectual a determinado processo tenha um custo marginal cada vez menor. Ainda estamos longe de uma inteligência verdadeiramente gratuita em todos os sentidos, modelos avançados continuam exigindo enormes investimentos em chips, energia e data centers, mas para quem está do outro lado da tela a direção parece clara: mais capacidade por menos dinheiro.

Por isso, a pergunta que eu faria hoje a qualquer empreendedor que esteja construindo uma empresa baseada em inteligência artificial não é qual modelo ele utiliza. Também não perguntaria quantos agentes possui ou quantos recursos de IA colocou em seu produto. Perguntaria algo muito mais simples: se amanhã a inteligência que você utiliza custar praticamente zero e estiver disponível para todos os seus concorrentes, por que seu cliente continuará pagando você?

A resposta para essa pergunta talvez determine quais empresas de IA estamos vendo nascer agora e quais delas ainda existirão daqui a cinco anos.

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Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.

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