A IA pode criar mais milionários de 40 anos do que de 20
De repente, jovens que nunca haviam comandado uma empresa começaram a derrubar modelos de negócio centenários

Quando a internet começou a transformar o mundo, ela tinha quase uma linguagem geracional. Quem entendia primeiro eram os jovens. Adolescentes e universitários de 15, 18 ou 22 anos criavam empresas dentro de quartos, garagens e dormitórios de universidades, e muitos sequer tinham terminado a faculdade quando começaram a construir negócios que, anos depois, valeriam bilhões de dólares. Foi um choque cultural: durante décadas, a experiência tinha sido praticamente sinônimo de vantagem competitiva. De repente, jovens que nunca haviam comandado uma empresa começaram a derrubar modelos de negócio centenários. A internet premiava quem entendia o novo território antes dos outros.
Tenho a impressão de que a inteligência artificial pode produzir um movimento diferente. Nesta primeira grande onda da IA, não me surpreenderia se surgissem proporcionalmente mais novos milionários de 35, 40, 50 anos do que jovens de 20. E, na verdade, mesmo antes da IA entrar em cena, os dados já apontavam nessa direção: um estudo do MIT liderado pelo economista Pierre Azoulay, que analisou milhões de fundadores nos Estados Unidos, mostrou que a idade média de quem funda uma empresa é de 42 anos, e sobe para 45 entre os fundadores das startups de crescimento mais rápido. O mito do garoto de 20 anos genial na garagem sempre foi mais exceção do que regra. A diferença é que a IA pode aprofundar ainda mais essa tendência, porque ela reduz drasticamente o tempo necessário para transformar conhecimento em execução.
Uma pessoa que levou vinte anos para entender um setor agora pode usar inteligência artificial para pesquisar mais rápido, programar, criar produtos, analisar dados, estruturar estratégias e testar ideias numa velocidade que simplesmente não existia até pouco tempo atrás. Tenho um sócio, executivo de 55 anos que passou duas décadas no mercado financeiro: ele conhece os processos ruins, sabe onde estão os desperdícios, entende a regulação, sabe quem compra e quem vende, e principalmente conhece os problemas pelos quais empresas estão dispostas a pagar. Durante muito tempo, ele teve dezenas de ideias e pouca capacidade de executá-las sozinho. Agora pode colocar IA em cima desse repertório, e isso muda a equação. O mesmo vale para um médico de 50 anos, uma advogada de 48 ou um professor de 40: todos carregam algo que nenhum modelo de linguagem consegue simplesmente baixar da internet, que é contexto acumulado.
Essa é talvez a maior diferença entre as duas revoluções. A internet democratizou o acesso à informação. A IA está democratizando a capacidade de execução. E existe uma distância enorme entre essas duas coisas. Quando todo mundo passa a ter acesso às mesmas ferramentas extraordinárias, a vantagem competitiva deixa de ser saber usar a ferramenta e passa a ser saber o que fazer com ela. Um jovem de 20 anos pode dominar perfeitamente ChatGPT, Claude, Gemini ou qualquer ferramenta que surja nos próximos meses: pode programar com agentes, criar vídeos, automatizar processos numa velocidade impressionante. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas habilidades: qual problema relevante essa pessoa decidiu resolver? E é aí que o repertório de quem já viveu vinte anos dentro de uma indústria pesa: são anos vendo problemas invisíveis para quem observa aquele mercado pela primeira vez.
Isso não significa, porém, que a juventude perdeu sua vantagem, só que ela é de outra natureza. Quem está começando agora não carrega o compromisso de preservar o mundo anterior. Não tem processos legais para defender, não tem receita antiga para proteger, não precisa convencer ninguém internamente de que vale a pena mudar. Um jovem de 20 anos pode simplesmente ignorar como as coisas sempre foram feitas e começar do zero, e isso continuará produzindo fundadores extraordinariamente jovens, como sempre produziu. A diferença é que, pela primeira vez numa revolução tecnológica recente, essa não é mais a única avenida de oportunidade. Abriu-se uma segunda rota, e ela passa por quem já acumulou repertório.
É essa segunda rota que me parece nova. Pessoas que acumularam conhecimento durante décadas receberam, quase de repente, ferramentas capazes de multiplicar sua capacidade intelectual e operacional. É como entregar uma equipe inteira (um programador, um analista, um redator, um designer, um estrategista) a alguém que passou vinte anos acumulando problemas que gostaria de resolver. Antes, experiência sem capital, equipe ou capacidade técnica muitas vezes virava só experiência. Agora, experiência combinada com IA pode virar empresa.
A próxima grande empresa de inteligência artificial brasileira talvez não nasça de alguém que acabou de trancar a faculdade. Pode nascer de alguém que passou vinte anos dentro de um banco, hospital, escritório de advocacia ou empresa de logística olhando para o mesmo problema e pensando "isso poderia funcionar de outro jeito", e que só agora tem, finalmente, as ferramentas para construir esse outro jeito.
Na era da internet, a juventude era quase uma vantagem tecnológica. Na era da inteligência artificial, repertório pode se tornar uma vantagem econômica. E talvez muita gente que se achava velha demais para participar da próxima revolução descubra exatamente o contrário: passou os últimos vinte anos se preparando para ela sem saber.
Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.



