As Lan Houses da Inteligência Artificial
Inteligência artificial será uma das maiores destruidoras de ilusões empresariais

Na minha coluna de estreia, escrevi que o call center pode ser a próxima vídeo locadora. A provocação gerou muitas mensagens de leitores que concordaram, discordaram ou simplesmente perguntaram quais seriam os próximos setores a sofrer uma transformação profunda provocada pela inteligência artificial. Mas existe uma pergunta que considero ainda mais interessante por agora: e se, em vez de falarmos sobre os negócios que serão destruídos pela IA, falarmos sobre os negócios de IA que poderão desaparecer? Toda grande revolução tecnológica cria vencedores, mas também produz uma enorme quantidade de empresas que parecem brilhantes durante a fase inicial de crescimento e acabam desaparecendo quando a tecnologia amadurece. Foi exatamente isso que aconteceu com as lan houses.
Para quem não viveu o início dos anos 2000, é difícil compreender o tamanho daquele mercado. Em determinado momento, abrir uma lan house parecia uma das decisões mais inteligentes que um empreendedor poderia tomar. A internet crescia rapidamente, os computadores eram caros, a banda larga ainda era limitada e os jogos online começavam a se tornar um fenômeno global. Milhões de pessoas queriam participar daquele novo mundo digital, mas não possuíam acesso aos equipamentos necessários. A lógica era simples e aparentemente irrefutável: se as pessoas não tinham computador em casa, elas pagariam para utilizar o seu ou se não tinha internet de alta velocidade, elas pagariam para utilizar a sua.. E foi exatamente o que aconteceu. Durante alguns anos, milhares de empreendedores prosperaram com esse modelo de negócio. Algumas redes cresceram, expandiram e chegaram a operar dezenas de unidades.
O problema é que muitos confundiram uma necessidade temporária com uma oportunidade permanente. O que sustentava as lan houses não era uma vantagem competitiva duradoura, mas uma limitação tecnológica daquele momento histórico. Quando os computadores ficaram mais acessíveis, quando a internet chegou às residências e quando os smartphones passaram a concentrar boa parte da experiência digital das pessoas, a necessidade desapareceu. As lan houses não foram derrotadas por concorrentes mais eficientes. Foram derrotadas pela evolução natural da própria tecnologia. E é justamente por isso que vejo com preocupação parte da euforia atual em torno dos negócios baseados em inteligência artificial.
Não me refiro à IA como tecnologia. Pelo contrário. Acredito que estamos diante da maior transformação econômica desde a popularização da internet. Minha preocupação está na quantidade de empresas sendo construídas sobre problemas temporários. Todos os dias surgem novas startups prometendo revolucionar o mercado com agentes de IA, SDRs autônomos, assistentes inteligentes, tradutores em tempo real, sistemas de automação e uma infinidade de outras aplicações. Muitas delas apresentam crescimento acelerado, conquistam clientes rapidamente e atraem investimentos relevantes. Mas crescimento não é necessariamente sinônimo de longevidade. A história da tecnologia está repleta de empresas que pareciam inevitáveis durante uma fase de transição e que desapareceram poucos anos depois.
Existe um erro recorrente entre empreendedores de tecnologia: acreditar que qualquer produto construído sobre uma inovação disruptiva possui automaticamente valor de longo prazo. A realidade costuma ser mais dura. Durante a revolução da internet surgiram milhares de empresas que pareciam indispensáveis. Poucas sobreviveram. Durante a revolução dos smartphones aconteceu exatamente a mesma coisa. Agora estamos repetindo o ciclo, mas em velocidade muito maior. Recentemente, por exemplo, surgiram diversas empresas especializadas em tradução de aúdio por inteligência artificial. A proposta parecia brilhante. Permitir que uma IA transcrevesse áudios que você recebia por whatsapp.
Mas então aconteceu algo previsível. Gigantes da tecnologia enxergaram exatamente a mesma oportunidade. Recursos de tradução ou transcrição simultânea começaram a surgir de forma nativa dentro de plataformas, sistemas operacionais, assistentes digitais e grandes modelos de linguagem. O que parecia uma empresa acabou se transformando em uma funcionalidade. E existe uma diferença enorme entre ser um negócio e ser uma feature. Negócios capturam valor. Features ajudam outras empresas a capturar valor. Essa distinção aparentemente simples será responsável por destruir uma quantidade significativa de startups de inteligência artificial nos próximos anos.
Hoje vejo centenas de empresas sendo criadas sob este erro. Muitas possuem profissionais extremamente competentes, equipes talentosas e uma boa capacidade de execução. O problema é que, em inúmeros casos, a tecnologia central não pertence a elas. Elas dependem dos modelos desenvolvidos por empresas com recursos praticamente ilimitados, capacidade de distribuição global e velocidade de evolução tecnológica incomparável. Isso cria um risco que muitos empreendedores ainda subestimam. O maior concorrente de uma startup de IA não é outra startup. É a possibilidade de uma Big Tech acordar amanhã e decidir incorporar sua proposta de valor dentro de um produto já utilizado por bilhões de pessoas ao redor do mundo.
Quando isso acontece, a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser econômica. Por que uma empresa contrataria uma solução isolada se a mesma funcionalidade já estiver disponível dentro das plataformas que ela utiliza diariamente? Essa pergunta deveria estar na mesa de qualquer empreendedor que esteja construindo um negócio baseado em inteligência artificial. Não porque empreender em IA seja um erro. Muito pelo contrário. Talvez nunca tenha existido um momento tão fértil para criar empresas inovadoras. O ponto é que existe uma diferença fundamental entre construir uma empresa que utiliza inteligência artificial e construir uma empresa cuja existência depende exclusivamente de uma funcionalidade que pode ser absorvida pelas plataformas dominantes do mercado.
As oportunidades mais duradouras provavelmente não estarão nos agentes em si, mas nos dados, nos processos, na distribuição, no conhecimento especializado e na capacidade de resolver problemas complexos que as grandes plataformas não conseguem atacar sozinhas. A inteligência artificial será uma das maiores criadoras de riqueza da história, mas também será uma das maiores destruidoras de ilusões empresariais. Por isso, antes de investir tempo, dinheiro ou energia em uma startup de IA, vale a pena fazer uma pergunta simples: você está construindo algo que continuará existindo quando a tecnologia evoluir ou está apenas construindo a próxima lan house?
Os donos de lan house não erraram ao acreditar no crescimento da internet. Eles acertaram a tendência. O erro foi acreditar que a forma como aquela tendência se manifestava naquele momento seria também a forma pela qual ela capturaria valor no futuro. Talvez essa seja a reflexão mais importante para os empreendedores da era da inteligência artificial. Porque nem todo negócio criado durante uma revolução tecnológica sobrevive para contar a história dela.


