Naufrágios centenários descobertos na Suécia revelam a evolução naval medieval
Achados vão da Idade Média ao século XVII e mostram técnicas de construção naval que dominaram o mar Báltico, desde o estilo clinker até a tradição holandesa

Durante obras de um túnel ferroviário em Varberg, na Suécia, operários encontraram algo inesperado sob o canteiro: seis embarcações naufragadas que permaneceram ocultas por séculos. Os navios vão desde a Idade Média até o século XVII e preservam diferentes estilos de construção naval.
A descoberta revela como as técnicas de construção marítima evoluíram ao longo de centenas de anos. Este guia explora cada estilo construtivo identificado, as características que tornavam essas embarcações adequadas ao comércio no Báltico e o que os detalhes preservados contam sobre a engenharia naval do período.
Os seis naufrágios e suas diferentes épocas
O projeto do Túnel de Varberg, parte de uma modernização ferroviária, revelou seis estruturas distintas em 2025. Quatro embarcações datam da Idade Média ou Baixa Idade Média, uma do século XVII, e a última não pôde ser datada com precisão.
Os navios foram encontrados na região central da cidade, área que funcionava como linha costeira original e abrigava defesas portuárias durante o período medieval. O que hoje é centro urbano já foi totalmente submerso ou zona de ancoradouro ativo.
A arqueóloga Elisabet Schager, gerente do projeto pela consultoria Arkeologerna, destacou que os naufrágios 2, 5 e 6 apresentam maior interesse arqueológico pela preservação e pelos elementos técnicos distintos.
Naufrágio 2: o veleiro em carvalho da década de 1530
O naufrágio 2 é uma embarcação a vela construída em carvalho durante a segunda metade da década de 1530. A madeira veio do oeste da Suécia, indicando produção local ou regional próxima.
A técnica construtiva é o estilo clinker, no qual as bordas das tábuas se sobrepõem umas às outras. Esse método era característico da construção naval escandinava e permitia maior flexibilidade estrutural em águas agitadas.
Duas seções do casco do lado de estibordo ainda permanecem intactas, junto com tábuas dispersas. O navio possuía convés total ou parcial, oferecendo proteção à tripulação e carga.
O berghult: elemento de proteção e reforço estrutural
Um dos aspectos mais relevantes do naufrágio 2 é a presença de um **berghult** preservado. Trata-se de uma tira protetora fixada na parte externa do casco.
Segundo Elisabet Schager, esse elemento é particularmente empolgante do ponto de vista arqueológico. O berghult funciona como reforço que protege o casco durante atracação em rochas ou píeres rústicos, além de servir como suporte para a superestrutura da embarcação.
Traços de fogo foram identificados nessa peça de proteção. A equipe acredita que o navio pode ter sido queimado intencionalmente antes de afundar, prática que em alguns contextos históricos servia para descartar embarcações danificadas ou obsoletas.
Naufrágio 5: veleiro do século XVII com conexões ao Báltico
O naufrágio 5 data do século XVII e compartilha características com o naufrágio 2. Também foi construído em carvalho local, utilizando a técnica de tábuas sobrepostas (clinker).
Os especialistas acreditam que ambas as embarcações navegavam nas águas além das duas cidades medievais de Varberg e Ny Varberg. O naufrágio 5, contudo, provavelmente percorreu extensões maiores do mar Báltico, participando de rotas comerciais regionais.
Essa embarcação ilustra a continuidade de métodos construtivos escandinavos mesmo após o período medieval, mostrando a persistência de técnicas validadas por séculos de navegação.
Naufrágio 6: o estilo caravela e a influência holandesa
O naufrágio 6 se distingue completamente dos demais por empregar o estilo caravela. Nessa técnica, as tábuas são colocadas borda a borda, fixadas à estrutura interna, sem sobreposição para acabamento liso.
Também construído em carvalho, esse naufrágio é o único dos seis que preservou a quilha. Essa quilha possui um entalhe (rabetada ou sulcada), característica que mostra traços da tradição de construção naval holandesa.
Os especialistas, entretanto, não conseguiram datar a madeira dessa embarcação. A presença de técnicas holandesas sugere intercâmbio de conhecimento construtivo ou possível origem estrangeira do navio, evidenciando as conexões comerciais e tecnológicas entre diferentes regiões do norte europeu.
Naufrágios 3 e 4: os navios de fundo chato do comércio medieval
Os naufrágios 3 e 4, ambos do século XIV, representam embarcações de fundo chato. Esse design era extremamente comum no comércio medieval, pois permitia navegação em águas rasas e facilitava o embarque e desembarque de mercadorias em praias ou margens fluviais.
Navios de fundo chato eram essenciais para as redes comerciais da Idade Média. Sua versatilidade os tornava adequados tanto para navegação costeira quanto para penetração em estuários e rios, expandindo as possibilidades de rotas mercantis.
As equipes de arqueologia continuarão analisando essas embarcações. O objetivo é extrair informações adicionais sobre a vida marítima medieval, incluindo detalhes sobre as redes de comércio que conectavam diferentes regiões através do Báltico.
Por que tantos naufrágios aparecem em projetos de infraestrutura
Elisabet Schager explicou que grandes projetos de infraestrutura na costa oeste da Suécia vêm revelando cada vez mais naufrágios. As áreas que hoje constituem centros urbanos eram portos ativos ou completamente submersas durante a Idade Média e o início da era moderna.
O avanço das construções modernas alcança camadas arqueológicas antes inacessíveis. Quando escavações profundas são necessárias para túneis, estações ou fundações, os vestígios marítimos enterrados há séculos ressurgem.
O trabalho atual acontece em parceria com o Museu Bohuslän, Visual Archaeology e Cultural Environment Halland. Segundo Schager, "Será muito interessante, e teremos muitas coisas empolgantes para contar no futuro", indicando que mais descobertas devem surgir conforme a urbanização avança sobre antigas zonas portuárias.
O que cada técnica construtiva revela sobre navegação e comércio
A variedade de estilos encontrados nos seis naufrágios ilustra a diversidade de soluções de engenharia naval desenvolvidas para diferentes necessidades. O estilo clinker escandinavo, com tábuas sobrepostas, oferecia flexibilidade e resistência para mares agitados do norte da Europa.
O estilo caravela, com tábuas borda a borda, proporcionava superfície externa lisa que reduzia o atrito com a água, potencialmente aumentando a velocidade. A presença dessa técnica com influência holandesa mostra intercâmbio tecnológico entre regiões.
Os navios de fundo chato demonstram a adaptação às condições específicas do comércio medieval: necessidade de operar em diferentes profundidades de água, facilidade de carga e descarga, e capacidade de alcançar locais sem infraestrutura portuária desenvolvida. Cada design representa uma resposta técnica a desafios práticos da navegação comercial.
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