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Quando a IA começa a fazer ciência, não apenas a interpretá-la

A IA começa a atravessar outra fronteira e entrar nos lugares onde experimentamos o mundo físico

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Quando a IA começa a fazer ciência, não apenas a interpretá-la
Quando a IA começa a fazer ciência, não apenas a interpretá-la • Gemini

Nos últimos anos, a inteligência artificial entrou silenciosamente nos hospitais. Primeiro em tarefas administrativas, depois no relacionamento com pacientes, na organização de jornadas, no agendamento, na triagem, no acompanhamento e na gestão hospitalar. Hoje já existem sistemas capazes de conversar com milhares de pacientes simultaneamente, acompanhar etapas de tratamento, organizar informações e apoiar equipes na tomada de decisões.

Em paralelo, softwares de IA passaram a auxiliar médicos na análise de imagens, na interpretação de exames e em diferentes processos clínicos. Essa transformação está longe de terminar, mas uma nova fronteira já aparece no horizonte: a inteligência artificial não quer apenas ajudar a administrar hospitais ou interpretar o que acontece dentro deles. Agora, ela está entrando nos laboratórios onde a própria ciência é produzida.

Nesta semana, a Anthropic, empresa responsável pelo Claude e uma das principais concorrentes da OpenAI, revelou estar avançando justamente nessa direção. Segundo reportagem da Reuters, a companhia montou discretamente um laboratório de biologia em São Francisco para aproximar seus modelos de inteligência artificial do trabalho experimental realizado por cientistas.

A iniciativa faz parte da estratégia da empresa para ampliar o uso de IA em biologia e no desenvolvimento de medicamentos. O detalhe importante é que não se trata simplesmente de colocar um chatbot à disposição de pesquisadores. A ambição é aproximar inteligência artificial, cientistas e equipamentos de laboratório, permitindo que os modelos participem cada vez mais do processo que transforma uma hipótese em experimento e um experimento em conhecimento.

Essa diferença pode parecer pequena, mas é gigantesca. Até agora, a maior parte da inteligência artificial que conhecemos trabalha sobre informações que nós já produzimos: alimentamos os modelos com textos, artigos científicos, imagens, prontuários e enormes bases de dados, e pedimos que encontrem padrões, façam análises ou produzam respostas. Um laboratório é outra coisa. É o lugar onde aquilo que ainda não sabemos é descoberto, onde uma hipótese precisa ser testada no mundo físico. Uma molécula precisa ser sintetizada, uma reação precisa acontecer, uma célula precisa responder, e o resultado precisa ser observado. Quando a inteligência artificial entra nesse ciclo, deixamos de falar em automatizar uma tarefa e passamos a falar em acelerar o próprio processo de descoberta científica.

Imagine um pesquisador tentando desenvolver um novo medicamento. Tradicionalmente, ele parte do conhecimento existente, formula hipóteses, seleciona quais experimentos realizar, analisa os resultados e usa essas informações para decidir o próximo passo. Esse ciclo pode se repetir inúmeras vezes e consumir meses ou anos. Agora imagine uma IA capaz de analisar simultaneamente uma quantidade de literatura científica impossível para qualquer ser humano, cruzar milhares de informações, sugerir hipóteses, ajudar a desenhar experimentos e, quando os resultados voltarem do laboratório, usá-los para propor a próxima rodada de testes.

O cientista não desaparece desse processo. Pelo contrário: passa a trabalhar com uma capacidade de análise e exploração humanamente impossível. O maior ganho talvez não esteja em substituir o pesquisador, mas em multiplicar a quantidade de caminhos que ele consegue investigar.

Vale não transformar isso em ficção científica. A IA ainda não é uma cientista autônoma capaz de entrar sozinha num laboratório e descobrir a cura de uma doença. O desenvolvimento de medicamentos segue sendo um processo extremamente complexo, regulado e dependente de experimentação, validação e conhecimento humano. Mas a direção merece atenção.

Estamos saindo de uma fase em que a inteligência artificial era essencialmente uma ferramenta de processamento de informações para outra em que ela começa a participar do ciclo de geração de conhecimento. E quando esse ciclo se conecta a equipamentos, automação e robótica, a velocidade potencial da transformação aumenta ainda mais.

Na saúde, essa evolução é especialmente interessante porque já dá para enxergar uma cadeia completa em construção. Na entrada do hospital, a IA cuida da relação com o paciente. Dentro da instituição, ajuda a organizar operações, dados e processos. No ambiente clínico, apoia análises e decisões. E agora, nos laboratórios, começa a auxiliar a pesquisa que poderá produzir os medicamentos e tratamentos do futuro. São aplicações diferentes da mesma tecnologia ocupando, aos poucos, partes distintas da jornada da saúde.

Acompanho de perto a primeira parte dessa transformação, porque já existem projetos no Brasil usando inteligência artificial para organizar jornadas de cuidado e relacionamento. Em saúde, um dos maiores desafios não é apenas descobrir qual tratamento deve ser realizado, é fazer com que a pessoa chegue até ele.

Identificar pacientes, organizar informações, lembrar exames, orientar etapas, reduzir faltas e manter uma comunicação contínua pode ter impacto real sobre a eficiência do sistema, numa escala que seria economicamente inviável usando só estruturas humanas. Mas essa aplicação, por mais poderosa que seja, ainda trabalha com aquilo que a medicina já sabe. O laboratório representa a possibilidade de usar a IA também para descobrir o que a medicina ainda não sabe.

E talvez seja aí que esteja uma das consequências mais interessantes da inteligência artificial. Quando falamos sobre IA, quase sempre discutimos produtividade: quantas pessoas ela substituirá, quanto tempo economizará, quanto uma empresa poderá cortar de custos. É uma visão compreensível, mas limitada.

Se a tecnologia conseguir acelerar ciclos de pesquisa, seu maior impacto pode não ser fazer o mesmo trabalho com menos gente, mas permitir que a humanidade investigue mais possibilidades dentro do mesmo intervalo de tempo. Em certas áreas, encurtar em alguns anos o caminho entre uma hipótese promissora e um tratamento eficaz vale mais do que qualquer economia operacional.

Com isso vêm responsabilidades maiores. Uma recomendação errada numa campanha de marketing pode custar dinheiro. Uma hipótese errada num ambiente científico ou clínico pode ter consequências muito mais sérias. Quanto mais a IA se aproxima da biologia, da descoberta de medicamentos e da saúde humana, maiores precisam ser os mecanismos de validação, segurança, rastreabilidade e supervisão.

A velocidade da máquina não pode substituir o rigor da ciência: gerar milhares de hipóteses não transforma automaticamente essas hipóteses em verdades. Elas continuam precisando ser testadas, reproduzidas e validadas.

Este é talvez o ponto mais interessante da notícia desta semana. Por muito tempo, imaginamos a inteligência artificial confinada a computadores. Depois ela chegou aos celulares, às empresas, aos hospitais. Agora começa a atravessar outra fronteira e entrar nos lugares onde experimentamos o mundo físico. Laboratórios de biologia são só um exemplo: química, novos materiais, energia, agricultura e tantas outras áreas podem seguir caminhos parecidos, à medida que os modelos se conectem a instrumentos científicos e sistemas automatizados.

A próxima grande revolução da inteligência artificial, portanto, talvez não aconteça na tela do computador. Talvez aconteça numa bancada de laboratório.

E se a IA conseguir acelerar não só o trabalho que já sabemos fazer, mas também a descoberta daquilo que ainda não sabemos, seu impacto sobre a humanidade pode ser muito maior do que imaginávamos quando começamos a conversar com o ChatGPT.

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Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.

 

 

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