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Depois dos empregos, a IA agora ameaça os aplicativos e softwares

O sistema mais importante talvez não seja aquele que possui a melhor interface, mas aquele que consegue ser melhor compreendido e operado por outras inteligências. O software não desaparece. A interface é que pode desaparecer.

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Depois dos empregos, a IA agora ameaça os aplicativos e softwares
Depois dos empregos, a IA agora ameaça os aplicativos e softwares • Gemini

Durante décadas, a indústria de tecnologia nos ensinou uma coisa: para usar um software, primeiro precisamos entrar nele. Abrimos um aplicativo, fazemos login, procuramos um menu, encontramos uma função, preenchemos campos, apertamos botões e esperamos que o sistema faça aquilo que queremos. Talvez essa lógica esteja começando a morrer.

Uma expressão até então mais restrita aos círculos de tecnologia começou a ganhar espaço nas discussões sobre o futuro do setor: headless software. O Financial Times tratou recentemente do assunto ao discutir uma nova transformação provocada pela inteligência artificial no mercado de software empresarial. “Headless”, em tradução literal, significa algo como “sem cabeça”.

Na tecnologia, porém, a ideia é outra: sistemas que continuam armazenando dados, processando informações e executando tarefas, mas que não dependem necessariamente de uma interface tradicional para serem utilizados. O software continua lá. O que começa a desaparecer é justamente aquilo que durante décadas identificamos como sendo o próprio software: a tela.

Pense em quantos sistemas você utiliza durante uma semana. Aplicativo do banco, CRM da empresa, sistema da universidade, aplicativo da companhia aérea, portal do plano de saúde, sistema de RH, aplicativo do condomínio. Cada um possui sua própria lógica. Para emitir uma segunda via, clique aqui. Para alterar um cadastro, entre naquele menu. Para acompanhar um pedido, procure outra opção.

Criamos uma gigantesca indústria baseada em ensinar seres humanos a operar máquinas. A inteligência artificial começa a inverter essa relação: em vez de você aprender a operar o software, o software passa a aprender a entender você. E essa pequena inversão pode transformar profundamente a indústria de tecnologia.

Na maioria das vezes, nós nem queremos utilizar um software. Queremos resolver alguma coisa. Ninguém acorda animado porque vai abrir o aplicativo do banco. Quer pagar uma conta. Ninguém deseja navegar por cinco telas da companhia aérea. Quer remarcar o voo. Um aluno não quer descobrir onde fica determinada função dentro do portal acadêmico. Quer saber quando vence sua mensalidade. Um torcedor não quer descobrir em qual menu está escondida a renovação do seu plano. Quer garantir seu lugar no próximo jogo. Um paciente não quer navegar pelo sistema do hospital. Quer marcar uma consulta.

Durante anos, confundimos a ferramenta com a intenção. Agora imagine simplesmente dizer: “Remarque meu voo para amanhã depois das 18h e escolha uma opção sem escala”. Uma inteligência consulta as alternativas, entende suas preferências, verifica as regras, apresenta a melhor possibilidade e, depois da sua autorização, executa a mudança. Você não descobriu onde clicar. Talvez nem saiba qual sistema realizou aquela operação. E isso deixa de importar.

Já começamos a observar essa transformação nas operações de atendimento e relacionamento. Pessoas conversam com empresas pelo WhatsApp e conseguem consultar informações, atualizar cadastros, recuperar acessos, realizar pagamentos, comprar produtos, renovar serviços ou resolver problemas sem necessariamente saber quais sistemas estão funcionando por trás daquela conversa.

Uma única mensagem pode acionar CRM, sistema financeiro, plataforma de pagamentos, banco de dados, ERP e diferentes modelos de inteligência artificial simultaneamente. Para o consumidor, nada disso interessa. Ele fez uma pergunta e recebeu uma solução. Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes provocadas pela IA: a complexidade tecnológica começa a ser escondida do usuário.

E o WhatsApp é apenas um exemplo. Voz, relógios, carros, televisores, óculos inteligentes e dispositivos que ainda nem se popularizaram poderão se tornar pontos de acesso à mesma inteligência.

É possível levar essa lógica ainda mais longe. Hoje temos dezenas de aplicativos porque cada empresa construiu sua própria porta de entrada digital. Mas agentes de inteligência artificial começam a criar uma possibilidade diferente: em vez de entrarmos em dez aplicativos, podemos ter uma camada inteligente capaz de conversar com dez sistemas por nós. “Encontre um horário no dentista na próxima semana.” “Veja se minha mensalidade da faculdade está paga.” “Renove meu ingresso para o próximo jogo.” “Compare meu seguro atual com as novas condições.” O agente interpreta a intenção e os sistemas trabalham nos bastidores. A pergunta deixa de ser “qual aplicativo preciso abrir?” e passa a ser simplesmente “o que eu quero resolver?”

Existe uma consequência econômica enorme nessa transformação. Durante décadas, empresas de software investiram bilhões na construção de interfaces melhores: dashboards mais bonitos, menus mais intuitivos, formulários mais simples, aplicativos mais rápidos. UX, a experiência do usuário, tornou-se uma indústria gigantesca. Mas o que acontece quando o principal usuário de parte desses sistemas deixa de ser uma pessoa e passa a ser outra máquina? Um agente de IA não precisa de botão bonito, menu ou dashboard. Precisa de dados, permissões, APIs e capacidade de executar ações. Isso pode mudar até a maneira como avaliamos empresas de software.

O sistema mais importante talvez não seja aquele que possui a melhor interface, mas aquele que consegue ser melhor compreendido e operado por outras inteligências. O software não desaparece. A interface é que pode desaparecer.

Essa transformação fica especialmente clara no relacionamento entre empresas e consumidores. Uma companhia pode possuir Salesforce, HubSpot, SAP, sistemas próprios, plataformas de atendimento e diversos bancos de dados. O consumidor não deveria precisar saber disso e talvez, em breve, muitos funcionários também não precisem.

Uma camada de inteligência pode funcionar acima dessa infraestrutura, identificar quem é aquela pessoa, entender seu histórico, consultar diferentes sistemas, decidir qual informação buscar e executar a ação necessária. O CRM continua existindo. O ERP continua existindo. O sistema financeiro continua existindo. Mas deixam de ser necessariamente lugares onde pessoas precisam entrar e passam a funcionar cada vez mais como infraestrutura invisível. É semelhante ao que aconteceu com a eletricidade: você não precisa entender a rede elétrica para acender uma lâmpada. Talvez também não seja necessário entender dezenas de softwares para trabalhar em uma empresa.

Há ainda uma consequência importante para o mercado de trabalho. Milhões de funções administrativas são hoje parcialmente definidas pela capacidade de operar sistemas. Pessoas passam boa parte do dia copiando informações entre plataformas, preenchendo formulários, atualizando status, consultando dashboards e executando processos digitais.

Se agentes começarem a operar esses sistemas diretamente, parte desse trabalho muda. Isso não significa que todos esses empregos desaparecerão, mas significa que saber operar um software pode deixar de ser uma habilidade tão valiosa quanto foi nas últimas décadas. O valor tende a migrar da operação para decisão, julgamento, relacionamento e criatividade. Menos gente clicando. Mais gente decidindo o que precisa acontecer.

Durante muito tempo, empresas de tecnologia disputaram espaço na nossa tela. Quem tinha o aplicativo mais usado? Quem tinha mais downloads? Quem conseguia fazer o consumidor passar mais tempo dentro da plataforma? A inteligência artificial pode iniciar uma disputa completamente diferente. Talvez a melhor tecnologia seja justamente aquela que o usuário quase não percebe que está utilizando. Ela conhece o contexto, entende a intenção, conversa com diferentes sistemas, executa o que precisa ser feito e desaparece novamente. É curioso imaginar que, depois de décadas colocando telas em praticamente tudo, uma das maiores revoluções tecnológicas dos próximos anos possa ser justamente começar a retirá-las.

O futuro do software talvez não seja uma interface mais bonita. Talvez seja não precisar mais de interface nenhuma.

 

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Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.

 

 

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