Cães treinados com inteligência artificial podem detectar sinais de câncer pelo cheiro
Startup na Índia treina animais para identificar alterações no odor da respiração; tecnologia ainda está em fase de testes

Uma tecnologia desenvolvida na Índia está tentando transformar o olfato dos cães em uma ferramenta de apoio à detecção precoce do câncer. Em uma fazenda nos arredores da cidade de Bangalore, no sul do país, cães são treinados para identificar alterações químicas presentes na respiração humana e, com o auxílio de inteligência artificial (IA), transformar as reações dos animais em dados que possam indicar a presença da doença.
Entre os animais está Chloe, uma cadela mestiça de labrador de quatro anos. Durante os treinamentos, ela usa um equipamento que lembra um pequeno traje tecnológico, com capacete e arnês equipados com sensores.
Chloe faz parte de um grupo de 15 cães treinados pela startup indiana Dognosis, que desenvolve uma ferramenta de triagem que pretende ser barata, não invasiva e capaz de analisar um grande número de amostras.
Como funciona?
A técnica parte de uma característica já estudada pela ciência: algumas doenças podem alterar substâncias químicas liberadas pelo organismo e, consequentemente, modificar os odores produzidos pelo corpo.
Os cães são treinados para reconhecer determinados padrões de cheiro. Para isso, os pesquisadores utilizam máscaras de algodão nas quais pacientes respiraram durante cerca de dez minutos.
Durante o procedimento, os animais não são avaliados apenas pela capacidade de identificar o odor. Sensores acompanham a atividade cerebral, a respiração e a linguagem corporal dos cães enquanto eles analisam as amostras.
Essas informações são processadas por sistemas de inteligência artificial. A ideia é que o computador aprenda a reconhecer padrões nas reações dos animais e consiga relacioná-los às amostras associadas ou não a determinados tipos de câncer.
Segundo Akash Kulgod, cofundador da Dognosis, os equipamentos utilizados nos cães fazem com que eles pareçam uma espécie de “Homem de Ferro”. A capacidade de processamento também é um dos pontos centrais da proposta. De acordo com Kulgod, um cão pode analisar milhares de amostras em aproximadamente uma hora.
Treinamento dos cães
Os animais passam por um processo de condicionamento. Eles aprendem a reconhecer um determinado odor e recebem uma recompensa quando identificam corretamente a amostra. A reação varia de acordo com cada cachorro.
Alguns correm até o dispensador de petiscos, enquanto outros podem permanecer imóveis ou arranhar a amostra. Para os pesquisadores, o comportamento específico não é o mais importante, desde que os padrões identificados pelos sensores sejam consistentes o suficiente para serem interpretados pela inteligência artificial.
Os cães também têm períodos limitados de atividade. Segundo a startup, eles trabalham entre 30 e 45 minutos por dia, alternando os momentos de treinamento com descanso.
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Estudo apresentou resultado promissor
A Dognosis afirma ter realizado um estudo com 1.500 pacientes, no qual a tecnologia apresentou 90% de confiabilidade na identificação de sete tipos de câncer. Os resultados despertaram interesse entre especialistas, mas médicos que não participam do projeto ressaltam que ainda são necessários estudos maiores antes de qualquer conclusão definitiva sobre a eficácia da tecnologia.
A proposta, neste momento, não é substituir exames convencionais. A intenção da startup é desenvolver uma ferramenta de triagem preliminar, capaz de apontar pessoas que poderiam ser encaminhadas posteriormente para exames médicos mais específicos. Isso poderia ser especialmente relevante em locais onde o diagnóstico costuma ocorrer em fases mais avançadas da doença.
Tecnologia ainda não pode ser comercializada
Apesar dos resultados considerados promissores, o teste desenvolvido pela Dognosis ainda não está autorizado para comercialização. A empresa continua realizando testes em parceria com instituições médicas públicas na Índia e pretende ampliar a pesquisa. Os cofundadores Akash Kulgod e Itamar Bitan esperam comercializar a tecnologia a partir de 2027, caso os estudos e processos de validação avancem conforme o planejado.
Até lá, a tecnologia ainda precisará passar por novas avaliações científicas para determinar se o método consegue manter bons resultados em populações maiores e em diferentes condições clínicas.
Por enquanto, os cães continuam fazendo aquilo que sabem melhor: farejar. A diferença é que, agora, seus movimentos, respiração e reações são transformados em dados para que algoritmos tentem encontrar, no cheiro humano, sinais que possam ajudar a identificar uma doença antes mesmo de ela ser percebida pelos métodos tradicionais.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
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