Transplante com rim de porco mantém paciente vivo por 9 meses e alcança marca inédita
Pesquisa liderada pelo médico brasileiro Leonardo V. Riella mostra, pela primeira vez, que órgão suíno geneticamente modificado pode funcionar como 'ponte' até a chegada de um rim humano

Por nove meses, um rim de porco manteve funcionando o organismo de um homem que sofria de doença renal em estágio terminal. Foram 271 dias sem necessidade de diálise, até que o órgão suíno precisou ser retirado.
O que aconteceu depois transformou o caso em um marco ainda maior: 82 dias após a retirada do rim de porco, o paciente recebeu um rim humano e passou a viver com o novo órgão, sem sinais de que o xenotransplante (transplante cirúrgico de órgãos ou tecidos entre espécies diferentes) tivesse comprometido a possibilidade de um transplante convencional. Pelo contrário, o sucesso do caso reforça a hipótese de que rins de porcos podem ser usados como "ponte" para transplantes entre humanos.
O procedimento, realizado nos Estados Unidos, foi liderado pelo médico brasileiro Leonardo V. Riella, diretor médico de transplante renal do Massachusetts General Hospital e professor associado da Harvard Medical School. Os resultados da pesquisa foram publicados na última quinta (03) na revista científica The Lancet.
Entenda o caso
O caso de Tim Andrews, que tinha 66 anos quando recebeu o rim suíno, é considerado pelos pesquisadores a primeira demonstração de uma transição bem-sucedida de um xenotransplante renal para um alotransplante, nome dado ao transplante de um órgão entre seres humanos. A lógica por trás do procedimento é relativamente simples, embora sua execução envolva algumas das tecnologias mais sofisticadas da medicina atual.
Mais do que provar que um rim de animal pode funcionar temporariamente dentro de uma pessoa, o estudo aponta para uma possível nova estratégia diante de um dos maiores problemas da medicina: a falta de órgãos humanos disponíveis para transplante.
Tim Andrews precisava de um transplante de rim, mas não tinha um doador vivo compatível e enfrentava uma espera prolongada na fila por um órgão de doador falecido. Sem um rim funcionando, pacientes com insuficiência renal avançada normalmente dependem da diálise para filtrar o sangue e retirar do organismo substâncias que deveriam ser eliminadas pelos rins.
Foi nesse intervalo que entrou o rim suíno. Em 25 de janeiro de 2025, Andrews recebeu um rim de porco geneticamente modificado. O órgão começou a funcionar imediatamente e permitiu que o paciente ficasse 271 dias sem depender de diálise, o período mais longo já registrado em um ser humano vivo após um xenotransplante renal desse tipo.
A proposta não era necessariamente fazer daquele rim animal o órgão definitivo do paciente. A equipe liderada por Leonardo Riella testava uma ideia diferente: utilizar o xenotransplante como uma espécie de "ponte", mantendo o paciente vivo e sem diálise enquanto ele aguardava a oportunidade de receber um rim humano.
Dificuldades ao longo do processo
O resultado, entretanto, não significa que o rim suíno tenha funcionado perfeitamente durante todo o período. No 14º dia após o transplante, uma biópsia identificou um episódio de rejeição mediada por células T. A resposta foi tratada e controlada, e o funcionamento do órgão permaneceu estável durante aproximadamente seis meses.
Depois desse período, uma infecção bacteriana, que não tinha origem em porcos, levou os médicos a reduzir a imunossupressão utilizada para evitar a rejeição do órgão. Foi então que surgiu o principal obstáculo observado no estudo: o rim começou a apresentar inflamação dos pequenos vasos sanguíneos e lesão do endotélio, a camada que reveste internamente os vasos.
O processo evoluiu para uma microangiopatia trombótica, condição caracterizada por danos aos pequenos vasos e formação de pequenos coágulos. O rim suíno, então, acabou entrando em falência e precisou ser retirado. Mas havia uma diferença fundamental em relação aos primeiros experimentos de xenotransplante: o paciente tinha sobrevivido tempo suficiente para chegar ao próximo passo.
82 dias depois, um rim humano
Após a retirada do órgão suíno, Tim Andrews aguardou mais 82 dias. Então, em janeiro de 2026, recebeu um rim humano de um doador falecido. O novo órgão apresentou funcionamento imediato. Durante os 231 dias de acompanhamento descritos no estudo, os pesquisadores não encontraram evidências de sensibilização imunológica clinicamente significativa provocada pelo xenotransplante anterior.
Esse detalhe é um dos mais importantes da pesquisa. Uma das preocupações antes do procedimento era que o contato prolongado com um órgão de outra espécie pudesse provocar uma reação imunológica capaz de dificultar um futuro transplante de órgão humano mas, isso não aconteceu.
Os níveis de anticorpos anti-HLA, moléculas importantes na avaliação da compatibilidade entre doador e receptor, permaneceram inalterados. O teste de compatibilidade cruzada específico do doador também permaneceu negativo durante o período analisado. Em outras palavras, o rim de porco não apenas sustentou o paciente durante meses como, neste caso, não impediu que ele posteriormente recebesse um rim humano.
Engenharia por trás do rim suíno
O órgão utilizado no procedimento não era simplesmente o rim de um porco transplantado em um ser humano. Ele veio de um animal geneticamente modificado justamente para reduzir as principais barreiras que fazem o corpo humano rejeitar órgãos de outras espécies.
O rim, identificado no estudo como EGEN-2784, recebeu alterações genéticas desenvolvidas pela empresa eGenesis. Entre elas estavam a retirada de importantes xenoantígenos (moléculas presentes no animal que podem desencadear uma forte reação do sistema imunológico humano), a inativação de retrovírus endógenos suínos e a inserção de sete transgenes humanos.
A estratégia combina engenharia genética e imunossupressão para tentar tornar o órgão suíno mais tolerável ao organismo humano. Outro ponto fundamental: durante o acompanhamento, não foi identificada transmissão de patógenos suínos para o paciente. A equipe realizou vigilância microbiológica, incluindo sequenciamento metagenômico, justamente para procurar sinais de infecções que poderiam passar do animal para o ser humano.
Brasileiro por trás do marco científico
À frente do estudo está o brasileiro Leonardo V. Riella, nefrologista especializado em transplante e diretor médico de transplante renal do Massachusetts General Hospital. Além disso, Leonardo é professor associado de Medicina da Harvard Medical School e pesquisador do Centro de Ciências de Transplantes da instituição. Ele se formou em Medicina pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e posteriormente fez residência e especialização em nefrologia e transplante nos Estados Unidos.
Sua trajetória científica está diretamente ligada a uma das principais dificuldades dos transplantes: fazer com que o sistema imunológico aceite um órgão sem que o paciente precise ser submetido a uma imunossupressão excessivamente tóxica. O laboratório comandado por Leonardo pesquisa justamente mecanismos de regulação do sistema imunológico e estratégias para prolongar a vida dos órgãos transplantados.
Em 2024, o médico já havia liderado um feito histórico ao participar do primeiro transplante de um rim de porco geneticamente modificado em um paciente humano vivo. Naquele caso, o receptor sobreviveu 52 dias após o procedimento e morreu posteriormente por causas cardíacas não relacionadas ao transplante.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



