Primeiro porco clonado do Brasil pode suprir até 94% dos transplantes no SUS
Clone suíno nasceu em março deste ano, em São Paulo, e é o primeiro da América Latina

O primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), no final de março deste ano. O suíno foi criado para avançar em projetos de xenotransplante, processo em que órgãos ou tecidos de animais são transplantados para outras espécies, neste caso, os humanos.
A pesquisa foi desenvolvida por cientistas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), da Universidade de São Paulo (USP). A gestação do porco durou quase quatro meses. Ele nasceu saudável, com 1,7 kg.
Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD, afirma que é possível transplantar qualquer tecido ou órgão de porcos clonados para humanos. Porém, inicialmente, o estudo priorizou rim, córnea, coração e pele, pois juntos atendem 94% da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS). "Nosso objetivo é justamente fornecer esses órgãos para o SUS, que opera o maior sistema público de transplante de órgãos do mundo", afirma.
Além de terem tecidos e órgãos semelhantes aos dos humanos, os porcos clonados são vantajosos porque, com aproximadamente sete meses de idade, já atingem o peso necessário para o transplante em um adulto de 80 quilos.
O objetivo inicial dos pesquisadores é produzir um grupo de porcos clonados, composto por alguns casais. Após isso, a expectativa é de que os animais se reproduzam de forma natural, sem a necessidade futura de clonar indefinidamente. “Avaliaremos a necessidade de novas clonagens à medida que os animais forem nascendo. Se descobrirmos, por exemplo, que tem um novo gene que também precisa ser inativado para evitar a rejeição, reiniciaremos a clonagem”, diz Goulart.
Segundo ele, até o momento nenhum país obteve aprovação para realizar xenotransplantes. Atualmente, estão sendo conduzidos estudos clínicos nos Estados Unidos, e outro está prestes a ser iniciado na China. Os resultados determinarão se a solução funciona e qual é a sobrevida média do órgão transplantado, além de outras questões.
O que é xenotransplante
O transplante de órgãos entre espécies diferentes é chamado de xenotransplante. Os casos mais comuns são de transplantes de órgãos e tecidos de porcos para humanos.
Os suínos são usados frequentemente no procedimento pela compatibilidade de órgãos e tecidos com os humanos. Além disso, os animais são criados em larga escala e frequentemente abatidos para consumo da carne de porco.
O principal desafio do processo é o risco de rejeição dos órgãos. O famoso estudo de clonagem com a ovelha Dolly, no final dos anos 1990, permitiu silenciar os genes identificados como incompatíveis com os humanos, reduzindo os casos de rejeição.
O primeiro passo no processo de xenotransplante foi herdado dessa técnica. Os genes dos suínos que causam rejeição hiperaguda em humanos são silenciados e, em seguida, as células são transferidas para óvulos de matrizes que darão origem a embriões sem os genes que provocam a rejeição. Os embriões geneticamente modificados são inseridos em porcas, e nascem os leitões aptos a doar órgãos.
O caso mais famoso de xenotransplante com humanos foi comandado pelo médico brasileiro Leonardo Riella, em março de 2024. Na ocasião, um homem de 62 anos com doença renal em estágio terminal recebeu um rim de porco no Hospital Geral de Massachusetts, ligado à Harvard Medical School, em Boston. Ele foi o primeiro paciente vivo a passar pelo procedimento e morreu dois meses depois, por causas não relacionadas ao transplante.
*Com informações de Agência FAPESP
Formada em Jornalismo pela Puc Minas, Paula Arantes produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil, Mundo, Orações e Entretenimento no portal da Itatiaia. Atualmente, colabora com a editoria Meio Ambiente. Antes, passou pelo jornal Estado de Minas.
