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A IA Não Veio Para Fazer Você Trabalhar Menos

Impacto da IA está em permitir que uma pessoa entregue algo que antes exigiria uma equipe inteira

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Simulação ajuda a estimar quanto investir hoje para garantir renda no futuro • Freepik

Existe uma frase que tenho ouvido com frequência nos últimos dois anos: “A inteligência artificial vai fazer as pessoas trabalharem menos.” Toda vez que escuto essa afirmação, tenho a sensação de que estamos entendendo essa transformação apenas pela metade. É verdade que a IA pode reduzir drasticamente o tempo gasto em inúmeras atividades. Ela escreve textos, resume documentos, organiza informações, cria apresentações, analisa dados e automatiza tarefas que antes consumiam horas de trabalho. Sob essa ótica, é natural imaginar que sua principal promessa seja simplesmente aumentar a velocidade. Mas acredito que essa visão esconde uma mudança muito mais profunda.

O verdadeiro impacto da inteligência artificial não está em fazer o mesmo trabalho em menos tempo. Está em permitir que uma pessoa entregue algo que antes exigiria uma equipe inteira. Ao longo da minha carreira acompanhando transformações tecnológicas, percebi que toda nova ferramenta passa por uma fase inicial de uso limitado. Quando surgiram as planilhas eletrônicas, muita gente as utilizava apenas para substituir cálculos feitos à mão. Quando a internet chegou às empresas, muitos a enxergavam apenas como uma forma mais rápida de trocar mensagens. Quando os smartphones apareceram, eram vistos basicamente como telefones melhores. Somente depois de algum tempo as pessoas compreenderam que a verdadeira mudança não estava em fazer a mesma coisa de forma mais rápida, mas em criar possibilidades completamente novas. A inteligência artificial está entrando exatamente nessa fase.

Um dos grandes desafios que tenho enfrentado dentro da Somos Young não é tecnológico. É cultural. Ao contrário do que muitos imaginam, as maiores barreiras para adoção da IA não estão relacionadas à qualidade das ferramentas, aos investimentos necessários ou à infraestrutura das empresas. Elas estão nas pessoas. E duas delas aparecem de forma recorrente. A primeira é o medo. Existe uma preocupação legítima de que, ao utilizar inteligência artificial, o profissional esteja treinando uma tecnologia que eventualmente poderá substituí-lo. Em muitos casos, a percepção é que quanto mais eficiente a IA se torna, menor passa a ser o valor do trabalho humano. É uma reação compreensível. Afinal, estamos vivendo uma das primeiras revoluções tecnológicas da história que impacta diretamente atividades intelectuais. Diferentemente da automação industrial, que substituiu força física, a inteligência artificial começa a executar tarefas que antes eram consideradas exclusivamente humanas.

A segunda barreira é ainda mais interessante. Muitas pessoas acreditam que o principal benefício da IA é economizar tempo. Procuram a tecnologia para responder mais rápido, produzir mais rápido, entregar mais rápido. Mas raramente fazem a pergunta que considero mais importante: e se o ganho não estiver no tempo economizado? E se o ganho estiver na qualidade daquilo que somos capazes de produzir? Frequentemente vejo profissionais utilizando inteligência artificial para reduzir uma tarefa de quatro horas para uma hora. Em teoria, isso parece um enorme avanço. Mas existe um problema. Muitas vezes, a qualidade

final continua sendo equivalente a uma hora de trabalho. A tecnologia foi utilizada para encurtar o esforço, não para elevar a entrega.

É justamente aí que acredito existir uma enorme oportunidade competitiva para os próximos anos. Na Somos Young, muitas vezes não espero que uma pessoa utilize IA para terminar uma atividade mais cedo. Espero que ela utilize IA para entregar algo que simplesmente não conseguiria produzir sozinha. Uma análise mais profunda. Uma apresentação mais consistente. Um raciocínio mais estruturado. Uma estratégia mais robusta. Um texto melhor argumentado. Uma visão mais ampla do problema. Em outras palavras, espero que a tecnologia aumente o nível da entrega, não apenas a velocidade da execução.

Essa mudança de mentalidade talvez seja uma das características mais importantes do profissional do futuro. Durante décadas, a produtividade foi medida pela quantidade de trabalho realizada em determinado período de tempo. Quanto mais tarefas alguém conseguia executar, mais produtivo era considerado. Mas esse conceito começa a ficar insuficiente. Quando uma inteligência artificial consegue produzir em segundos algo que antes levava horas, a vantagem competitiva deixa de estar na execução e passa a estar na capacidade de formular melhores perguntas, conectar informações, exercer julgamento e tomar decisões. A nova produtividade não será definida por quem trabalha mais rápido. Será definida por quem consegue ampliar sua capacidade intelectual utilizando máquinas como parceiras.

Talvez a melhor forma de entender essa transformação seja imaginar que cada profissional passou a ter acesso a uma equipe invisível trabalhando ao seu lado. Uma equipe que pesquisa, organiza, escreve, analisa, resume e propõe alternativas continuamente. A pergunta que separará os profissionais mais valiosos dos demais não será “você utiliza inteligência artificial?”. A pergunta será: “o que você consegue entregar com ela?”. Porque existe uma enorme diferença entre utilizar IA para produzir o mesmo trabalho de ontem em menos tempo e utilizar IA para produzir algo que ontem seria impossível.

É por isso que acredito que o maior risco para os profissionais não é a inteligência artificial. O maior risco é continuar trabalhando da mesma forma enquanto o restante do mercado aprende a multiplicar sua capacidade de execução, análise e pensamento. A revolução da IA não está criando apenas novas ferramentas. Ela está redefinindo o significado da palavra produtividade. E os profissionais que compreenderem isso primeiro terão uma vantagem difícil de alcançar pelos demais. No futuro próximo, talvez não vença quem trabalha mais horas. Nem quem domina mais ferramentas. Provavelmente vencerá quem aprender a trabalhar como se tivesse um time inteiro ao seu lado, mesmo estando sozinho diante de uma tela.

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Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.