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‘Quem cuida também adoece’: saúde mental dos enfermeiros acende alerta em Minas Gerais

Especialistas avaliam ambiente de ansiedade, estresse e violência; profissionais relatam rotinas insalubres; e dados levantados pela reportagem mostram afastamentos contados às centenas

Por e 
Realidade dos trabalhadores da linha de frente na saúde acende alerta em Minas Gerais
Realidade dos trabalhadores da linha de frente na saúde acende alerta em Minas Gerais • Sind-saúde/ Divulgação

"Eu amo a minha profissão. [...] Desde pequena eu sonhava em cuidar das pessoas. Todas as minhas brincadeiras eram voltadas para isso. Quando terminei o segundo grau, decidi fazer enfermagem. Foi a melhor escolha da minha vida".  É assim que a enfermeira Elisa Mota resume a relação com a carreira que escolheu ainda na infância. Aos 54 anos, sendo 27 dedicados à enfermagem e 24 deles na rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), ela afirma que nunca se imaginou fazendo outra coisa.

 

A realidade dos servidores da área da saúde, no entanto, revelou à enfermeira um outro lado da profissão, que demanda atenção multifatorial, desgasta o profissional e, consequentemente, afeta o tratamento do paciente.

 

Ela conta que a enfermagem vai muito além dos procedimentos técnicos. "A gente acaba sendo um pouco padre, um pouco psicólogo. O paciente confia em nós, desabafa, e muitas vezes a vida dele depende de uma ação nossa. Estamos ao lado dele o tempo todo".

 

Elisa conta que já precisou se afastar do trabalho para cuidar da saúde mental por repetidas vezes, incluindo períodos de mais de um mês. Um levantamento feito pela Itatiaia a partir dos diários oficiais de Minas Gerais mostra que ela está longe de ser um caso isolado e integra uma realidade numerosa de afastamentos por razões médicas entre os servidores das áreas relacionadas aos serviços de saúde no estado. Os dados evidenciam a larga escala dos problemas de precarização do trabalho de quem promove o cuidado e bem-estar aos cidadãos no estado.

 

Em consulta a todas as edições do Diário Oficial do Estado do primeiro semestre deste ano há registro de 438 servidores da área da saúde que se ausentaram, por ao menos um dia, do trabalho por questões médicas.

 

Nesta conta, 203 servidores estão lotados na Secretaria de Estado de Saúde, 125 no Hemominas, 57 na Fhemig e 53 no Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg).

 

No recorte de tempo,  107 servidores tiveram ao menos 30 dias de licença; 48 servidores tiveram ao menos 60 dias de licença; e 13 servidores tiraram mais de dois meses de licença.

 

Não há nos diários oficiais uma especificação sobre os cargos exercidos pelos servidores afastados ou o motivo específico das licenças concedidas por questões de saúde. No entanto, a representação da categoria aponta para uma sobrecarga de quem faz os atendimentos.

 

Neuza Freitas, diretora-executiva do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde-MG) acredita que os dados obtidos pela reportagem sub representam a realidade de afastamentos no setor.

 

“Pelo contato que temos com vários trabalhadores no dia a dia dos hospitais da rede Fhemig, acreditamos que este número de afastamento na rede não corresponde com a realidade, porque o número do absenteísmo ainda é muito elevado. A preocupação do sindicato é que além do afastamento como licença médica, é o motivo desse afastamento, que a maioria das vezes é por doenças mentais e comportamentais, além de uma realidade preocupante vivenciada hoje nos hospitais é que muitos trabalhadores estão com restrição para o cuidado direto com os pacientes, até mesmo devido o grau do adoecimento e muitos devido o uso de medicamentos. Estes adoecimentos na maioria das vezes originam-se da sobrecarga de trabalho, pressão psicológica e o assédio moral que aumenta a cada dia no estado. O sindicato acompanha diversos casos denunciados pelos trabalhadores e inclusive muitos diretamente no ministério público do trabalho”, disse à Itatiaia

 

O sindicato da categoria também acredita que os números da prefeitura levantados pela reportagem estão aquém da realidade vivida pelos trabalhadores da saúde. Em consulta às edições  Diário Oficial do Município nos seis primeiros meses de  2026, há informações de ao menos 236 servidores que se ausentaram, por ao menos um dia, do trabalho por questões de saúde.

 

Dentro deste número: 72 servidores tiraram ao menos 30 dias de licença; 62 servidores tiraram ao menos 60 dias de licença; e 57 servidores tiraram mais de dois meses de licença.

 

À reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde ide Belo Horizonte informou que registra, em média, cerca de 200 afastamentos de profissionais por mês. Considerando a Rede SUS-BH, composta por aproximadamente 20 mil trabalhadores, esse quantitativo representa cerca de 1% da força de trabalho.

 

“Os afastamentos são monitorados pela Secretaria, permitindo o acompanhamento dos indicadores e o planejamento para adoção de medidas voltadas ao cuidado dos trabalhadores e à organização dos serviços. Como parte da política de gestão de pessoas, a SMSA desenvolve ações permanentes de promoção da saúde e bem-estar dos profissionais. Entre elas estão o Acompanhamento Sociofuncional para trabalhadores que apresentam dificuldades laborais, o Acolhimento Psicológico, com até oito sessões disponíveis para todos os profissionais, e um fluxo específico de acolhimento, orientação e acompanhamento para trabalhadores envolvidos em situações de violência. A Secretaria também realiza, anualmente, 48 ações do programa Movimenta Saúde, voltadas à promoção da saúde e ao autocuidado”, diz a nota.

 

A reportagem também consultou o Governo de Minas Gerais para saber se há algum diagnóstico sobre o número de afastamentos na gestão da saúde em ambas as instâncias. Até a última atualização desta matéria não houve resposta.

 

Críticas à gestão

 

A forma de organizar o trabalho de atendimento na saúde é alvo de críticas dos personagens ouvidos pela reportagem. A  enfermeira Elisa Mota relata dificuldade em conviver com uma rotina que, segundo ela, passou a priorizar metas e números em vez das pessoas.

 

"Chegou uma gestão focada em números, números e mais números. As cobranças passaram a ser maiores do que qualquer capacidade humana de cumprir. Não importa se há profissionais suficientes ou recursos disponíveis. As metas continuam sendo exigidas", desabafou.

 

Ela relata que a redução das equipes aumentou a sobrecarga de quem permaneceu na linha de frente. "Querem que duas pessoas façam o trabalho que antes era realizado por três ou quatro. Os exames aumentam, o número de pacientes cresce, mas a equipe continua reduzida. Isso gera um ambiente de extrema pressão e hostilidade".

 

Para Elisa, cuidar da saúde mental dos profissionais é uma condição essencial para garantir um atendimento de qualidade aos pacientes.

 

"Quem está na linha de frente também precisa ser cuidado. Passar nove ou doze horas por dia convivendo com a dor do outro deixa marcas. Sem apoio e sem condições adequadas de trabalho, adoecemos cada vez mais rápido", complementa.

 

E Elisa não está sozinha na fila do adoecimento mental de quem opera na linha de frente do cuidado. A  rotina de quem trabalha na enfermagem é marcada por plantões longos, decisões rápidas e contato diário com a dor, o sofrimento e a morte. Nos últimos anos, porém, um problema silencioso tem ganhado força dentro dos hospitais e unidades de saúde: o adoecimento mental dos profissionais que estão na linha de frente do atendimento.

 

Especialistas, representantes da categoria e órgãos de fiscalização alertam que o aumento dos casos de ansiedade, depressão, burnout e outros transtornos está diretamente relacionado às condições de trabalho, à sobrecarga, à violência e ao assédio enfrentados diariamente pelos enfermeiros e técnicos de enfermagem.

 

Para o psiquiatra e presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, Rodrigo Nicolato, os profissionais da saúde fazem parte de um dos grupos mais vulneráveis ao sofrimento psíquico.  

 

"Os profissionais de saúde lidam diariamente com sofrimento, morte, decisões rápidas e uma enorme responsabilidade sobre a vida das pessoas. A isso se somam jornadas prolongadas, equipes insuficientes, múltiplos vínculos de trabalho, pressão por produtividade e, muitas vezes, violência no ambiente profissional", afirma.

 

Segundo o especialista, o burnout é um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho e pode coexistir com transtornos como ansiedade e depressão. Entre os principais sinais de alerta estão exaustão persistente, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, perda de interesse pelas atividades e aumento de erros durante o atendimento.

 

"O profissional precisa entender que procurar ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de responsabilidade consigo mesmo e com os pacientes", destaca Nicolato.

 

Violência também adoece

 

Um levantamento realizado pelo Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG) mostra que a violência faz parte da rotina de muitos profissionais.

A pesquisa identificou que os relatos mais frequentes envolvem violência psicológica, assédio moral, ameaças e intimidações. A maioria dos profissionais também informou sofrer com ansiedade, estresse e abalo emocional.

 

O presidente em exercício do Coren-MG, Lucas Tavares, explica que a violência nem sempre parte de pacientes ou acompanhantes.

 

"Um dado importante é que muitos episódios têm como autores os próprios superiores hierárquicos. Isso não nos surpreende porque já identificávamos essa realidade nos processos éticos do Conselho.".   Segundo ele, o medo de retaliações ainda impede muitos profissionais de denunciar.

 

"Mesmo com a garantia de sigilo, muitos têm receio de perder o emprego ou sofrer perseguições. Por isso é importante que todos conheçam os canais de denúncia e que as instituições criem ambientes seguros para que essas situações sejam enfrentadas."

Pressão constante

 

Para o superintendente regional do Trabalho em Minas Gerais, Carlos Alberto Menezes de Calazans, a pressão vivida pelos profissionais da saúde explica parte do aumento dos afastamentos por transtornos mentais.

 

Segundo ele, somente em 2025 foram registrados 985 casos de agressões contra profissionais da saúde em Minas Gerais, envolvendo médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.

 

"O profissional da saúde trabalha sob enorme pressão. São familiares desesperados, pacientes em estado grave, emergências o tempo inteiro. Essa carga emocional acaba recaindo sobre quem está na linha de frente."

Calazans também chama atenção para o crescimento dos afastamentos relacionados à saúde mental.

 

"No Brasil já são mais de 600 mil afastamentos por transtornos mentais ligados ao trabalho. Em Minas Gerais, esse número se aproxima de 80 mil, e os trabalhadores da saúde representam uma parcela importante desse total."

Segundo ele, é necessário investir não apenas em infraestrutura, mas também em apoio psicológico dentro das instituições.

 

"Precisamos cuidar de quem cuida. Os hospitais devem oferecer ambientes mais saudáveis, espaços de descanso, apoio psicológico e condições adequadas para que esses profissionais possam exercer seu trabalho com segurança."

 

"Doente cuidando de doente"

 

A diretora do Sind-Saúde, Neuza Freitas, afirma que o aumento dos afastamentos já é percebido na rotina dos hospitais públicos.  "Hoje existe um grande número de trabalhadores afastados da assistência direta porque não têm mais condições de permanecer na linha de frente. Muitos utilizam medicação controlada. É, muitas vezes, um doente cuidando de outro doente."

 

Segundo ela, a falta de transparência sobre os números oficiais dificulta a dimensão exata do problema, mas os reflexos aparecem nas escalas reduzidas e na sobrecarga das equipes.

 

Para o presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Belo Horizonte e Região (SINDEESS), José Maria Pereira, o adoecimento mental dos trabalhadores da saúde deixou de ser um problema individual para se tornar uma questão estrutural das relações de trabalho.

 

Segundo ele, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais profissionais da área convivem diariamente com o sofrimento humano e, muitas vezes, acabam negligenciando a própria saúde.

 

"No setor da saúde, a gente se acostumou com a dor do outro. Acolhe, médica, segura a mão, enxuga lágrimas e salva vidas. Mas existe uma frase que nunca deveria fazer parte da nossa rotina e, infelizmente, ouvimos com frequência: 'um colega tirou a própria vida'", avaliou.

 

José Maria afirma que os profissionais assumem o cuidado de pacientes, familiares e das demandas dos hospitais, mas raramente encontram apoio para cuidar da própria saúde mental.

 

Para o presidente do SINDEESS, transtornos como ansiedade, depressão, burnout e síndrome do pânico são consequência de um ambiente marcado por sobrecarga, salários baixos, escalas exaustivas e falta de suporte emocional. "Trabalhar salvando vidas sem condições adequadas adoece. Adoecer não é sinal de fraqueza, é consequência".

 

O dirigente sindical defende que os hospitais e demais instituições de saúde invistam em políticas permanentes de acolhimento psicológico, ampliem os espaços de escuta, garantam períodos adequados de descanso e promovam condições dignas de trabalho.

 

"Precisamos falar sobre saúde mental sem tabu. Nenhuma vida deveria se perder em silêncio. E nenhuma vida que salva vidas pode ser esquecida. Cuidar também é se cuidar, e falar é o primeiro passo para a cura", declarou.

 

A visão é corroborada pela presidente da Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE), Solange Caetano. Em entrevista à reportagem, ela comentou sobre os impactos sentidos pelos pacientes atendidos por um profissional de saúde em processo de adoecimento mental e estafa física e emocional. 

 

“O esgotamento profissional compromete diretamente a segurança do paciente, elevando riscos de erros em medicações e triagens, o que é óbvio, porque esse trabalhador está cansado, ele está esgotado. Esse cenário ele sobrecarrega não só a pessoa individualmente, mas acaba sobrecarregando a equipe como um todo e vai gerando um ciclo vicioso de afastamentos, porque a equipe, primeiro o indivíduo se afasta porque está sobrecarregado e depois os demais indivíduos da equipe também vão se afastando porque também acabam trabalhando com sobrecarga. O foco, ele deixa de ser o cuidado de qualidade para se tornar apenas a sobrevivência durante o plantão”, acrescentou Solange.

 

Enfermagem: uma profissão 24 horas

 

São três horas da madrugada de uma noite fria em Belo Horizonte e uma criança de dois anos dá entrada no hospital João XXIII com queimaduras de segundo grau e muito choro.  Logo é atendida pelo corpo médico  e de enfermagem de um hospital referência no assunto. 

 

Para quem está internado, a equipe de enfermagem costuma ser a presença mais constante durante o tratamento. São os profissionais que acompanham a evolução clínica, administram medicamentos, realizam curativos, acolhem pacientes e familiares e permanecem ao lado deles durante todo o período de internação.

Segundo Carolina de Castro Lima, coordenadora de enfermagem do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital João XXIII, essa proximidade faz da enfermagem a maior força de trabalho dentro de um hospital.

 

"A enfermagem representa o maior volume de profissionais dentro do ambiente hospitalar e é quem permanece ao lado do paciente 24 horas por dia", afirma.

Ela explica que, além da assistência técnica, o cuidado humanizado faz parte da rotina das equipes.

 

"O acolhimento e a humanização são princípios trabalhados diariamente, não apenas pela enfermagem, mas por toda a equipe multiprofissional. Essa é uma premissa do SUS e buscamos evoluir continuamente para oferecer uma assistência cada vez mais humanizada."

 

A coordenadora destaca que, embora lidem diariamente com situações de grande sofrimento, os profissionais também enfrentam desafios pessoais e precisam manter o equilíbrio emocional durante os plantões.

 

"Os profissionais da saúde também são seres humanos. Temos nossas questões pessoais, nossas dificuldades. Mas a nossa formação nos prepara para separar essas situações e atuar com profissionalismo, oferecendo sempre o melhor cuidado possível ao paciente."

Para Carolina, reconhecer esse esforço é fundamental para compreender a importância de investir na saúde mental dos trabalhadores que estão diariamente na linha de frente da assistência, "Estamos ao lado do paciente 24 horas por dia".

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Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

 

 

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