Que estamos vivendo em um mundo cada vez mais sensível (ou perigoso, como preferem alguns) não é novidade. Mas como ir além da visão superficial que nos é oferecida pelo noticiário do dia a dia para tentar entender as conexões e implicações de variáveis de peso que estão hoje sobre a mesa de chefes de estado e de governo de países chave?
Os editores da respeitada Foreign Affairs, fundada em 1922 e focada na área de relações internacionais e política externa, elaboraram em dezembro uma lista de artigos (sempre profundamente analíticos e fartamente documentados) da publicação que ajudaram de forma especial a explicar aos leitores o quebra-cabeças global ao longo de 2025. Os textos permitem um bom sobrevoo sobre a jornada geopolítica e econômica do planeta Terra no período.
Destaco a seguir alguns dos artigos selecionados, cujos títulos falam por si.
Vários focalizam a nova realidade internacional gerada na era Donald Trump 2.0 e tentam decodificar o real plano de voo do atual ocupante da Casa Branca.
Dois deles são: “O Estranho Triunfo de uma América Fragmentada -- Por que o poder no exterior vem com modo disfuncional em casa”; e “O Caminho para o Autoritarismo Americano -- O que vem depois do colapso democrático”.
Outros dois: “Making America Alone Again - A história oferece poucos exemplos similares para a rejeição de Washington às suas próprias alianças”; e “Presidente Imperial em Casa, Imperador no Exterior -- A política externa americana em uma era de Poder Executivo irrestrito”.
“A Ucrânia de Putin -- O fim da guerra e o preço da ocupação russa” ensaia um olhar voltado menos para as sucessivas reuniões destinadas a buscar uma paz ainda difícil, e mais para os possíveis capítulos posteriores do conflito que vai completar quatro anos em fevereiro.
“O Que o ‘Sul Global’ Realmente Significa -- Uma interpretação moderna para antigas divisões” é uma avaliação sobre a evolução do agrupamento informal de viés econômico que atendia pelo nome de BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e depois a África do Sul) em direção a um movimento maior e mais articulado. Nesse tabuleiro de xadrez, os “sócios fundadores” convivem no momento com duas novas realidades. A primeira diz respeito ao número de participantes, que saltou numa mesma tacada para onze e inclui agora Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã; a segunda realidade reflete as ambições desse bloco ampliado que, embora sem um discurso totalmente afinado, se coloca como contraponto a elos de poder tradicionais do Ocidente, da potência econômica e militar representada pelos Estados Unidos às organizações multilaterais como o FMI e a ONU.
Três artigos da lista são dedicados a uma aguda interpretação sobre o modus operandi da China em seu processo de protagonismo em expansão. São eles: “Guerras Comerciais São Fáceis de Perder -- Pequim controla a escalada da disputa tarifária EUA-China”; “Como a China se Armou para a Guerra Comercial -- A abordagem de alto risco de Pequim em seu confronto econômico com Washington”; e “Subestimando a China -- Por que os Estados Unidos precisam de uma nova estratégia de escala com aliados para contrabalançar as permanentes vantagens de Pequim”.
Os três textos mostram como o tradicional hábito do governo chinês de trabalhar de forma aguerrida no presente sem deixar de pensar no futuro geraram frutos e garantem agora musculatura suficiente para encarar Donald Trump de igual para igual.
Dois outros artigos na lista de fim de ano dos editores da Foreign Affairs analisam uma recente condição do governo de Teerã, antes altamente temido por sua força militar e agora sabidamente enfraquecido. “Como o Irã Perdeu -- Os linha-dura de Teerã desperdiçaram décadas de capital estratégico e minaram a dissuasão” aponta para uma estratégia perdedora; as preocupações acerca de um futuro imprevisível estão desenhadas no texto “O Outono dos Aiatolás -- Que tipo de mudança está por vir para o Irã?”
Qualquer escolha de “melhores do ano” tem seus critérios e limites e por isso os editores da publicação acabaram não incluindo em sua lista outros assuntos igualmente graves abordados em 2025. Estamos falando aqui de Venezuela pressionada e de Taiwan ameaçada; da questão Gaza mal resolvida; de uma Europa na encruzilhada; Índia e Paquistão na mira um do outro.
De meu lado, e com base em cenas recentes que assistimos no Brasil, fico imaginando temas nacionais merecedores de análise profunda e artigos de densidade similar aos tradicionalmente exibidos na Foreign Affairs.
Mas minha abordagem seria bem menos sisuda e mais bem-humorada (afinal, ainda teremos outros 364 longos dias pela frente). Algo na linha dos quatro exemplos abaixo:
- “Orçamento brasileiro prevê R$ 61 bilhões para emendas parlamentares em 2026 – Será que vai ser suficiente ou o pessoal ainda vai pedir um chorinho?
- “Correios têm R$ 9 bilhões de prejuízo em 2024/2025, conseguem empréstimo de R$ 12 bilhões mas vão precisar de mais R$ 8 bilhões em 2026 – Dá para entender ou quer que eu desenhe?”
- “Legislação brasileira define R$ 46.366 como teto salarial no setor público, mas 53.488 pessoas no funcionalismo e 80% dos juízes ganham mais que isso – Ninguém mais usa o latim, mas a tradução de Dura lex, sed lex continua sendo A lei é dura, mas é a lei”.
- “O italiano Carlo Ancelotti ensaia o portunhol; o argentino Jorge Sampaoli se irrita com a torcida; o português Abel Ferreira roda a baiana; o brasileiro Filipe Luis levanta uma taça; Neymar reclama com o juiz – Será que nosso futebol vai ver algo novo em 2026?”