O ano começou esquisito e começou ligeiro. Retomar o hábito de perguntar serve para nos deixar menos confusos, ou talvez as perguntas nos confundam mais. Mas o fato é que delas não se pode fugir. Parafraseando Tom Zé: “Eu tô perguntando pra te confundir / Eu tô te confundindo pra te esclarecer / Tô iluminado pra poder cegar / Tô ficando cego pra poder guiar”. Sem pretensões de guia em tempos cegos, as perguntas aqui são, na verdade, sintomas de uma era em busca de respostas que dificilmente virão. Ainda assim, não se pode renunciar à bravura do hábito perguntador porque nos faz mais humanos, menos títeres nas mãos dos tiranos e tiranetes.
No dia 3, antes que o calendário esfriasse a tinta, um tirano invadiu o país do tiranete e o arrancou do tabuleiro como se soberania fosse enfeite, e o direito internacional, protocolo facultativo. Sem santificar o invadido nem romantizar o invasor ou vice-versa, o que importa é o precedente e o método. Daí decorreram perguntas: 1) Foi captura ou foi sequestro? 2) Quando um chefe de Estado se torna troféu, o que acontece com o próprio conceito de soberania? 3) Quem autorizou esse tipo de “justiça” sem juiz, sem rito e sem organismos internacionais de mediação?
A cena, além de brutal, é pedagógica no pior sentido: ela ensina que, quando a força decide, a regra vira obstáculo administrável, contornável, quase ornamental. E isso reabre a ferida que a civilização jura ter cicatrizado depois das guerras. 4) Se a regra cede no primeiro teste, que regra era essa? 5) O que resta da soberania de um país “pequeno” diante de uma potência que não pede licença? 6) Que tipo de ordem global se sustenta quando a exceção é o método e o método se converte em hábito?
Há ainda um aspecto moral que não pode ser varrido para o canto: a briga não é entre mocinhos e vilões. É entre o ruim e o péssimo, entre o tirano e o tiranete, cada qual com seu altar e seus fiéis. Por mais diferentes que pareçam no figurino, eles se encontram no traço mais atual do autoritarismo: narcisismos doentios, famintos por aplauso e viciados em humilhação pública. 7) Existe diferença substantiva entre o autoritarismo que se fantasia de “missão” e o autoritarismo que se fantasia de “povo”? 8) O narcisismo doentio governa ou apenas encena poder, exigindo plateia para existir? 9) Quando a política é apenas a extensão do ego, que espaço sobra para instituições e limites? 10) E quando parte da própria imprensa do país mais poderoso discute a estabilidade do seu líder, isso é alarme cívico ou sinal de que o impensável já foi normalizado?
Há um vazio venezuelano difícil de se preencher: vazio de legitimidade, de confiança, de horizonte comum, porque a política passa a operar sob o barulho da tutela, do constrangimento externo ou das estruturas viciadas. A oposição, com suas lideranças e suas ambições, é observada tanto pelo que promete quanto pelo grau de autonomia que consegue sustentar. 11) Maria Corina Machado fala em nome de um projeto nacional ou em nome de um alinhamento conveniente, que troca a soberania por neocolonialismo? 12) Uma transição nasce do voto e de um pacto interno, ou nasce de tutela, sob condição, com prazo e cabresto? 13) A libertação de presos políticos, que aconteceu nesse contexto, é gesto humanitário inegociável ou moeda de barganha para encenar “pacificação” em troca da viabilidade de um novo arranjo de poder?
E então, sem pudor, o tema que sempre esteve na sala reaparece com a crueza do século XIX: petróleo. A diferença é que, agora, a franqueza dispensa verniz. Fala-se de controle, de reabertura, de reconstrução, de “gestão” de um país como se fosse um ativo. 14) O petróleo é a causa, o meio ou o pretexto? 15) Quando uma potência admite interesse estratégico e chama isso de segurança, estamos diante de sinceridade ou de confissão imperial? 16) A verdade nua, crua e terrível melhora o mundo, ou apenas revela que ele nunca melhorou?
O problema é que, quando o interesse se declara sem pudor, o multilateralismo se torna apenas coreografia. O direito internacional, que deveria servir como cerca, passa a funcionar como mera placa indicativa. E placas não impedem motoristas mal-intencionados ou insanos de praticarem infrações de trânsito. 17) Por que o direito internacional, tão eloquente nos tratados, é tão frágil diante da força organizada? 18) O que sobra das instituições multilaterais quando a soberania se torna argumento seletivo, invocado num dia e atropelado no outro?
Do lado de cá do Equador, 2026 também começa com um enredo em que dinheiro, poder e instituições se testam publicamente: o caso Banco Master. Entre decisões de supervisão, revisões, disputas de competência e um ruído de bastidores que nunca é apenas ruído, o país assiste a um velho drama republicano com figurino novo. 19) Quem fiscaliza o quê, afinal, qual o papel do Banco Central, do Tribunal de Contas da União, do Ministério Público Federal e do Supremo Tribunal Federal? 20) Liquida-se ou não se liquida uma instituição quando o risco sistêmico é arguido e o risco político também? 21) Prende-se, solta-se, monitora-se: o que é devido processo e o que é deferência social e medo diante do poder econômico? 22) Quem tem a autoridade final quando o assunto é estabilidade financeira e quando, ao mesmo tempo, o Estado é pressionado por “forças nada ocultas” a “explicar” cada passo como se praticar a legalidade fosse ilegítimo?
Há ainda uma moldura subterrânea, que é onde a política brasileira costuma revelar o seu verdadeiro DNA: as caronas, os jantares, os contratos multimilionários, os escritórios que orbitam decisões, as relações com a mídia que transformam versões em fatos antes de qualquer apuração terminar. 23) Onde termina a influência legítima e começa a captura do Estado? 24) Quem tem medo do banqueiro quando o medo se espalha em cadeia e se transforma em “prudência”?
Enquanto o noticiário corre atrás do grande dinheiro, a vida concreta corre atrás do pequeno caixa. Levantamentos da Confederação Nacional de Municípios retratam um país municipal que começa o ano em tensão: há prefeituras atrasando fornecedores, empurrando despesas para o exercício seguinte e fazendo malabarismo para fechar a conta. 25) Se quase 30% dos municípios já atrasam fornecedores e mais de 30% admitem empurrar despesas para o ano seguinte, isso é culpa de quem: do gestor atual, do gestor passado, do desenho federativo, das obrigações sem fonte, ou do vício nacional de tratar planejamento como uma mera peça decorativa?
As perguntas não vêm para serem respondidas, mas para impedir que a gente aceite o mundo como ele se impõe, pronto, acabado, sem contestação. Se 2026 insiste em nos empurrar para o simplismo e para a anestesia, resta pelo menos a coragem de continuar perguntando, mesmo quando a resposta não vem. Resta a última pergunta (de tom filosófico para não perder o costume): 26) Em 2026, como cultivar a virtude, a solidariedade e a lucidez, num mundo desvirtuoso, egocêntrico e embevecido pelo enfastiamento viciante das redes sociais?
Para terminar com a mesma paráfrase inspirada em Tom Zé, eu sigo perguntando “pra te confundir”. Porque para te confortar, estimado leitor, já há afirmações demais circulando por aí. Muitas delas tão reconfortantes quanto falsas.