A empresa de tecnologia
A ação foi apresentada em um tribunal do estado da Califórnia poucos dias depois de uma investigação publicada por dois jornais da Suécia revelar como funciona o trabalho de pessoas encarregadas de analisar vídeos gravados por óculos inteligentes da empresa, incluindo o modelo Ray-Ban Meta.
Segundo o processo, os dispositivos teriam capturado cenas extremamente privadas, como pessoas usando o banheiro, se trocando ou mantendo relações sexuais. O material também incluiria informações sensíveis, como dados bancários e mensagens pessoais que apareceram nas gravações.
Treinamento de IA
De acordo com a reportagem dos jornais suecos Svenska Dagbladet e Göteborgs-Posten, parte desse conteúdo foi acessada por funcionários da Sama, uma empresa terceirizada que opera no Quênia e presta serviços de análise de dados para a Meta.
Esses trabalhadores atuam como anotadores de dados, profissionais que assistem aos vídeos e descrevem o que aparece nas imagens. O objetivo é ajudar os sistemas de inteligência artificial a reconhecer objetos, situações e comandos de voz captados pelos óculos.
Entre as tarefas comuns estão identificar elementos simples, como placas de trânsito, flores ou lâmpadas. No entanto, os próprios funcionários relataram que muitas gravações também mostram momentos extremamente privados.
Um dos trabalhadores afirmou que, em alguns vídeos, é possível ver pessoas indo ao banheiro ou tirando a roupa. Segundo ele, muitos usuários provavelmente não sabem que essas imagens podem ser analisadas por outras pessoas.
Outro relatou ter visto um vídeo em que um homem deixa os óculos sobre a mesa de cabeceira ao sair do quarto. Logo depois, a esposa dele entra no ambiente e troca de roupa diante da câmera.
Há ainda relatos de gravações de relações sexuais feitas com os óculos inteligentes. De acordo com um dos trabalhadores, esse tipo de material torna o trabalho ainda mais delicado.
Filtros de privacidade
Nos termos de uso dos dispositivos, a Meta informa que interações com seus sistemas de inteligência artificial podem ser analisadas tanto por ferramentas automatizadas quanto por revisão humana.
A empresa afirma também que as imagens passam por um processo de borramento para evitar a identificação das pessoas. No entanto, fontes ouvidas pelos jornais suecos disseram que esse recurso nem sempre funciona corretamente, permitindo que rostos e detalhes sejam vistos.
Acusação de propaganda enganosa
O processo aberto na Califórnia também acusa a Meta de propaganda enganosa. Segundo os autores da ação, a empresa teria promovido os óculos inteligentes como um produto que garante controle total sobre dados e conteúdo pessoal.
Uma das peças publicitárias citadas no processo afirma que o usuário está no controle de suas informações.
O caso chamou a atenção de autoridades internacionais. O órgão regulador de dados do Reino Unido, o Information Commissioner’s Office, informou que pretende solicitar esclarecimentos à Meta.
Em comunicado, o regulador destacou que dispositivos que coletam dados pessoais, como óculos inteligentes, devem oferecer transparência e controle aos usuários. Segundo o órgão, empresas precisam explicar com clareza quais informações são coletadas e de que forma elas são utilizadas.
Resposta da Meta
Em resposta às acusações, a Meta declarou que o processamento de imagens captadas pelos óculos segue as regras estabelecidas em seus termos de serviço.
A companhia também afirmou que os dispositivos não gravam vídeos continuamente. De acordo com a empresa, as gravações só começam quando o usuário pressiona um botão físico ou ativa o recurso por comando de voz.