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Os dados fazem parte do estudo MASAI, conduzido pela Universidade de Lund, que acompanhou mais de 100 mil mulheres inseridas em programas regulares de mamografia. Segundo os pesquisadores, o apoio da inteligência artificial reduziu em 12% os chamados “cânceres de intervalo”, que são aqueles diagnosticados entre um exame de rotina e o seguinte. Esses casos costumam ser mais agressivos e representam um dos maiores desafios do rastreamento tradicional.
Em comunicado oficial, a pesquisadora Kristina Lång explicou que esses tumores surgem após um exame considerado normal e antes da próxima avaliação programada. Por crescerem mais rápido, eles tendem a ser detectados em estágios mais avançados, o que torna sua redução um objetivo central dos programas de prevenção.
Os resultados indicam uma melhora significativa no perfil dos diagnósticos. Entre as mulheres examinadas com apoio da inteligência artificial, houve 16% menos casos de câncer invasivo, 19% menos tumores de grande porte e 27% menos subtipos considerados agressivos. Em análises anteriores do mesmo estudo, os pesquisadores já haviam observado que a tecnologia permitiu identificar 29% mais casos de câncer de mama do que o método convencional, em sua maioria tumores pequenos e sem comprometimento dos linfonodos.
Outro impacto relevante está na rotina dos profissionais de saúde. Com o uso da inteligência artificial, a carga de leitura dos exames pelos radiologistas caiu 44%, sem aumento no número de falsos positivos. Esses casos ocorrem quando a paciente é chamada para exames adicionais, mas o câncer não é confirmado, situação que pode gerar ansiedade desnecessária.
O funcionamento do sistema é baseado na análise das imagens das mamografias, que são classificadas de acordo com o risco. Exames considerados de baixo risco passam por um radiologista, enquanto os de maior risco recebem dupla leitura médica. A tecnologia também destaca áreas suspeitas, auxiliando a avaliação clínica sem substituir o olhar humano.
De acordo com a Universidade de Lund, essa estratégia manteve a sensibilidade do rastreamento, ao mesmo tempo em que tornou o processo mais eficiente. Diversas regiões da Suécia já começaram a adotar a mamografia com apoio de inteligência artificial, e a expectativa é de expansão. Segundo Lång, a implementação é relativamente simples, pois envolve a integração de um software aos sistemas de tecnologia já existentes.
O jornal The Guardian destacou que 81% dos cânceres no grupo que utilizou inteligência artificial foram detectados ainda na fase de rastreamento, contra 74% entre as mulheres avaliadas apenas pelo método tradicional. Para especialistas, isso pode aliviar a pressão sobre os radiologistas e ampliar a detecção precoce, inclusive de tumores mais agressivos.
Apesar dos avanços, os pesquisadores reforçam que a tecnologia deve atuar como apoio, e não como substituta. Em entrevista à revista New Scientist, Kristina Lång afirmou que as próprias mulheres que participam dos programas de rastreamento querem a presença de um profissional humano no processo, usando a inteligência artificial como uma ferramenta adicional.
Estimativas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer indicam que os casos de câncer de mama podem crescer 38% até 2050, alcançando cerca de 3,2 milhões de novos diagnósticos por ano. O número de mortes associadas à doença também pode aumentar significativamente.
Segundo Simon Vincent, diretor científico da organização Breast Cancer Now, a inteligência artificial pode ser uma aliada poderosa dos radiologistas, fortalecendo o rastreamento, que é considerado essencial para a detecção precoce e para o sucesso do tratamento.