Ouvindo...

Agência espacial europeia faz transmissão ao vivo de Marte

Vai ser a primeira vez que algo tipo é tentado: imagens devem levar 18 minutos para chegar à Terra

Composição com 10 imagens de Marte

Para quem gosta de observar outros planetas, a agência espacial europeia (European Space Agency — ESA) tem uma programação inédita nesta sexta-feira (2): as primeiras imagens ao vivo de Marte serão apresentadas no canal da entidade no YouTube. Vai ser uma hora de apresentação diretamente do planeta.

Leia também:

A apresentação vai celebrar os 20 anos da missão espacial não tripulada Mars Express — e é a oportunidade de estar o mais próximo possível atualmente de Marte. A aproximadamente cada 50 segundos novas imagens serão enviadas diretamente da câmera de monitoramento visual (Visual Monitoring Camera – VMC) instalada no orbitador da ESA.

Vale lembrar que não há transmissão ao vivo do Espaço, uma vez que a velocidade da luz percorrendo grandes distâncias é um limitador. Por isso, atualmente, só há evidências de como Marte era no passado, já que a luz é refletida ou enviada por orbitadores e aterrissadores que observam o planeta. A depender das posições relativas dos planetas, isso leva de 3 a 22 minutos.

Boa parte do material coletado é transmitida nos períodos em que as espaçonaves não estão em contato direto com uma antena na Terra — seja pela geometria, seja porque a antena do equipamento não está voltada para a terra durante a coleta das informações. O material, então, é enviado à Terra horas ou dias depois.

Isso é natural para a maioria das missões espaciais e as transmissões ao vivo são raras. Na apresentação de sexta-feira, o tempo entre a obtenção das imagens da órbita de Marte e a exibição na tela do seu computador vai ser de cerca de 18 minutos: a luz demora 17 minutos para vir de Marte à Terra e, depois, mais um minuto para passar por fios e servidores.

Como isso nunca foi feito antes, ainda não se sabe exatamente quais são os tempos exatos de viagem do sinal na Terra. Há poucos exemplos de transmissões ao vivo do Espaço. É o caso, por exemplo, das missões DART e LCROSS, da Nasa, que gravaram suas colisões intencionais com o asteroide Dimorphos e a Lua, respectivamente. Ambas estavam bastante próximas da Terra.

Instrumento científico

Há 20 anos, quando a VMC foi instalada para observar Marte, sua função era monitorar a separação do lander Beagle 2 da espaçonave MEX. Depois disso, ela foi desligada. Não havia planos para que ela se tornasse um instrumento científico — ela nem foi projetada para obter imagens precisas.

Em 2007, entretanto, ela foi religada e usada para atividades científicas e de divulgação, como as campanhas de incentivo a entusiastas do Espaço e escolas para proporem observações de Marte. Atualmente, ela tem uma página no Flickr e uma conta no Mastodon (vinda do Twitter).

Jorge Hernández Bernal, que é da equipe da VMC, conta que foram desenvolvidos métodos mais sofisticados de operação e de processamento de imagens para obter melhores resultados da câmera. “Ela se tornou o oitavo instrumento científico da Mars Express. A partir das imagens descobrimos, por exemplo, a evolução de uma rara formação de nuvens alongadas sobre o Arsia Mons, um dos vulcões mais famosos de Marte, que tem 20 quilômetros de altura”, destaca.

Segundo os cientistas, essa nuvem se forma quando ventos muito rápidos sopram no cume do vulcão. Isso faz uma onda muito forte empurrar para cima, resfriar a atmosfera em 30ºC, e levar à condensação de gelo de água e à formação de nuvens. Ainda é um mistério como essa nuvem se estende e se alonga.

James Godfrey, gerente de operações de naves espaciais do centro de controle de missão da ESA, em Darmstadt, na Alemanha, lembra que a câmera é antiga e está a quase 3 milhões de quilômetros da Terra. “Isso não foi tentado antes e, para ser honesto, não temos certeza de que vai funcionar”, diz. “Mesmo assim, estou muito otimista. Estou ansioso para ver Marte como ele é agora.”

A atividade está em desenvolvimento há alguns meses e as equipes da ESA criaram ferramentas para garantir que imagens de alta qualidade possam ser transmitidas ao vivo por uma hora. A agência vai anunciar atualizações em seu perfil no Twitter @esaoperations com a hashtag #MarsLIVE. A transmissão começa às 13h desta sexta-feira pelo horário de Brasília no canal da ESA no YouTube.