“É muito difícil, mas a gente, se quiser, consegue parar e consegue mudar de vida.” A declaração é de Adriana Maria Walter Barbosa, de 56 anos, que conta uma história marcada por dificuldades e recomeço. Ela viveu mais de 15 anos nas ruas de Contagem (Grande BH), enfrentando a dependência do crack e o afastamento da família.
A mudança começou após um choque de realidade dentro de casa. A decisão de tentar deixar o vício surgiu quando soube que a filha estava grávida. Adriana comprou um celular na esperança de ver o neto, mas ouviu uma resposta dura da filha: “Mãe, como é que eu vou levar a senhora doidona para conhecer seu neto?”. As palavras foram decisivas para que ela aceitasse ajuda.
Adriana acompanhou, na manhã desta quarta-feira (14), a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), durante visita a um dos locais do bairro Eldorado onde estão instaladas barracas distribuídas pelo município para pessoas em situação de rua, na tentativa de levar esperança àquelas que ainda vivem nas ruas.
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Adriana disse que carrega muitas marcas. “Na rua houve muita calúnia, muita difamação, muita prostituição”, relata.
Segundo ela, mulheres em situação de rua sofrem violência por serem mulheres. “Tem homens que vêm e trazem um trago de pedra para a mulher, para ela ficar com ele, para aproveitar dela. Isso é o que mais tem na rua”, afirma.
Um dos maiores arrependimentos de Adriana é o tempo que passou longe da família, especialmente da irmã, que morreu em há 13 dias. Ela lembra das promessas que fazia para visitá-la e não conseguia cumprir. “Acabava que uma pessoa chegava, me dava um trago, eu já mudava de ideia, já ficava na pedra, esquecia. Quando eu ia ver, eu arrependia, chorava, chorava”, conta.
Antes da morte da irmã, Adriana ainda conseguiu passar o último Natal ao lado dela.
Ela também defende ações de conscientização, especialmente em escolas. “Levar gente que usa, pessoa que já usou, para contar como que é”, sugere.
Moradores de rua em Contagem
A Prefeitura de Contagem iniciou a entrega de barracas pelo projeto De Mãos Dadas, que prevê a distribuição de 150 unidades em três meses, oferecendo abrigo principalmente neste período de chuvas. Até agora, 49 barracas já foram entregues.
Número de moradores de rua cresce
O número de
Dados de um levantamento de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, com base no Cadastro Único do governo federal (CadÚnico), mostra que a população em situação de extrema vulnerabilidade saiu de 23.433 para 33.139 em meia década, um crescimento de 41%.
Belo Horizonte é a terceira cidade do país com o maior número de pessoas em situação de rua, com 15.474 registros no CadÚnico, atrás apenas de São Paulo, com 101.461, e Rio de Janeiro, com 23.431.