Satélite mineiro estava a bordo de foguete que desapareceu após lançamento na Índia

UaiSat, como é chamado, foi desenvolvido pela Universidade Federal de São João del-Rei e levou tecnologia 100% mineira ao espaço pela primeira vez

UaiSat, satélite desenvolvido pela UFSJ, levou tecnologia 100% mineira pela primeira vez ao espaço

Minas Gerais chegou ao espaço. Nesta segunda-feira (12), o UaiSat, um satélite desenvolvido pelo Laboratório Integrado de Sistemas Espaciais da Universidade Federal de São João del-Rei foi lançado rumo à órbita terrestre a uma altitude de cerca de 370 km, a bordo do foguete indiano PSLV-C62. O episódio entra para história como a primeira vez em que uma tecnologia 100% mineira chegou ao espaço. Mas, a missão espacial não teve o desfecho esperado.

O foguete que carregava o satélite da universidade, e outros 14 equipamentos, apresentou falhas apenas 10 minutos após o lançamento. O problema aconteceu no terceiro dos quatro estágios do foguete, o que levou a alteração na trajetória do veículo. O foguete então retornou a atmosfera da Terra e caiu no mar. Até o momento, o projétil e os satélites não foram localizados e seguem desaparecidos no oceano.

O lançamento

O lançamento ocorreu no Centro Espacial Satish Dhawan, na ilha de Sriharikota, na Índia, às 10h17, no horário local do país (1h48, no horário de Brasília). Aquele era o voo de número 64 do foguete. Após a falha, a Agência Espacial Indiana (Isro, na sigla em inglês) comentou sobre o episódio.

“A missão PSLV-C62 detectou uma anomalia no final do estágio PS3. Uma análise detalhada foi iniciada”, informou a agência em uma rede social.

Veja momento do lançamento

Detalhes do projeto mineiro

O UaiSat é um nanossatélite de apenas 5 cm × 5 cm e, apesar do tamanho reduzido, carregava tecnologia de ponta voltada ao desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do país.

A equipe responsável pelo projeto é composta pelos professores Marcos Kakitani e Moacir Souza, do curso de Engenharia de Telecomunicações da UFSJ, além dos pesquisadores e alunos João Pedro Polito, Hikari Beatriz, Paulo Dutra e Antônio Salvador.

Em entrevista à Itatiaia, João Pedro Polito, aluno pesquisador e head da missão, explicou que o UaiSat começou a ser desenvolvido em maio de 2024, após a universidade receber a oportunidade de lançamento. De acordo com o pesquisador, a missão tinha três objetivos principais: validar uma tecnologia desenvolvida pela equipe em ambiente espacial, coletar dados voltados ao agronegócio e realizar o monitoramento de raios e tempestades em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

João Pedro destacou que o processo até o lançamento foi longo e exigiu uma série de testes e qualificações técnicas. O satélite ficou pronto em agosto de 2024, mas teve o lançamento adiado algumas vezes até a data definitiva, em janeiro de 2026. Durante esse período, o equipamento passou por testes de vibração, correções de software e ajustes de frequência, simulando as condições extremas do lançamento.

“Nós vibramos o satélite na mesma frequência que o foguete, simulando um lançamento orbital, verificando se ele não ia desmontar e se ia se comportar bem. Em dezembro, enviamos o satélite para a Índia e lançamos agora, no dia 12”, contou.

Sobre o momento da falha do foguete, o pesquisador explicou que o problema foi falta de velocidade para que a inserção em órbita fosse alcançada.

“Houve uma falha prematura no terceiro estágio, o foguete começou a girar e estava a cerca de 370 a 390 quilômetros de altitude. Para colocar um objeto em órbita, seria necessária uma velocidade de aproximadamente 27 mil quilômetros por hora, mas ele estava a 20 mil quilômetros por hora”, detalhou.

Apesar do desfecho inesperado, o estudante avalia que a missão representa um marco para a universidade e para Minas Gerais.

“Ao mesmo tempo que é triste, a gente fica muito feliz de ter concluído a nossa missão, porque a falha foi no foguete, algo que a gente não conseguia controlar. Nós fizemos um satélite, entregamos esse satélite para o lançador e colocamos um satélite no espaço”, disse.

Segundo ele, mesmo com uma missão que durou apenas cerca de dez minutos, a experiência deixa um legado importante para o laboratório, que até então não tinha histórico de missões espaciais.

“Foi um laboratório que nunca tinha chegado ao espaço. Fazer um satélite na cara e na coragem foi muito interessante. A missão que a gente esperava durar dois anos orbitando a Terra durou apenas dez minutos, mas foi um grande aprendizado”, afirmou.

Novos planos

O pesquisador adiantou que o UaiSat é considerado um ponto de partida para projetos futuros. A equipe já trabalha no desenvolvimento de um novo satélite, maior que o anterior, batizado de Profeta Azul, com previsão de lançamento até o fim de 2026.

“Agora nós já temos a previsão de um novo satélite, um pouco maior, chamado Profeta Azul, com previsão de lançamento no final de 2026. É muito gratificante, ainda na graduação, poder construir, qualificar e lançar um satélite no espaço”, destacou.

O lançamento do UaiSat simboliza a entrada de Minas Gerais no setor espacial e demonstra a capacidade técnica das universidades públicas e da ciência produzida no estado.

“Minas entra na corrida espacial. Minas tem a capacidade agora de construir satélites, testar satélites e qualificar esses satélites. É um momento em que Minas coloca a bandeira no espaço e mostra que consegue fazer tecnologia mineira chegar lá”, concluiu João Pedro.

Outros satélites brasileiros

Além do UaiSat, o foguete indiano carregava também satélites de outras universidades brasileiras: Aldebaran-I, Orbital Temple, EduSat-1 e Galaxy Explorer. Os equipamentos fazem parte do Programa Nacional de Atividades Espaciais (Pnae) 2022–2031, coordenado pela AEB (Agência Espacial Brasileira), que estimula o desenvolvimento de nanossatélites acadêmicos, de baixo custo e alta relevância social.

Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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