Minas Gerais chegou ao espaço. Nesta segunda-feira (12), o UaiSat, um satélite desenvolvido pelo Laboratório Integrado de Sistemas Espaciais da Universidade Federal de São João del-Rei foi lançado rumo à órbita terrestre a uma altitude de cerca de 370 km, a bordo do foguete indiano PSLV-C62. O episódio entra para história como a primeira vez em que uma tecnologia 100% mineira chegou ao espaço. Mas, a missão espacial não teve o desfecho esperado.
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O lançamento
O lançamento ocorreu no Centro Espacial Satish Dhawan, na ilha de Sriharikota, na Índia, às 10h17, no horário local do país (1h48, no horário de Brasília). Aquele era o voo de número 64 do foguete. Após a falha, a Agência Espacial Indiana (Isro, na sigla em inglês) comentou sobre o episódio.
“A missão PSLV-C62 detectou uma anomalia no final do estágio PS3. Uma análise detalhada foi iniciada”, informou a agência em uma rede social.
Veja momento do lançamento
Vídeo: Foguete com satélites brasileiros some após o lançamento na Índia
— Itatiaia (@itatiaia) January 14, 2026
🎥Agencia Espacial Indiana/Reprodução
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Detalhes do projeto mineiro
O UaiSat é um nanossatélite de apenas 5 cm × 5 cm e, apesar do tamanho reduzido, carregava tecnologia de ponta voltada ao desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do país.
A equipe responsável pelo projeto é composta pelos professores Marcos Kakitani e Moacir Souza, do curso de Engenharia de Telecomunicações da UFSJ, além dos pesquisadores e alunos João Pedro Polito, Hikari Beatriz, Paulo Dutra e Antônio Salvador.
Em entrevista à Itatiaia, João Pedro Polito, aluno pesquisador e head da missão, explicou que o UaiSat começou a ser desenvolvido em maio de 2024, após a universidade receber a oportunidade de lançamento. De acordo com o pesquisador, a missão tinha três objetivos principais: validar uma tecnologia desenvolvida pela equipe em ambiente espacial, coletar dados voltados ao agronegócio e realizar o monitoramento de raios e tempestades em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
João Pedro destacou que o processo até o lançamento foi longo e exigiu uma série de testes e qualificações técnicas. O satélite ficou pronto em agosto de 2024, mas teve o lançamento adiado algumas vezes até a data definitiva, em janeiro de 2026. Durante esse período, o equipamento passou por testes de vibração, correções de software e ajustes de frequência, simulando as condições extremas do lançamento.
“Nós vibramos o satélite na mesma frequência que o foguete, simulando um lançamento orbital, verificando se ele não ia desmontar e se ia se comportar bem. Em dezembro, enviamos o satélite para a Índia e lançamos agora, no dia 12”, contou.
Sobre o momento da falha do foguete, o pesquisador explicou que o problema foi falta de velocidade para que a inserção em órbita fosse alcançada.
“Houve uma falha prematura no terceiro estágio, o foguete começou a girar e estava a cerca de 370 a 390 quilômetros de altitude. Para colocar um objeto em órbita, seria necessária uma velocidade de aproximadamente 27 mil quilômetros por hora, mas ele estava a 20 mil quilômetros por hora”, detalhou.
Apesar do desfecho inesperado, o estudante avalia que a missão representa um marco para a universidade e para Minas Gerais.
“Ao mesmo tempo que é triste, a gente fica muito feliz de ter concluído a nossa missão, porque a falha foi no foguete, algo que a gente não conseguia controlar. Nós fizemos um satélite, entregamos esse satélite para o lançador e colocamos um satélite no espaço”, disse.
Segundo ele, mesmo com uma missão que durou apenas cerca de dez minutos, a experiência deixa um legado importante para o laboratório, que até então não tinha histórico de missões espaciais.
“Foi um laboratório que nunca tinha chegado ao espaço. Fazer um satélite na cara e na coragem foi muito interessante. A missão que a gente esperava durar dois anos orbitando a Terra durou apenas dez minutos, mas foi um grande aprendizado”, afirmou.
Novos planos
O pesquisador adiantou que o UaiSat é considerado um ponto de partida para projetos futuros. A equipe já trabalha no desenvolvimento de um novo satélite, maior que o anterior, batizado de Profeta Azul, com previsão de lançamento até o fim de 2026.
“Agora nós já temos a previsão de um novo satélite, um pouco maior, chamado Profeta Azul, com previsão de lançamento no final de 2026. É muito gratificante, ainda na graduação, poder construir, qualificar e lançar um satélite no espaço”, destacou.
O lançamento do UaiSat simboliza a entrada de Minas Gerais no setor espacial e demonstra a capacidade técnica das universidades públicas e da ciência produzida no estado.
“Minas entra na corrida espacial. Minas tem a capacidade agora de construir satélites, testar satélites e qualificar esses satélites. É um momento em que Minas coloca a bandeira no espaço e mostra que consegue fazer tecnologia mineira chegar lá”, concluiu João Pedro.
Outros satélites brasileiros
Além do UaiSat, o foguete indiano carregava também satélites de outras universidades brasileiras: Aldebaran-I, Orbital Temple, EduSat-1 e Galaxy Explorer. Os equipamentos fazem parte do Programa Nacional de Atividades Espaciais (Pnae) 2022–2031, coordenado pela AEB (Agência Espacial Brasileira), que estimula o desenvolvimento de nanossatélites acadêmicos, de baixo custo e alta relevância social.