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Tradição e tecnologia impulsionam produção de café especial no Vale do Jequitinhonha

Com lavouras irrigadas e rigoroso controle de qualidade na xícara, produtores de Capelinha mostram a força da cafeicultura de alta qualidade no Jequitinhonha

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Tradição e tecnologia impulsionam produção de café especial no Vale do Jequitinhonha
Giullia Gurgel/ Itatiaia

Durante quase quatro décadas, os caminhos de Clênio Lamounier e Paulo Sadi se cruzaram diariamente na rotina intensa de uma multinacional do setor florestal. Atuando na produção de madeira e bioflorestas no Vale do Jequitinhonha, a dupla dividiu projetos, desafios e uma sólida amizade. Quando a hora da aposentadoria se aproximou, a ideia de desacelerar não fez parte dos planos. Em vez do descanso, eles decidiram dar vida a um novo projeto: a cafeicultura de alta qualidade.

O sonho começou a ser desenhado ainda em 1998, com a aquisição e o planejamento da Fazenda Jacutinga, localizada no município de Capelinha (MG), na região produtora da Chapada de Minas.

"É uma sociedade entre dois amigos pensando em ter o que fazer quando nos aposentássemos. Começamos a planejar essa lavoura lá atrás para unir nossa experiência com o desejo de continuar produzindo", relembrou Paulo Sadi à Itatiaia.

Paulo Sadi e Clênio Lamounier, proprietários da Fazenda Jacutinga em Capelinha MG • Mateus/ Cedida à Itatiaia
Paulo Sadi e Clênio Lamounier, proprietários da Fazenda Jacutinga em Capelinha MG • Mateus/ Cedida à Itatiaia

Hoje, a propriedade se consolidou como uma referência regional na produção de cafés especiais, servindo como uma das principais fornecedoras para a Jequitinhonha Alimentos e abastecendo a linha Poema Café, marca voltada aos segmentos especial e gourmet.

Alta tecnologia e o segredo do café amarelo

Situada a cerca de 800 metros de altitude, a Fazenda Jacutinga combina as condições de clima e solo favoráveis da Chapada de Minas com um modelo produtivo altamente mecanizado. A propriedade conta com 85 hectares de lavouras irrigadas por sistema de gotejamento, onde a colheita é realizada quase em sua totalidade de forma mecânica com maquinário de última geração.

A mecanização garante agilidade no recolhimento dos grãos e reduz o tempo de exposição dos frutos no campo, preservando o padrão sensorial. No entanto, o rigor técnico começa bem antes de as máquinas entrarem em cena.

Na escolha das variedades, os sócios priorizam frutos de casca amarela, como o clone 2 SL. De acordo com os produtores, essa característica confere uma doçura natural mais pronunciada à bebida, atributo altamente valorizado pelo mercado de cafés especiais.

Manejo nutricional e a fisiologia do cafeeiro

Cultivar café exige uma compreensão profunda do comportamento da planta. Durante a visita à propriedade, Paulo Sadi detalhou à reportagem os desafios da bienalidade, fenômeno fisiológico típico da cultura, no qual um ano de alta produtividade costuma ser seguido por uma safra mais enxuta.

"O ramo que produziu o café não produz mais naquele mesmo local. A planta precisa emitir novos galhos para a safra seguinte. Quando o pé está muito carregado, toda a energia vai para os grãos, e o crescimento do galho fica reduzido. No ano seguinte, como produziu menos café, a energia sobra para fazer os galhos crescerem, preparando a planta para uma colheita maior depois", explica o produtor.

Para amenizar os impactos dessa oscilação e manter índices produtivos constantes, a estratégia na Jacutinga apoia-se em dois pilares: renovação contínua do cafezal e equilíbrio nutricional rigoroso.

"O segredo é estar sempre renovando as lavouras, pois as plantas jovens produzem muito e conseguem criar ramificações para a safra futura. Isso, aliado a uma nutrição balanceada, permite que a planta produza bem hoje sem esgotar as reservas do amanhã", destaca Paulo.

Do campo ao laboratório: o rígido controle de qualidade

A exemplo do que ocorre na Jacutinga, o café colhido nas propriedades parceiras da região segue para a estrutura industrial da Jequitinhonha Alimentos. Nela, cada lote passa por uma triagem minuciosa antes de ser adquirido e processado.

Classificação do café • Giullia Gurgel/ Itatiaia
Classificação do café • Giullia Gurgel/ Itatiaia

No laboratório da empresa, o classificador de café João Erickson conduz as análises físicas e sensoriais que determinarão o destino dos grãos, detalhando como funciona o processo de avaliação assim que o produto chega do campo.

"O produtor chega com a amostra e eu faço a primeira etapa, que é a classificação física. Separo as impurezas e analiso defeitos como grãos brocados, conchas, verdes ou ardidos, além de checar a porcentagem de cada item no lote. Depois dessa análise detalhada, passamos para o teste de xícara (cupping). Nosso barista torra, mói e coloca o café na mesa para provarmos xícara por xícara. Só após a aprovação sensorial a equipe de compras entra em cena para fechar o negócio com o produtor", explicou João Erickson.

Análise sensorial de café • Giullia Gurgel/ Itatiaia
Análise sensorial de café • Giullia Gurgel/ Itatiaia
  • Classificação física: medição de peneiras e separação de impurezas ou defeitos (como grãos brocados, verdes, ardidos ou malformados).
  • Análise sensorial (Cupping): o café é torrado por um barista especialista, moído e preparado em xícaras para avaliação de aroma, corpo, acidez e doçura.
  • Negociação: com os laudos físico e degustativo validados, a gerência de compras conclui a aquisição do lote junto ao produtor.

Após a aprovação no teste de xícara, os grãos passam por equipamentos de pré-limpeza, torrefação automatizada, moagem e empacotamento, seguindo para a distribuição comercial.

Três décadas de legado e a nova geração no café

O ciclo que começa no cuidado de Paulo e Clênio com o solo ganha escala na estrutura industrial da Jequitinhonha Alimentos. A empresa aproxima-se da marca histórica de 30 anos de fundação sob a liderança do empresário Luiz Carlos Moreira, que iniciou sua trajetória no setor justamente como classificador de café.

Luiz Carlos Moreira, CEO da Jequitinhonha Alimentos • Giullia Gurgel/ Itatiaia
Luiz Carlos Moreira, CEO da Jequitinhonha Alimentos • Giullia Gurgel/ Itatiaia

O legado familiar e a busca por inovação ganharam um novo capítulo há cerca de um ano com a criação da Poema Café. A marca de cafés especiais e gourmets foi fundada pelos dois filhos de Luiz, os irmãos Vitor Nuno e Luiz Gustavo, que assumiram a missão de levar os grãos de alta qualidade da região para novos perfis de consumidores.

"São três décadas de consolidação de um propósito. Comecei como classificador e sempre tive a meta de selecionar o que há de melhor no campo para entregar ao consumidor final. A Jequitinhonha Alimentos estruturou-se com instalações modernas para o processamento, e ver a nova geração dando continuidade a esse trabalho com a Poema Cafés reafirma nosso compromisso em investir na qualidade e proporcionar experiências únicas de sabor ao público", destacou Moreira.

Vitor Nuno, Jucondina Barbosa, Luiz Carlos Moreira e Luiz Gustavo: a família Jequitinhonha Alimentos • Giullia Gurgel/ Itatiaia
Vitor Nuno, Jucondina Barbosa, Luiz Carlos Moreira e Luiz Gustavo: a família Jequitinhonha Alimentos • Giullia Gurgel/ Itatiaia

Unindo a precisão da engenharia agrícola à tradição cafeeira do Jequitinhonha, a parceria entre a Jacutinga, outras fazendas, e a indústria local demonstra como a tecnologia, o conhecimento técnico e a união familiar transformam a história da cafeicultura no interior de Minas Gerais.

*Repórter viajou a Capelinha (MG) a convite da Jequitinhonha Alimentos e Poema Café

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.

 

 

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