Belo Horizonte
Itatiaia

Sem mercado substituto para a China, Abiec pede negociação com UE para evitar mais perdas

Em meio a férias coletivas e operação no vermelho por restrições chinesas, setor tenta evitar novos bloqueios articulando veto a antimicrobianos com o governo

Por
Abiec celebra retomada de três frigoríficos de carne bovina para a China
Abiec/ Reprodução

O setor pecuário brasileiro vive um cenário de atenção. Ao mesmo tempo em que a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) lançou, nesta quinta-feira (16) em Brasília, a 11ª edição do seu relatório anual — o Beef Report 2026 —, celebrando dados históricos consolidados do ano anterior, as indústrias nacionais enfrentam um cenário imediato desafiador.

Durante o evento, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, adotou um tom realista e de "muita cautela", destacando as dificuldades enfrentadas pelo setor, puxadas pela drástica redução de demanda da China e pelos entraves comerciais e regulatórios com a União Europeia.

Sem substituto para a China: indústrias no vermelho e demissões

De acordo com Perosa, o "mix tradicional" que equilibra o consumo doméstico com a alta remuneração das exportações está comprometido pelo atual cenário geopolítico. Com a imposição de uma cota unilateral por parte de Pequim, as exportações de carne bovina para o país asiático devem despencar para algo entre 850 mil e 900 mil toneladas em 2026 (somadas ao montante do ano anterior, totalizam 1,1 milhão)— um recuo drástico de, no mínimo, 700 mil toneladas em relação ao ano anterior.

Questionado sobre novos parceiros comerciais, Perosa foi enfático ao afirmar que ainda não há outros mercados capazes de absorver a demanda chinesa. O Vietnã, por exemplo, embora promissor, deve fechar o ano com tímidas 15 a 20 mil toneladas enviadas pelo Brasil devido a barreiras culturais de consumo.

"Hoje, a maioria das indústrias está trabalhando no vermelho e tomando medidas como férias coletivas, demissões, redução de abates e readequação de pessoal. As maiores indústrias dependem da exportação para a firmação dos seus preços e de suas margens", revelou o presidente da Abiec.

Historicamente, o mercado doméstico retém cerca de 70% da produção brasileira, mas são as exportações que garantem a "saúde financeira" dos frigoríficos. Sem a forte disputa internacional pela proteína brasileira, a tendência no momento é de que o preço da carne se mantenha estável e registre futuras altas no varejo interno, mas com margens muito espremidas para a indústria.

Negociação com a UE e o pedido de banimento de antimicrobianos

Paralelamente ao "vácuo" deixado pela China, o setor corre contra o tempo para resolver os entraves regulatórios com a União Europeia. Embora represente 5% do volume e do faturamento das exportações brasileiras, o bloco europeu é um mercado de altíssimo valor agregado e funciona como um "farol reputacional" para o restante do mundo.

Para evitar um bloqueio nas exportações devido às exigências europeias sobre o controle de substâncias no rebanho, a Abiec aliou-se à Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) em uma negociação direta com o governo brasileiro.

"Nós fizemos um pedido junto com a ABPA pelo banimento dos antimicrobianos. Isso está em trâmite com o Ministério da Agricultura; eles estão dialogando para chegar a uma decisão, que ainda não temos, mas está se encaminhando", explicou Perosa.

O presidente concluiu destacando que, por mais que o volume destinado à Europa não seja o maior, o impacto de qualquer decisão do bloco é global. "A UE importa cortes diferentes dos destinados à Ásia e ajuda a tirar a pressão dos preços no mercado interno. Por isso, estamos empenhados em uma solução rápida".

Por

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.