Carne bovina: fim da cota na China faz frigoríficos adotarem férias coletivas, diz Abiec
Presidente da entidade, Roberto Perosa, analisa freio nos abates e pressões no mercado

O mercado de carne bovina no Brasil entrou em um período de forte adaptação e cautela. Após uma corrida das indústrias no primeiro semestre para escoar a produção, o preenchimento da cota de exportação sem sobretaxa estabelecida pela China começou a provocar uma reação em cadeia no setor. O esgotamento do limite tarifário resultou em paralisações temporárias e férias coletivas em diversas plantas frigoríficas pelo país.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, a situação atual é reflexo direto das restrições impostas pelo principal parceiro comercial do Brasil. No ano passado, o país enviou cerca de 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para o mercado chinês. Para este ano, contudo, Pequim estipulou uma cota de 1,106 milhão de toneladas — uma redução drástica de quase 35%.
A matemática das férias coletivas
Como a China absorve metade de todo o volume de carne exportado pelo Brasil, o setor se viu sem canais alternativos imediatos com capacidade para absorver esse excedente de produção. Segundo Perosa, as empresas estão adotando medidas individuais e estratégicas para evitar que a mercadoria fique estocada sem destino.
"Aqueles que têm uma maior capacidade de atender outros mercados diminuíram um pouco a sua produção. Aqueles que não têm tantos destinos para enviar as suas cargas estão diminuindo a produção nesse início e dando férias coletivas em algumas plantas", explicou o presidente da Abiec.
Logisticamente, Perosa esclarece que os embarques formais para o país asiático cessaram em meados de junho. Embora os dados contábeis na China ainda não mostrem o teto atingido devido ao tempo de trânsito dos navios (que varia de 40 a 60 dias), as indústrias brasileiras já pararam de produzir o "boi China". O motivo é financeiro: dentro da cota, a tarifa de importação gira em torno de 12%; fora dela, adicionam-se 55% de sobretaxa. Com o imposto total saltando para 67%, as vendas se tornam economicamente inviáveis para a quase totalidade dos cortes nacionais.
Pressão geopolítica e a busca por mercados substitutos
O gargalo chinês soma-se a um cenário internacional complexo enfrentado pela agroindústria da carne no primeiro semestre, marcado por entraves regulatórios e geopolíticos. Entre os principais desafios apontados pela entidade estão o "tarifaço" imposto pelos Estados Unidos no ano passado e os questionamentos sanitários que travam o comércio com a União Europeia.
No caso europeu, o impasse gira em torno do modelo de fiscalização brasileiro. Segundo o executivo, o Ministério da Agricultura e a Secretaria de Defesa Agropecuária trabalham no envio de dados para comprovar a eficiência dos mecanismos nacionais à UE. A expectativa da Abiec é conseguir a reabilitação das plantas e retomar o fluxo para o bloco até setembro.
Para mitigar a dependência da China, a associação, em parceria com o governo federal, tenta acelerar a abertura e consolidação de mercados alternativos. Entre os alvos prioritários estão:
- Vietnã: mercado aberto recentemente, mas que ainda passa por transição e registra volumes baixos;
- Japão e Coreia do Sul: grandes centros consumidores globais onde o Brasil busca habilitação;
- Turquia: outro destino estratégico em fase de negociações bilaterais.
Reflexos no mercado interno: arroba e preço ao consumidor
As barreiras externas já se estendem para o ambiente doméstico. O preço da arroba do boi gordo registrou recuos recentes devido à desaceleração das compras por parte dos frigoríficos. Perosa avalia que o mercado deve encontrar um novo patamar de preço nos próximos dias e pede calma aos produtores, destacando que o momento exige atenção e não desespero.
Para o consumidor brasileiro, o cenário liga um sinal de alerta. Embora o mercado interno seja o principal destino da produção nacional — retendo cerca de 70% de toda a carne bovina produzida no país —, a tendência de redução na atividade das indústrias pode encarecer o produto no balcão no curto prazo.
Além da menor oferta gerada pelo freio nos abates, o setor lida com pressões severas nos custos de produção. "Temos juros muito altos, falta de financiamento para o setor e muita dificuldade de acesso ao crédito, tanto para produtores quanto para frigoríficos, com uma série de exigências que muitas vezes nem acompanham a realidade da legislação", apontou Perosa. Segundo a entidade, a cadeia trabalha para assegurar o abastecimento doméstico enquanto tenta redirecionar os excedentes que antes tinham o mercado asiático como destino.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



