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Além do café: setor florestal impulsiona agro de Minas, que atinge PIB de R$ 279 bilhões

Com participação histórica de 24,1% no PIB do estado em 2025, o agronegócio mineiro celebra o avanço do café e da soja, mas lideranças alertam para o endividamento e clima em 2026

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Além do café: setor florestal impulsiona agro de Minas, que atinge PIB de R$ 279 bilhões
Raimundo Leal. Adriana Maugeri, Antônio de Salvo e Thales Fernandes • Giullia Gurgel/ Itatiaia

Após a divulgação do resultado histórico que consolidou o agronegócio como responsável por 24,1% de toda a economia de Minas Gerais em 2025, somando R$ 279 bilhões, o Sistema Faemg Senar, a Secretaria de Estado de Agricultura (Seapa) e a Fundação João Pinheiro (FJP) reuniram-se em coletiva de imprensa para analisar as engrenagens por trás dos números. Se, por um lado, os dados consolidados coroam Minas Gerais como a terceira maior força agropecuária do país, superando Paraná e Rio Grande do Sul, por outro, as projeções futuras trazem um cenário de forte apreensão para o setor

Lideranças e técnicos destacaram, nesta sexta-feira (3), que o recorde foi impulsionado por uma combinação de valorização de commodities (especialmente o café) e políticas públicas de inclusão. Contudo, o setor agora se prepara para enfrentar custos elevados, endividamento e os impactos das mudanças climáticas.

Alerta da Faemg: futuro exige atenção

O presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo celebrou o esforço dos produtores em 2025 e alertou que o momento atual (2026) e os próximos anos não serão um "céu de brigadeiro".

"Nós estamos olhando para o retrovisor do acontecimento do ano passado. Feliz pelo que fizemos, mas apreensivo por um futuro não muito claro para frente", ponderou De Salvo.

Entre os principais gargalos apontados pelo presidente estão o Plano Safra aquém do esperado, a escassez de recursos subsidiados e a falta de seguro agrícola robusto em meio ao fenômeno El Niño. Ele também chamou a atenção para um fenômeno financeiro que sufoca o produtor: a disparidade cambial nos insumos. "Vemos a possibilidade de um endividamento crescente dentro do setor. Por incrível que pareça, plantamos com o dólar a R$ 6 e vendemos a R$ 5. O produtor comprou o insumo na alta e, na hora de comercializar o seu produto, enfrentou a queda da moeda".

De Salvo reforçou que cerca de 80% a 83% dos produtores mineiros são de pequeno porte e que a assistência técnica tem sido o diferencial para manter a renda desses trabalhadores 21% acima da média de quem não recebe o suporte. "Quanto mais produzimos, mais barato será o alimento. Super safra é boa para o povo. Se o nosso setor não continuar avançando, toda a sociedade perde", concluiu.

Setor Florestal: o 'gigante invisível' na transição energética

Um dos grandes destaques da coletiva foi a força da silvicultura em Minas Gerais. Adriana Maugeri, presidente executiva da Associação Mineira da Indústria Florestal (AMIF), revelou que o setor florestal é, hoje, a maior cultura agrícola do estado, marcando presença em 94% dos municípios mineiros.

A produção de florestas plantadas em Minas carrega uma forte marca de inclusão social, dividida igualmente: 50% de toda a produção florestal está nas mãos de pequenos e médios produtores, e os outros 50% pertencem às grandes empresas. Maugeri destacou que o estado possui a maior área plantada do Brasil e que a tendência é de forte expansão, puxada pela transição energética global.

"A madeira vem sendo uma das principais matérias-primas da transição energética. Vários setores da indústria que antes usavam combustíveis fósseis estão mudando para a madeira. Um exemplo claro é o crescimento do etanol de milho no Brasil que, diferente do etanol de cana, depende diretamente de madeira de floresta plantada para a sua produção. O estoque atual do Brasil não atende a essa demanda crescente; precisamos expandir", explicou a presidente da AMIF.

Para Maugeri, a silvicultura em Minas tem a oportunidade de crescer ocupando os mais de 3 milhões de hectares de áreas degradadas e de baixa produtividade do estado. Além disso, ela apontou a floresta plantada como uma barreira de defesa contra o El Niño e as crises climáticas.

"Quanto mais proporcionarmos cobertura vegetal no nosso estado, dando utilidade para esses solos degradados, maior será o nosso bolsão de remoção de carbono e melhor será a nossa adaptação climática. O brasileiro não pode pensar só em reação; precisamos trabalhar em adaptação, e aí entra a importância do seguro e de novas coberturas vegetais", defendeu.

Diversidade e políticas públicas impulsionaram o resultado

O Secretário de Agricultura de Minas Gerais, Thales Fernandes, atribuiu o desempenho recorde à diversidade produtiva do estado. O grande motor da balança comercial foi o café, que registrou uma valorização expressiva de 65,8% nos preços e caminha para a maior safra da história mineira. No entanto, Fernandes destacou que o crescimento também veio "de baixo para cima", por meio da regularização e do fomento aos pequenos produtores.

"A nossa secretaria costuma dizer que o grande produtor já é bem estruturado. Ele nos procura mais para trazer seus problemas ambientais, sanitários ou fiscais. Os pequenos, até então, nem conheciam as políticas públicas", explicou o secretário. Fernandes citou avanços estruturais importantes nos últimos anos:

  • Agroindústria de pequeno porte: em 2019, apenas um município mineiro tinha equivalência para comercializar produtos de valor agregado (como queijos artesanais, mel e azeite) fora do estado. Hoje, são quase 500 municípios regularizados.
  • Regularização fundiária: mais de 18 mil produtores receberam títulos de terra, passando a existir formalmente para acessar crédito bancário.
  • Merenda Escolar (PNAI): o estado investiu R$ 100 milhões na Emater para estruturar a compra institucional de alimentos de 20 mil pequenos produtores, gerando um ciclo econômico de quase R$ 1 bilhão. "Esses produtores sabem o que produzir, para quem vender e quanto vão receber, com dinheiro na conta", pontuou Fernandes.

Análise técnica: preço X volume

Os dados detalhados pela Fundação João Pinheiro, apresentados pelo economista Raimundo Leal, revelaram que o crescimento de 2025 foi predominantemente determinado pelos preços, e não pelo volume físico de produção. Enquanto o volume do PIB do agronegócio cresceu 1,7% (ainda assim acima dos 1,4% da economia geral do estado), a variação média dos preços do setor saltou 16%.

Além do salto histórico de 65,8% no café, outros produtos registraram valorizações expressivas:

  • Tomate: +22,9%
  • Arroz em casca: +22,5%
  • Milho: +13,3%
  • Soja: +11,5% (com volume saltando de 7,7 milhões para 9,2 milhões de toneladas).

Leal trouxe uma reflexão de caráter estrutural para a economia global. Segundo o economista, a sequência de altas consecutivas nos preços do agro desde 2020 (com exceção de 2021) pode indicar uma nova realidade de mercado.

"A grande reflexão é saber se estamos diante de uma nova tendência estrutural. O clima tem restringido a oferta e, do outro lado, a demanda global por produtos básicos não para de subir. Isso tem feito os preços do agro subirem muito acima do restante da economia, e precisamos entender se esse cenário veio para ficar", explicou o professor.

'Vários ovos em diferentes cestas'

Aline Veloso, economista da Vértice Agro e consultora da Faemg Senar, corroborou a visão técnica e destacou o peso do setor pós-porteira, como a agroindústria florestal, que tem puxado o segmento de papel, celulose e a cadeia do "aço verde" (carvão vegetal para a siderurgia).

Para a economista, a resiliência mineira está em sua geografia e pluralidade: "Minas é muito mais do que café. É leite, soja, olericultura, floresta plantada e cana. É o estado mais diverso do país. Isso nos dá a possibilidade de ter vários ovos distribuídos em várias cestas. Se as características climáticas nos desafiam, a nossa diversidade nos sustenta".

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.