Estudo encontra 25 tipos de agrotóxicos ao longo do Rio Tietê; um deles é banido na Europa
Estudo inédito da Fundação SOS Mata Atlântica revela que o maior rio paulista sofre com múltiplas camadas de poluição, arrastando defensivos agrícolas proibidos na Europa

O Rio Tietê não tem nenhum trecho plenamente livre de contaminação. Conhecido historicamente pela mancha de poluição na Região Metropolitana de São Paulo, o diagnóstico do maior rio paulista ganhou contornos ainda mais alarmantes. Os resultados da Expedição Tietê 2025, promovida pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com universidades e centros de pesquisa, revelam que a degradação ambiental vai muito além do esgoto doméstico visível: o rio tornou-se um depósito de contaminantes invisíveis, impulsionado fortemente pela atividade agrícola no interior do estado.
Dos 46 compostos investigados, 25 tipos de agrotóxicos foram detectados ao longo do percurso de mais de 1.100 quilômetros, que vai da nascente em Salesópolis até a foz no rio Paraná, em Itapura. O monitoramento inédito confirmou o peso do modelo de uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica, que tem cerca de 60% a 65% de sua área total tomada por atividades agropecuárias (com destaque para o cultivo de cana-de-açúcar, soja e citros).
Lista completa dos 25 agrotóxicos encontrados
A análise laboratorial detalhou a frequência com que cada uma das substâncias — entre herbicidas, fungicidas e inseticidas — apareceu nos 14 pontos amostrados ao longo do leito do rio:
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Tebutiurom (100%) — Herbicida
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Clomazona (100%) — Herbicida
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Diurom (92,86%) — Herbicida
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Ciproconazol (85,71%) — Fungicida
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Hexazinona (85,71%) — Herbicida
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Atrazina (85,71%) — Herbicida
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Terbutilazina (85,71%) — Herbicida
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Acetamiprido (85,71%) — Inseticida
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Azoxistrobina (78,57%) — Fungicida
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Ametrina (78,57%) — Herbicida
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Metalaxil-M (71,43%) — Fungicida
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Tebuconazol (71,43%) — Fungicida
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Metribuzim (71,43%) — Herbicida
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Prometrina (64,29%) — Herbicida
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Fipronil (64,29%) — Inseticida
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Imidacloprido (57,14%) — Inseticida
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Malationa (50%) — Inseticida
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Bentazona (42,86%) — Herbicida
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Tiametoxam (42,86%) — Inseticida
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Bromacil (28,57%) — Herbicida
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Propamocarbe (21,43%) — Fungicida
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Trifloxistrobina (14,29%) — Fungicida
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Fludioxonil (14,29%) — Fungicida
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Indaziflam (7,14%) — Herbicida
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Mesotriona (7,14%) — Herbicida

'Veneno invisível' no interior
A presença dos defensivos agrícolas ganha força e intensidade nos trechos do Médio e do Baixo Tietê. Substâncias como os herbicidas tebuthiuron e clomazone foram identificadas em 100% dos pontos analisados, demonstrando uma contaminação difusa e persistente.
O que mais acendeu o alerta dos pesquisadores do Laboratório de Ecotoxicologia do CENA/USP foi a detecção da atrazina em níveis acima dos limites legais estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357/2005 em alguns trechos. Trata-se de um herbicida altamente polêmico, banido na União Europeia há mais de duas décadas (desde 2004) devido aos riscos ambientais e à saúde humana, mas que continua sendo amplamente utilizado nas lavouras brasileiras.
Até mesmo na nascente do rio, em Salesópolis — considerada a área mais preservada —, resíduos de herbicidas e inseticidas foram encontrados na água, carregados pela chuva ou pela atividade no entorno do Parque das Nascentes.
“Quando encontramos agrotóxicos ao longo do percurso, microplásticos em todos os pontos e substâncias como fármacos e drogas ilícitas na água, não estamos olhando para problemas separados, mas de um conjunto de pressões que atuam de forma simultânea e cumulativa”, explicou Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da SOS Mata Atlântica.
Coquetel químico e plástico
Os dados integrados da expedição traçam o que os cientistas chamaram de um "diagnóstico bioquímico coletivo" da sociedade paulista. Além da forte pressão agrícola, o Tietê carrega outras camadas simultâneas de contaminação:
- Microplásticos em 100% dos pontos: partículas plásticas de tamanho inferior a 5 mm (principalmente fibras sintéticas de roupas e desgaste de pneus) foram achadas da nascente à foz. Nos reservatórios do interior, como em Promissão, o acúmulo chegou a ser de 10 a 17 vezes maior do que nos trechos de correnteza.
- Fármacos e drogas ilícitas: foram identificadas 16 substâncias emergentes. O ponto de Osasco registrou os maiores picos de contaminação por cafeína (marcador universal de esgoto), losartana (medicamento para hipertensão) e cocaína, além de seu principal metabólito, a benzoilecgonina.
- Metais pesados: o cobre, elemento associado a fungicidas agrícolas e descargas industriais, foi detectado acima dos limites permitidos por lei em todos os 14 pontos amostrados.
Efeito cascata na vida aquática
Os pesquisadores alertam que o impacto dessas substâncias é potencializado quando combinadas. Os microplásticos, por exemplo, conseguem atrair e transportar as moléculas de agrotóxicos e fármacos rio abaixo. Junte-se a isso o colapso de oxigênio provocado pelo esgoto urbano — que registrou níveis críticos de 0,37 mg/L em Guarulhos e 0,49 mg/L em Osasco — e o ambiente se torna hostil para a sobrevivência de peixes e microrganismos que ajudariam na decomposição natural dos poluentes.
Embora o rio passe por uma melhora na oxigenação no trecho final da foz em Itapura (chegando a 8,6 mg/L), compostos persistentes como agrotóxicos, cafeína e microplásticos continuam presentes no sistema, provando que a diluição da água não elimina a carga química tóxica acumulada.

Recuperação exige urgência sistêmica
Para a Fundação SOS Mata Atlântica, os dados da Expedição Tietê 2025 são um chamado urgente para ações que ultrapassem a óbvia expansão do saneamento básico nas grandes cidades.
A diretoria da organização reforça que reverter o cenário de degradação exige fiscalização rígida, revisão imediata sobre as regras de uso e liberação de agrotóxicos no país, práticas agrícolas sustentáveis e um plano massivo de restauração florestal das margens e nascentes para que as florestas voltem a atuar como filtros biológicos naturais do principal rio do estado.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



