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Para além do impacto econômico: tilápia do Vietnã apresenta risco sanitário ao Brasil

Além do preço mais baixo impactando no mercado interno, o grande alerta é a possibilidade de entrada de doenças inexistentes na piscicultura nacional

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Tilápia do Vietnã dispara 30% em SP e acende sinal de alerta na piscicultura
Canva/ Banco

Um tema domina os debates da aquicultura brasileira neste momento: a importação de tilápia do Vietnã com isenção de impostos federais. A medida permite que o produto chegue ao mercado brasileiro com preços significativamente inferiores aos praticados pelos produtores nacionais.

A discussão tem sido um dos principais assuntos da Aquishow Brasil 2026, realizada em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e que termina nesta quinta-feira (11). À primeira vista, o debate pode parecer apenas uma disputa comercial ou uma tentativa de proteção do mercado interno. No entanto, representantes do setor afirmam que a preocupação vai além da concorrência de preços.

Em um mercado globalizado, a chegada de produtos importados com preços agressivos já impacta diversos segmentos do agronegócio brasileiro. O morango vindo do Egito preocupa produtores nacionais, enquanto o leite em pó da Argentina e do Uruguai é alvo de questionamentos frequentes, inclusive com casos de dumping já reconhecidos. No caso da tilápia vietnamita, porém, especialistas apontam um agravante: o risco sanitário.

Embora defensores da importação argumentem que o processamento industrial elimina qualquer possibilidade de transmissão de doenças, produtores e entidades do setor contestam essa avaliação.

Em entrevista à Itatiaia, o diretor-executivo da Peixe MG, Bruno Machado, afirmou que existe risco real de introdução de patógenos presentes no Vietnã e inexistentes no Brasil. “Na história do Brasil, já houve casos de doenças introduzidas por meio de produtos processados. Nós não temos uma coleta de resíduos totalmente eficiente. Parte desse material vai para aterros ou lixões, e, com as chuvas, pode alcançar cursos d’água. A possibilidade existe e não pode ser ignorada”, alertou.

Segundo Machado, o Vietnã convive com enfermidades virais e bacterianas que não estão presentes na piscicultura brasileira. Para ele, o descarte inadequado de resíduos oriundos dos produtos importados pode representar uma porta de entrada para esses agentes.

Estados reagem

Diante das preocupações, estados como Minas Gerais e São Paulo adotaram medidas para dificultar a entrada do produto. Ambos retiraram a isenção do ICMS para a tilápia importada, reduzindo a diferença de preço em relação ao pescado nacional.

De acordo com Machado, o Ministério da Agricultura classificou o risco sanitário como “negligenciável”, entendimento que diverge da avaliação de parte do setor produtivo.

Com a tributação estadual, a diferença de preços entre o produto nacional e o importado diminuiu significativamente, permitindo que a escolha fique mais nas mãos do consumidor.

Como identificar a tilápia do Vietnã

Mas afinal, o consumidor consegue diferenciar a tilápia nacional da vietnamita? Segundo Bruno Machado, existem dois caminhos.

O primeiro é observar a rotulagem. As normas da Anvisa e do Ministério da Agricultura exigem a identificação do país de origem do produto. “Mesmo que uma empresa brasileira importe o filé e apenas faça o reembalamento, ela é obrigada a informar na embalagem que o produto tem origem no Vietnã”, explicou.

A segunda diferença está na aparência do filé. Machado destaca que a indústria vietnamita possui autorização para utilizar substâncias que aumentam o tempo de conservação do pescado, algo que não é permitido da mesma forma no Brasil.

Entre elas está o tripolifosfato, composto que favorece a retenção de água no filé, prolongando sua vida útil. “O filé vietnamita costuma ser mais branco, quase pálido. Já o filé produzido em Minas Gerais, São Paulo ou Paraná mantém uma coloração mais rosada, mesmo congelado”, afirmou.

Segundo ele, enquanto a tilápia brasileira geralmente possui validade de até um ano, o produto vietnamita pode permanecer armazenado por até dois anos graças ao uso desse tipo de tecnologia de conservação.

A discussão sobre a importação da tilápia do Vietnã segue dividindo opiniões entre governo, indústria e produtores. Enquanto consumidores podem se beneficiar de preços mais baixos, o setor aquícola brasileiro defende que a análise da questão não deve se limitar ao aspecto econômico, mas considerar também os potenciais impactos sanitários e produtivos para o país.

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Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.