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Suplemento pode melhorar recuperação do fígado após cirurgia, aponta estudo com camundongos

Os resultados foram publicados na revista científica Acta Physiologica

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Um suplemento amplamente utilizado para preservação da massa muscular pode ajudar o fígado a se recuperar de forma mais eficiente após cirurgias de grande porte. É o que indica um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que mostrou que o beta-hidroxi-beta-metilbutirato (HMB) preservou a produção de energia das células hepáticas e tornou o órgão mais resistente a novos danos em experimentos com camundongos.

Os resultados, publicados na revista científica Acta Physiologica, sugerem que a suplementação antes da cirurgia melhora a qualidade da regeneração do fígado, embora não acelere o processo de recuperação.

O HMB é um metabólito derivado da leucina, aminoácido essencial obtido por meio da alimentação. A substância já é utilizada como suplemento alimentar, principalmente para preservar a massa muscular durante o envelhecimento, períodos de imobilização ou recuperação de doenças. Apesar disso, os benefícios em humanos ainda são considerados modestos e carecem de evidências clínicas mais robustas.

Segundo o biólogo Igor Luchini Baptista, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp e orientador da pesquisa, o estudo surgiu a partir da constatação de que o HMB é produzido principalmente no fígado.

"A gente partiu de uma pergunta simples: se ele é produzido no fígado, por que quase ninguém investigou o efeito direto nesse órgão?", explicou o pesquisador à Agência FAPESP.

Como foi o estudo

Durante o experimento, os camundongos receberam diariamente uma dose de HMB equivalente à utilizada por seres humanos (cerca de 3 gramas para um adulto de 70 quilos) durante dez dias. Em seguida, os animais foram submetidos à remoção de aproximadamente 70% do fígado, procedimento amplamente utilizado em pesquisas sobre regeneração hepática.

Embora todos os animais tenham recuperado a massa do órgão em cerca de sete dias, os pesquisadores observaram que aqueles suplementados apresentavam um fígado metabolicamente mais preparado durante o processo de regeneração.

Para avaliar a resistência do tecido regenerado, os cientistas provocaram uma segunda agressão ao órgão sete dias após a cirurgia, utilizando uma dose elevada de paracetamol, modelo experimental empregado para simular toxicidade hepática.

Nessa etapa, os animais que haviam recebido HMB apresentaram menos sinais de lesão, melhor funcionamento das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia nas células, e uma resposta regenerativa mais eficiente do que os integrantes do grupo controle.

"Não vimos uma regeneração mais rápida, mas uma regeneração de melhor qualidade. Esse fígado parece mais preparado para lidar com um novo desafio", afirmou Baptista.

Preservação das mitocôndrias

Os pesquisadores atribuem os resultados principalmente à preservação da função mitocondrial. Segundo Baptista, manter essas estruturas funcionando adequadamente é essencial para que as células sobrevivam e consigam reparar o tecido após situações de estresse, como cirurgias ou intoxicações.

Outro achado considerado relevante foi a duração do efeito da suplementação. Os benefícios foram observados mesmo após a interrupção do uso do HMB, cerca de 18 dias antes da segunda lesão induzida nos animais.

"Isso foi o mais curioso. O animal recebeu HMB antes da cirurgia, e todo o benefício aparece depois, sem que ele continue recebendo o suplemento", destacou.

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que o estudo foi realizado exclusivamente em modelo animal e que ainda não há evidências suficientes para recomendar o uso do HMB antes de cirurgias em seres humanos.

Segundo Baptista, a pesquisa abre caminho para novos estudos clínicos que poderão avaliar se a estratégia também é eficaz em pacientes.

"O estudo sugere que é possível preparar metabolicamente o organismo antes de um grande desafio, como uma cirurgia. Mas transformar isso em recomendação clínica exige uma série de pesquisas em humanos", concluiu o pesquisador.

O trabalho foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

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