Pesquisadores da UFMG documentam dietas ancestrais para entender doenças modernas
Professores da Escola de Enfermagem e do ICB integram consórcio global que estuda como a alimentação tradicional protege contra diabetes e outras doenças crônicas

Pesquisadores da UFMG agora fazem parte de um esforço científico internacional para documentar esses padrões alimentares antes que desapareçam. A professora Adaliene Versiani Ferreira, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem, e o professor Mauro Martins Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB, integram a World Diet Initiative, consórcio que reúne cientistas de 12 países dedicados a entender como a alimentação molda a saúde humana. O trabalho foi apresentado este ano na revista Nature Medicine.
O que são dietas ancestrais e por que elas importam
Dietas ancestrais são padrões alimentares desenvolvidos ao longo de gerações em comunidades específicas. Elas refletem os alimentos disponíveis em cada região e as técnicas tradicionais de preparo.
O que torna essas dietas especialmente relevantes para a ciência é uma observação consistente: populações que mantêm seus padrões alimentares tradicionais apresentam taxas muito mais baixas de doenças crônicas. Diabetes, obesidade e problemas cardiovasculares são raros nesses grupos.
A professora Adaliene Ferreira explica que esse conhecimento precisa ser registrado urgentemente. A globalização está homogeneizando a alimentação mundial, substituindo ingredientes frescos e preparações caseiras por produtos ultraprocessados. Esse processo apaga rapidamente padrões dietéticos que levaram séculos para se formar.
Como funciona a World Diet Initiative
O consórcio internacional opera em duas frentes complementares. A primeira é o Atlas da Dieta Mundial, coordenado pela professora Adaliene Versiani Ferreira.
O Atlas funciona como um repositório detalhado das dietas tradicionais de diversas partes do mundo. Os pesquisadores documentam não apenas quais alimentos são consumidos, mas também como eles são preparados e em que contexto cultural são utilizados. O mapa será ampliado continuamente e estará disponível para consulta por pesquisadores, comunidades e responsáveis pela elaboração de políticas públicas.
A segunda vertente é o Projeto da Dieta Mundial. Aqui, os cientistas investigam os efeitos biológicos concretos dessas dietas. O objetivo é entender como a exposição de longo prazo a diferentes padrões alimentares molda a imunidade, o metabolismo e a microbiota dos organismos.
Exemplos de diversidade alimentar ao redor do mundo
A variedade de dietas ancestrais pelo planeta é impressionante. Comunidades Maasai, no Leste da África, desenvolveram um padrão alimentar rico em produtos de origem animal, especialmente leite e carne.
Na Etiópia, a situação é oposta. As dietas tradicionais são baseadas no alto consumo de produtos vegetais, com grãos e legumes formando a base da alimentação.
No Brasil, as regiões também apresentam padrões alimentares muito distintos. A professora Adaliene cita o exemplo do Espírito Santo, onde a moqueca tradicional era preparada com leite de coco caseiro. Hoje, esse ingrediente foi substituído por versões industrializadas compradas em supermercado.
Essas mudanças aparentemente pequenas podem trazer consequências para a saúde em longo prazo. Dependendo do padrão alimentar de uma população, ele pode ter efeitos biológicos específicos no organismo.
A transição para dietas ocidentalizadas
Vivemos uma transição global para um padrão alimentar cada vez mais homogêneo e ocidentalizado. Houve a introdução massiva de alimentos ultraprocessados e uma mudança profunda no modo de preparo dos alimentos.
Os hábitos alimentares também se transformaram, influenciados pelos processos de trabalho das sociedades modernas. Refeições rápidas substituem preparações demoradas. Ingredientes industrializados tomam o lugar de produtos frescos.
Essas transformações não são apenas culturais. Elas têm impacto direto na biologia das populações. As dietas são importantes para entender como os alimentos podem estar relacionados ao aparecimento de certas doenças.
Resultados concretos: o estudo no Kilimanjaro
O potencial da iniciativa já foi demonstrado por meio de pesquisa recente realizada na região do Kilimanjaro, no Norte da Tanzânia. Os cientistas compararam a saúde de pessoas que se alimentavam conforme a dieta ancestral da região com aqueles que consumiam alimentos ultraprocessados.
A dieta tradicional local é composta de grãos e fermentados. Os pesquisadores da World Diet Initiative observaram que aqueles que haviam abandonado esse padrão apresentaram mudanças biológicas relacionadas a doenças crônicas.
O estudo ilustra exatamente o tipo de evidência que o consórcio busca gerar:comparações diretas entre dietas ancestrais e modernas, relacionando as mudanças alimentares às mudanças na fisiologia dos povos.
Por que documentar esse conhecimento agora
A coordenadora do Atlas da Dieta Mundial enfatiza que a organização desses dados em âmbito global é essencial para a realização de estudos futuros. A criação de uma espécie de biblioteca com informações sobre as dietas de várias partes do mundo é um trabalho de valor histórico.
Segundo Adaliene Versiani Ferreira, esse tipo de conhecimento precisa ser registrado antes que seja perdido. Ele permitirá que pesquisadores comparem padrões de dietas ancestrais com dietas modernas e ocidentalizadas.
As consequências das transformações dietéticas na biologia poderão ser observadas por meio da avaliação das fezes e dos marcadores biológicos hormonais. A forma como os organismos respondem ao ambiente é determinada pela alimentação.
O que os pesquisadores buscam compreender
O professor Mauro Teixeira esclarece que a iniciativa não é uma busca romantizada e nostálgica pelo resgate das dietas antigas. Também não é uma afirmação de que dietas ancestrais são sempre mais saudáveis.
As dietas agem nos organismos de maneiras diferentes. Organizar esse conhecimento pode ensinar muito à humanidade. Há dietas que existiram ao longo da evolução humana e que podem ser úteis porque são balanceadas e permitiram o desenvolvimento de civilizações.
A ideia é resgatar as dietas ancestrais e estudá-las à luz do conhecimento científico atual. Compreender esses padrões pode revelar princípios fundamentais sobre a relação entre alimentação e saúde.
Metodologia de comparação e análise biológica
A metodologia da World Diet Initiative utiliza técnicas para comparar os efeitos da alimentação em representantes de populações diferentes. De um lado, grupos que ainda consomem as dietas ancestrais. De outro, aqueles que adotaram dietas mais ocidentalizadas.
Os pesquisadores avaliam como a exposição a dietas de longo prazo molda três sistemas fundamentais: imunidade, metabolismo e microbiota. Essas são as áreas onde os efeitos biológicos da alimentação se manifestam de forma mais evidente.
A comparação permite identificar quais aspectos das dietas tradicionais conferem proteção contra doenças crônicas. Esse conhecimento pode subsidiar políticas públicas de saúde e nutrição.
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