Estudo desvenda como proteína HER2 ‘dribla’ medicamentos contra câncer de mama

Cientistas brasileiros mapeiam 90 versões da proteína e explicam falhas em medicamentos usados contra tumores agressivos

Câncer de mama é tipo mais comum de câncer entre as mulheres no Brasil

Uma pesquisa realizada por cientistas do Hospital Sírio-Libanês identificou 90 variações da proteína HER2, ligada a um dos tipos mais agressivos de câncer de mama. Até então, somente 13 eram conhecidas. A descoberta, publicada na revista Genome Research nessa terça-feira (25) pode ajudar a explicar por que alguns tumores não respondem a terapias avançadas que têm essa proteína como alvo.

Segundo os pesquisadores, as novas variações apresentam diferenças estruturais que podem afetar a forma como a proteína se fixa à membrana das células cancerígenas e interage com anticorpos usados nos tratamentos.

“Ao chegarmos às 90 variações, descobrimos que algumas delas não têm domínios proteicos que permitiriam a esperada ancoragem de HER2 na membrana das células”, explicou o pesquisador Pedro Galante, coordenador do Grupo de Bioinformática do Sírio-Libanês. Segundo o pesquisador, elas podem perder essa região de ligação com o anticorpo, o que é importante porque o anticorpo e precisa ser específico para cada proteína, como uma chave serve em uma fechadura.

“Conseguimos validar nossas hipóteses sobre resposta ao tratamento”, disse Galante.

“As linhagens que expressavam conjuntos alternativos de proteínas HER2, e que havíamos predito como não respondedoras, de fato não responderam à droga. Já as linhagens com a proteína convencional, que deveriam responder ao tratamento, efetivamente apresentaram resposta”, completou ele.

A primeira autora do estudo, Gabriela Der Agopian Guardia, destaca o papel do splicing alternativo, um processo molecular que gera diferentes versões de uma mesma proteína na compreensão da doença.

“Conseguimos colocar foco em um mecanismo não tão explorado na prática clínica, mas que tem impacto em diferentes frentes, inclusive na resposta às terapias”, afirma. “Abre os olhos para esse mecanismo visando, por exemplo, o desenvolvimento de drogas mais específicas e novas formas de diagnóstico”, explicou ela.

Como foi feita a pesquisa

O estudo analisou 561 amostras de tumores de mama do The Cancer Genome Atlas (TCGA), além de linhagens celulares sensíveis e resistentes a medicamentos como trastuzumabe e anticorpos conjugados a fármacos (ADCs). Tecnologias avançadas de leitura genética permitiram identificar detalhes que não aparecem em análises tradicionais.

A proteína HER2 é superexpressa em cerca de 20% dos casos de câncer de mama no Brasil, tornando os tumores mais agressivos. Pacientes HER2-positivos recebem terapias-alvo, que podem custar cerca de R$ 40 mil por pessoa e causar efeitos colaterais como náuseas e queda na imunidade.

Os pesquisadores pretendem ainda, ampliar a investigação para outros tipos de câncer, como o de pulmão, no qual a HER2 também pode estar envolvida, além de buscar validação clínica para as hipóteses levantadas. O objetivo é entender se o padrão de expressão das isoformas influencia a resposta a terapias anti-HER2 já usadas em pacientes.

A pesquisa recebeu apoio da FAPESP e ganhou destaque na capa da Genome Research, com uma ilustração criada pela paciente Alice Brassanini Mena Barreto dos Reis, que superou um câncer de mama após tratamento com um dos coautores do estudo.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o ‘Tá Sabendo’ no Instagram da Itatiaia.

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