Desnutrição afeta até 80% dos pacientes com câncer e compromete o tratamento

Efeitos colaterais das terapias oncológicas também interferem diretamente no apetite e no paladar

No Brasil o câncer é a segunda causa de morte, perdendo para as doenças cardiovasculares

A desnutrição é um dos problemas mais comuns no tratamento oncológico. Estima-se que entre 40% e 80% dos pacientes com câncer desenvolvam algum grau de perda nutricional ao longo da doença, condição que reduz a tolerância à quimioterapia e à radioterapia, piora o prognóstico e aumenta o risco de mortalidade.

Diversos fatores contribuem para esse quadro. Tumores localizados na cabeça, no pescoço ou no trato gastrointestinal podem dificultar a mastigação e a deglutição, comprometendo a alimentação. Além disso, o impacto emocional do diagnóstico e do tratamento, marcado por ansiedade, depressão, dor e períodos prolongados de internação, costuma reduzir a ingestão de alimentos.

Os próprios efeitos colaterais das terapias oncológicas também interferem diretamente no apetite e no paladar. “Náuseas, vômitos, mucosite [feridas na boca] e alterações no paladar podem causar gosto metálico e distorção dos sabores, intensificando a percepção de salgado, doce, azedo e amargo”, explica a nutricionista Simone Spadaro Monteiro de Farias, coordenadora de nutrição clínica do Hospital Municipal Dr. Gilson de C. Marques de Carvalho (Vila Santa Catarina), unidade pública em São Paulo gerida pelo Hospital Israelita Albert Einstein.

Outro fator determinante é o estado inflamatório provocado pelo câncer, que aumenta o metabolismo do organismo e reduz ainda mais a vontade de se alimentar. Como consequência, o corpo passa a consumir suas reservas de energia e proteínas. “Por causa desse conjunto de fatores, uma parcela significativa dos pacientes oncológicos apresenta desnutrição”, afirma a nutricionista Olívia Podesta, integrante do comitê multidisciplinar da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

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A condição é especialmente preocupante por acelerar a perda de massa muscular, o que compromete a resposta ao tratamento. Pacientes desnutridos tendem a tolerar pior a quimioterapia e a radioterapia, apresentam mais efeitos colaterais e necessitam de internações com maior frequência. O impacto se reflete diretamente na sobrevida e na qualidade de vida.

“Os músculos funcionam como um importante reservatório metabólico, produzindo substâncias que protegem o organismo e ajudam a manter o peso saudável”, explica Podesta. “Há estudos que mostram que esses pacientes têm de duas a três vezes mais risco de morrer durante o tratamento.”

Diante desse cenário, o acompanhamento nutricional é considerado parte fundamental da assistência oncológica. “O nutricionista especializado consegue ajustar o cardápio às necessidades individuais, garantindo uma alimentação nutricionalmente adequada, atrativa e adaptada às preferências do paciente, incluindo temperatura e alimentos com valor afetivo, o que melhora a aceitação”, afirma Farias.

Quando a alimentação oral não é suficiente, o profissional pode indicar suplementos nutricionais ou, em casos mais graves, recorrer à nutrição enteral, por meio de sondas, ou à nutrição parenteral, administrada diretamente na corrente sanguínea.

Especialistas alertam ainda que a avaliação nutricional deve ser feita mesmo em pacientes que aparentam estar com peso adequado. Isso porque é possível apresentar perda significativa de massa muscular sem redução visível do peso corporal. “Com tantas estratégias disponíveis para prevenir a desnutrição, não faz sentido permitir que o problema se instale”, reforça Podesta. “A intervenção precoce e o acompanhamento contínuo são essenciais para melhores resultados no tratamento oncológico.”

*Com Agência Einstein

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