Renato Russo sem personagem: o livro que expõe vício, silêncio e lucidez

Em “Só por hoje e para sempre”, o cantor desmonta a própria imagem.

Renato Russo sem personagem o livro que expõe vício, silêncio e lucidez

Há artistas que passam a vida inteira construindo personagens públicos. Há outros que, em determinado momento, não conseguem mais sustentá-los. O livro escrito por Renato Russo nasce exatamente nesse ponto de ruptura. “Só por hoje e para sempre” não tenta explicar a obra, o sucesso ou o lugar do autor na música brasileira. Ele existe como um registro cru de alguém lidando com o próprio colapso, longe dos palcos e perto demais de si.

Renato escreveu o livro durante os dias em que esteve internado na Clínica Vila Serena. Foram vinte e nove dias de isolamento, rotina controlada e confronto direto com a dependência química. O texto não surge como catarse literária planejada. Ele aparece como necessidade, quase como sobrevivência.

Renato Russo sem personagem o livro que expõe vício, silêncio e lucidez

Um relato que recusa o mito

O impacto do livro está na recusa do personagem. Renato não escreve como ícone do rock, nem como líder de geração. Ele escreve como alguém cansado, irritado, desconfiado e emocionalmente fragmentado. O vício aparece sem glamour, sem metáfora elegante, sem tentativa de suavizar os efeitos. O que ele descreve é um cotidiano marcado por dor constante, solidão e uma sensação persistente de injustiça em relação ao mundo.

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Não há esforço para se colocar como vítima exemplar ou como herói em recuperação. O texto assume contradições, falhas e um desgaste psicológico profundo. A lucidez vem justamente dessa ausência de pose.

Quando viver vira tarefa

Um dos aspectos mais desconcertantes do livro é a forma como Renato descreve a rotina sob o efeito da dependência. Atos básicos como comer, dormir, trabalhar ou se relacionar passam a ser cumpridos por obrigação. A felicidade deixa de ser experiência e vira cobrança externa. Manter esperança, bom humor ou vontade de viver se transforma em esforço mecânico.

O álcool e a droga surgem como atalhos temporários. Momentos breves de euforia, seguidos por um vazio ainda maior. O texto deixa claro que não se trata de falta de sucesso, dinheiro ou reconhecimento. Mesmo cercado de conquistas materiais e intelectuais, ele não conseguia acessar satisfação real.

Isolamento como mecanismo de defesa

Ao longo do relato, Renato mostra como o vício altera a percepção do outro. A desconfiança cresce, a intolerância se intensifica e o isolamento passa a parecer escolha racional. Ele se afasta das pessoas, usa máscaras sociais e mantém contato apenas com quem acredita compreendê-lo de verdade.

Esse afastamento não é descrito como drama espetacular, mas como desgaste acumulado. A autoestima se dissolve, substituída por culpa, raiva e um perfeccionismo que funciona mais como armadura do que como virtude.

O tratamento como processo, não milagre

O texto muda de tom conforme o tratamento avança. Não há virada repentina nem iluminação súbita. Renato descreve resistência, ceticismo e desconforto nos primeiros dias. Aos poucos, pequenas mudanças começam a aparecer. A alimentação se regulariza. O sono melhora. A tranquilidade surge em doses discretas.

Ele passa a reconhecer sentimentos, a se surpreender com a própria capacidade de controlar impulsos e a redescobrir valor nas coisas simples. A transformação não é idealizada. Renato aponta dificuldades que permanecem, traços de personalidade que exigem atenção constante e conflitos internos que não desaparecem com a internação.

Espiritualidade sem discurso pronto

Um dos trechos mais delicados do livro é a relação com a espiritualidade. Renato não escreve como alguém convertido ou resolvido. Ele admite dificuldade, resistência e desconforto com a ideia de se conectar a algo maior. O conflito entre pessimismo, racionalidade crítica e necessidade de entrega aparece de forma honesta.

Não há tentativa de convencer o leitor. O texto apenas expõe a tensão de alguém que percebe que o controle absoluto da própria vida já não funciona.

Cultura, ironia e autocrítica

Mesmo em processo de reconstrução, Renato não abandona o olhar crítico. Ele ironiza a própria postura elitista, o isolamento intelectual e a necessidade de se diferenciar constantemente. Reconhece o prazer recente em coisas simples, sem abrir mão da inteligência, da sensibilidade e da cultura que sempre o definiram.

Esse equilíbrio entre autocrítica e preservação da identidade torna o livro ainda mais humano. Não há renúncia do que ele é. Há reorganização.

Um livro que não pede redenção

“Só por hoje e para sempre” não tenta ensinar, alertar ou salvar ninguém. Ele não promete estabilidade definitiva nem recuperação sem recaídas emocionais. Renato escreve como alguém consciente da própria doença e atento à necessidade de vigilância diária.

O livro se sustenta porque não busca aplauso, nem absolvição pública. É o registro de um momento específico, escrito por alguém que entendeu que seguir vivendo exige humildade, atenção e disposição para continuar aprendendo, dia após dia.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

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