Durante muitos anos, o jiu jitsu foi associado a um ambiente masculino, competitivo e pouco receptivo para mulheres. Essa percepção não desapareceu de uma hora para outra, mas vem sendo desmontada na prática. Hoje, a presença feminina no tatame é constante, diversa e consciente. Mulheres de diferentes idades, histórias e objetivos passaram a enxergar o jiu jitsu não como desafio externo, mas como escolha pessoal.
Essa mudança não surgiu por moda. Ela responde a uma transformação mais profunda na relação da mulher com o próprio corpo, com a segurança e com a ideia de força.
Por que o jiu jitsu se tornou o esporte que mais cresce entre mulheres
Técnica antes da força muda o jogo
O crescimento do jiu jitsu entre
Cristiano Lazarini, cinco vezes campeão mundial, quatro vezes campeão Pan Americano e cinco vezes campeão brasileiro, acompanha essa mudança de perto no dia a dia da academia. Para ele, o perfil das praticantes mudou de forma clara ao longo dos anos.
“Alguns anos atrás o jiu jitsu não era visto como é hoje. As mulheres que praticavam geralmente eram competidoras ou ligadas de alguma forma ao meio da luta. Hoje, elas estão praticando pela autodefesa, pela melhora do condicionamento físico e, principalmente, porque sentem autoconfiança ao praticar nossa arte”, afirma.
Autodefesa sem discurso do medo
O jiu jitsu oferece ferramentas práticas de controle corporal, reação e tomada de decisão sob pressão. O foco não está no ataque, mas na capacidade de manter lucidez em situações adversas. Isso dialoga diretamente com a realidade feminina, onde segurança e consciência corporal caminham juntas.
Esse aprendizado ultrapassa o tatame. A postura muda, o olhar muda e a forma de ocupar espaços também. Não se trata de viver em alerta constante, mas de entender o próprio
Transformação pessoal visível no dia a dia
O impacto do jiu jitsu não se limita ao físico. A prática exige atenção plena, presença e adaptação constante. Durante o treino, não há espaço para distração. Corpo e mente precisam operar juntos.
Cristiano define esse processo como algo que vai além do esporte. “É uma transformação pessoal. A mulher vê na prática todos esses elementos acontecendo, o que aumenta muito o número de alunas em todas as academias”, explica.
Esse tipo de transformação cria vínculo. Não é um treino que se abandona facilmente, porque os efeitos aparecem no cotidiano.
Um ambiente que acolhe diferentes corpos e histórias
Outro ponto central está no ambiente. No jiu jitsu, corpos diferentes aprendem de formas diferentes. Altura, peso ou biotipo não determinam limite. Cada corpo encontra soluções próprias.
Para que isso funcione, o espaço precisa ser seguro e respeitoso. Cristiano reforça que o papel do professor é decisivo nesse processo. “A academia precisa ter um professor que saiba transmitir segurança e equilíbrio. O ambiente deve acolher todos da mesma forma, com respeito e dedicação. Ninguém sai da linha, independente de ser homem ou mulher.”
Essa postura cria confiança e reduz a evasão, especialmente entre iniciantes.
Não existe idade errada para começar
Ao contrário do que muitos imaginam, o jiu jitsu não é restrito a jovens ou atletas de alta performance. O treino pode e deve ser adaptado às condições de cada aluno.
“Não existe idade que seja tarde para começar. As limitações de cada aluno são observadas e o treino acontece de acordo com isso. Tenho alunos que trabalham o dia todo, treinam à noite ou no horário de almoço e ainda competem”, relata Cristiano.
A progressão é individual. O ritmo não é imposto, é construído.
Competição como ferramenta, não obrigação
No jiu jitsu, competir é escolha. Algumas mulheres encontram na competição um espaço de superação e teste emocional. Outras seguem treinando sem interesse competitivo. Ambos os caminhos coexistem.
Cristiano incentiva a vivência competitiva como experiência de crescimento, não como imposição. “Na competição o aluno passa por muitas situações mentais e físicas que ajudam na vida, no trabalho e em outras áreas. Tenho visto o número de mulheres aumentando muito nos campeonatos, o que mostra que o jiu jitsu feminino cresce a cada dia.”
Autonomia que acompanha fora do tatame
O crescimento do jiu jitsu entre mulheres está diretamente ligado à busca por autonomia. Autonomia sobre o corpo, sobre o espaço e sobre a própria força. O esporte entrega ferramentas reais, sem promessas fáceis.
Aprender a cair, levantar, resistir e decidir sob pressão se reflete fora da academia. No trabalho, nas relações e na forma de se posicionar no mundo. O tatame vira laboratório de confiança.
O jiu jitsu deixou de ser exceção feminina porque passou a responder a necessidades reais. Ele não se sustenta por discurso, mas por experiência vivida. É por isso que tantas mulheres entram. E permanecem.