Zippo: o isqueiro que virou objeto de desejo, memória e cultura global

O Zippo atravessou guerras, telas e gerações até se tornar um ícone absoluto.

Zippo o isqueiro que virou objeto de desejo, memória e cultura

Um objeto pequeno com histórias enormes

Poucos objetos do cotidiano carregam tanta carga simbólica quanto um isqueiro Zippo. Não é apenas um acessório utilitário. É memória, identidade e presença. Durante a Segunda Guerra Mundial, soldados viam conforto, rotina e até esperança. O correspondente de guerra Ernie Pyle resumiu isso de forma direta ao dizer que o Zippo era um dos itens mais desejados no front, recebido com gratidão.

Essa relação emocional com um objeto simples ajudou a transformar o Zippo em algo muito maior do que um produto.

O nascimento de um clássico em plena crise

O Zippo surgiu em 1932, nos Estados Unidos, em meio a um cenário econômico difícil. George G. Blaisdell observava os isqueiros disponíveis na época e via neles um problema prático. Muitos exigiam o uso das duas mãos, tinham pouca durabilidade e não funcionavam bem em condições adversas. A solução veio com um redesenho completo.

Blaisdell criou um isqueiro retangular, com tampa articulada e dobradiça firme, que protegia a chama do vento. O design permitia acender com apenas uma mão e mantinha a chama estável mesmo em ambientes hostis. A funcionalidade vinha antes da estética, mas acabou criando uma história de identidade visual única.

O clique que virou assinatura

Zippo o isqueiro que virou objeto de desejo, memória e cultura

O som característico ao fechar a tampa do Zippo se tornou parte da experiência. O clique metálico não é apenas ruído. É reconhecimento imediato. Apagar o Zippo fechando a tampa virou um gesto quase ritualístico, repetido por gerações.

O nome também carrega intenção. Blaisdell gostava da palavra zipper, mas optou por Zippo por soar mais moderno e direto. A escolha ajudou a construir uma marca fácil de lembrar e difícil de confundir.

Garantia vitalícia como filosofia

Zippo o isqueiro que virou objeto de desejo, memória e cultura

Em 1933, os primeiros Zippos chegaram ao mercado por US$ 1,95 e já traziam algo raro até hoje: garantia vitalícia incondicional. Se um Zippo quebrar, não importa a idade ou o modelo, a empresa se compromete a reparar ou substituir. Todas as peças são substituíveis.

Esse compromisso ajudou a criar uma relação de confiança profunda entre marca e consumidor. O Zippo deixou de ser descartável. Passou a ser algo que atravessa gerações.

Do pós-guerra ao status de colecionável

Após a Segunda Guerra, nos anos 1950, os Zippos começaram a receber códigos gravados na parte inferior. Inicialmente, a ideia era controle de qualidade. Com o tempo, isso se tornou um atrativo para colecionadores. Cada unidade passou a contar uma história própria.

Em 1956, a marca lançou o modelo Slim, voltado para o público feminino, ampliando seu alcance. Hoje, o Zippo é vendido em mais de 120 países e reúne milhões de colecionadores ao redor do mundo.

O Zippo como ícone da cultura pop

O isqueiro ultrapassou o universo militar e entrou de vez na cultura pop. Apareceu em Hollywood, na Broadway e em produções que marcaram época. Foi visto em séries, filmes e musicais, acendendo cenas memoráveis e reforçando sua presença simbólica.

No cinema, o Zippo se tornou parte da construção de personagens. Acendeu cigarros de figuras icônicas e ajudou a criar atmosferas que ficaram gravadas no imaginário coletivo. Na música, virou símbolo de atitude, rebeldia e identidade, aparecendo em capas de discos, revistas e até tatuagens.

Marketing que entende cultura, não só produto

A força do Zippo nunca esteve apenas no objeto, mas na forma como ele se comunica. A marca entendeu cedo que estava lidando com emoção, não apenas com função. Eventos como o Zippo Encore, criado para incentivar bandas de rock independentes, mostram essa leitura cultural apurada.

Pesquisas de reconhecimento de marca mostram um dado impressionante: a esmagadora maioria das pessoas conhece o Zippo, já teve um, coleciona ou ao menos reconhece sua existência. Isso não acontece por acaso.

Museu, legado e números impressionantes

Em 1997, a empresa inaugurou o museu Zippo na Pensilvânia, com uma estrutura ampla que reúne história, design e loja. O espaço recebe visitantes do mundo inteiro interessados não apenas no produto, mas na trajetória da marca.

Em 2002, a Zippo registrou sua patente para combater falsificações e ultrapassou a marca de centenas de milhões de unidades produzidas. Os preços variam amplamente, de modelos acessíveis a peças raras feitas em metais preciosos, que podem alcançar valores altíssimos no mercado de colecionadores.

Curiosidades que ajudam a explicar o fascínio pelo Zippo

Ao longo das décadas, o Zippo acumulou histórias curiosas que reforçam seu status de objeto cult. Um dos pontos mais conhecidos é que praticamente todo Zippo emite o mesmo som ao ser fechado, independentemente do modelo ou da época, o que criou um reconhecimento auditivo instantâneo. Outro detalhe pouco percebido é que muitos Zippos de guerra voltaram do front com marcas de bala ou estilhaços, preservados pelos donos como símbolos de sobrevivência.

Há também colecionadores que se dedicam exclusivamente a séries temáticas, como modelos militares, publicitários ou edições comemorativas. Em testes não oficiais, o Zippo ficou famoso por manter a chama acesa em condições de vento intenso, algo que ajudou a consolidar sua reputação entre soldados, aventureiros e usuários urbanos. Esses detalhes ajudam a entender por que o Zippo deixou de ser apenas um isqueiro e passou a ocupar um lugar afetivo na história de quem o possui.

Um objeto que atravessa o tempo

Independentemente de estilo, preço ou época, o Zippo ocupa hoje um lugar fixo no tecido da cultura global. Seja nas mãos de um colecionador, de um mochileiro ou como herança de família, ele carrega a ideia de permanência em um mundo cada vez mais descartável.

Ter um Zippo é possuir um objeto pensado para durar. Não apenas fisicamente, mas simbolicamente. E talvez seja justamente isso que o torna tão desejado até hoje. Em um mercado cheio de novidades efêmeras, poucos conseguem manter relevância por décadas. O Zippo conseguiu. E continua acendendo histórias.

📎 LinkedIn: por Lucas Machado

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

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