Geração Z redescobre revistas impressas em plena era das telas
WYouth aposta no papel para conquistar leitores criados no digital

Uma revista pequena o suficiente para caber na mochila pode parecer uma aposta improvável para conquistar adolescentes acostumados a consumir moda, música e comportamento pelo celular.
É exatamente essa contradição que está por trás da WYouth, nova publicação impressa criada pela equipe da revista W para dialogar com uma geração formada dentro das redes sociais.
A primeira edição chega às bancas em 15 de setembro e terá Justin Bieber e Hailey Bieber na capa. O casal participou de um ensaio feito de maneira intimista, fotografando um ao outro. A publicação será semestral e terá metade do tamanho tradicional da W, formato pensado deliberadamente para funcionar como um objeto físico fácil de carregar.
O projeto começou depois de uma conversa envolvendo a cineasta Sofia Coppola, a editora Sara Moonves e Ava Nirui, que assumiu a edição da nova revista. A proposta recupera referências de publicações adolescentes de décadas anteriores sem tentar simplesmente reproduzir aquilo que funcionava antes da internet.
Por que lançar uma revista impressa agora?
O ponto mais interessante da WYouth talvez esteja justamente no momento escolhido para seu lançamento. Adolescentes de hoje não precisam de uma revista para descobrir uma tendência. TikTok, Instagram, YouTube e inúmeras plataformas conseguem colocar moda, música e celebridades diante deles em segundos.
O papel oferece uma experiência diferente. Não existe rolagem infinita, notificação disputando atenção ou algoritmo substituindo uma página antes que ela seja observada. Uma edição possui começo, sequência e fim, além de poder ser guardada, recortada, compartilhada e transformada em objeto pessoal.
A própria WYouth apresenta sua proposta como uma combinação entre cultura pop, experimentação e mídia física. Entre as referências utilizadas pela equipe estão revistas e manifestações culturais ligadas à juventude de décadas passadas. Sofia Coppola e sua filha Cosima Croquet também participam como colaboradoras.
O físico ganha um significado diferente para quem nasceu digital
Seria precipitado concluir que a Geração Z está abandonando as telas. Não consigo confirmar isso, e os dados disponíveis não sustentam uma substituição ampla do digital pelo impresso. O movimento relevante é mais específico: objetos físicos podem adquirir valor justamente porque oferecem uma experiência diferente daquela dominante no cotidiano conectado.
Essa lógica aparece também em áreas como música e fotografia. O crescimento do interesse por formatos físicos mostra que conveniência não é o único atributo considerado por consumidores. Nos Estados Unidos, a Recording Industry Association of America acompanha, por exemplo, a participação de formatos físicos no mercado de música, incluindo discos de vinil.
Para uma revista destinada a adolescentes, existe ainda uma dimensão cultural. Publicações juvenis tiveram historicamente função de curadoria: reuniam referências, imagens, entrevistas e estilos dentro de uma identidade editorial reconhecível. Nas redes sociais, parte dessa função foi pulverizada entre criadores, marcas, plataformas e algoritmos.
Justin e Hailey Bieber ajudam a apresentar a aposta
Escolher Justin e Hailey Bieber para a estreia conecta duas gerações de cultura pop. Justin construiu parte de sua fama inicial no YouTube quando ainda era adolescente e hoje continua cercado por uma audiência formada em ambiente digital. Hailey desenvolveu uma presença própria nos universos de moda e beleza.
A revista usa essa familiaridade para apresentar algo que, para parte do público mais novo, pode ter caráter de novidade: esperar uma edição chegar, folhear páginas e manter aquele conteúdo depois de terminar a leitura.
O sucesso comercial da WYouth ainda precisa ser demonstrado. Uma estreia cercada por celebridades não permite concluir que adolescentes voltarão em massa às bancas. A iniciativa, porém, revela uma mudança interessante de perspectiva. Depois de anos tentando transformar praticamente toda experiência física em digital, algumas empresas estão testando o caminho inverso.
Para uma geração que nunca precisou abandonar o papel porque já nasceu cercada por telas, uma revista impressa pode não representar nostalgia. Pode simplesmente parecer algo novo.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



