Geração Z quer deixar menos rastros da própria vida nas redes
Perfis fechados e posts temporários mudam a exposição nas redes

Ter uma conta no Instagram, TikTok ou Snapchat não significa mais querer transformar cada momento da vida em registro permanente. Entre integrantes da Geração Z, surgem formas mais seletivas de participar das redes: perfis reservados, conteúdo temporário, grupos menores, mensagens privadas e maior controle sobre quem consegue acompanhar determinadas publicações.
A mudança não significa que essa geração esteja abandonando as plataformas. Dados divulgados em abril pelo Ofcom mostram justamente o contrário no Reino Unido: 97% dos internautas de 16 a 34 anos pesquisados utilizavam ao menos uma rede social. O comportamento observado pelo órgão regulador britânico é mais específico: o uso está ficando mais passivo e cauteloso, com preferência crescente por conteúdos com duração limitada em vez de publicações permanentes.
Por que a Geração Z está mudando a exposição nas redes?
Uma explicação está na diferença entre estar conectado e estar permanentemente exposto. Fotos, comentários e informações compartilhadas hoje podem continuar acessíveis anos depois e ainda formar uma imagem pública que já não corresponde àquela pessoa.
A chamada pegada digital inclui justamente os rastros produzidos durante a vida online. Parte deles é criada conscientemente, como uma fotografia publicada no Instagram. Há também informações menos visíveis geradas durante a utilização de sites, aplicativos e serviços digitais.
Uma pesquisa acadêmica publicada em 2026 analisou 902 usuários adultos de redes sociais na China, incluindo participantes das gerações Z, Y e X. O trabalho encontrou diferenças geracionais na relação entre privacidade, exposição pessoal e proximidade social, mostrando que a administração da privacidade não ocorre da mesma maneira em todas as faixas etárias.
Isso ajuda a evitar uma conclusão precipitada. A Geração Z não pode ser descrita simplesmente como uma geração que passou a valorizar mais a privacidade do que todas as anteriores. Os dados disponíveis mostram um comportamento mais complexo, no qual exposição e controle convivem.
É justamente essa combinação que aparece nas novas maneiras de utilizar as plataformas:
- conteúdos que desaparecem depois de determinado período;
- contas secundárias destinadas a grupos específicos;
- perfis privados e listas de melhores amigos;
- conversas transferidas do feed público para mensagens;
- seleção mais cuidadosa do que permanece visível.
Conteúdo temporário ganha espaço nas redes sociais
As próprias plataformas incorporaram essa lógica aos produtos. Stories desaparecem da área pública após 24 horas, enquanto diferentes recursos permitem restringir audiências ou compartilhar conteúdos com grupos selecionados.
O fenômeno ultrapassa uma única rede. O relatório Adults' Media Use and Attitudes 2026, do órgão regulador britânico Ofcom, identificou uma relação mais cautelosa com as redes sociais e maior preferência por publicações de duração limitada em comparação com conteúdos permanentes.
Essa mudança também interessa a quem pesquisa o funcionamento das plataformas. Um estudo publicado em 2026 sobre recursos das redes sociais descreve o Instagram atual como um ambiente que combina duas lógicas: a permanência tradicional do feed e a natureza efêmera dos Stories. Os autores observam que conteúdos temporários podem diminuir a pressão relacionada à criação de publicações perfeitas e duradouras, embora também possam produzir efeitos diferentes, como medo de perder atualizações.
Pegada digital passa a fazer parte das escolhas online
Controlar uma publicação não elimina todos os rastros deixados na internet. Uma fotografia arquivada, uma mensagem privada ou um Story temporário não significam necessariamente ausência de armazenamento ou coleta de informações pela plataforma.
Por isso, reduzir exposição pública e reduzir pegada digital são coisas diferentes. O primeiro comportamento pode ser controlado parcialmente pelo usuário; o segundo envolve também dados gerados durante a utilização de serviços digitais.
Ainda não existem evidências suficientes para afirmar que a Geração Z esteja promovendo uma retirada generalizada das redes. Os levantamentos disponíveis apontam para algo diferente: jovens continuam intensamente conectados, mas parte da experiência está migrando da exposição aberta para ambientes em que existe maior possibilidade de selecionar público, duração e contexto.
Para redes sociais, criadores de conteúdo e marcas, essa transformação pode ser relevante. Uma geração que continua conectada, mas escolhe com mais cuidado onde, para quem e por quanto tempo aparece, exige uma leitura de comportamento que vai além do número de publicações disponíveis no feed.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



