Design Thinking, a favela já fazia isso há muito tempo
Muito antes de virar expressão recorrente em empresas, escolas de negócios e departamentos de inovação, práticas como observar problemas, testar soluções, improvisar, adaptar ideias e aprender com a realidade já faziam parte da rotina de empreendedores informais nas comunidades

Primeiramente, eu fico imaginando como é a ressentida vida de colunistas diários que não têm a liberdade de pauta que, quando seguraram seus canudos de jornalistas, imaginavam que teriam.
Talvez “ressentida” seja uma palavra muito forte. Mas, enfim, entenderam, né? #JornalistasTMJ. Entretanto, como não é o meu caso, é justamente sobre isso, aplicado à minha profissão, que quero relatar.
Fui convidado para uma conversa, semana passada, sobre Design Thinking. Para quem ainda não conhece a expressão, ela ganhou notoriedade principalmente no mundo do empreendedorismo e da inovação.
Para mim, o significado poderia se confundir com o próprio conceito de empreender.
Em resumo, Design Thinking é uma abordagem de resolução de problemas que parte das necessidades das pessoas, explora possibilidades, cria ideias, testa soluções e aprende com aquilo que acontece no mundo real. E, veja bem, não estou falando de uma fórmula pronta. É justamente aí que a coisa fica interessante.
Fórmulas inexistentes
A conversa que tive me fez pensar que existe uma distância enorme entre a forma como o Design Thinking costuma ser apresentado e a maneira como muitas pessoas resolvem problemas na vida real.
No trabalho que fui convidado a fazer, passei pelo surgimento do conceito, pela história de quem ajudou a disseminá-lo e pelas empresas de alta tecnologia que incorporaram esse pensamento. Foi bom. Mas o que eu gostaria de ter explanado por horas, e, a contragosto, não fiz, é que não existe uma receita universal para pensar soluções.
A própria história do Design Thinking é menos linear do que muitas apresentações corporativas fazem parecer. Suas raízes estão em diferentes campos do design, da criatividade e da resolução de problemas. A trajetória desenvolvida em Stanford a partir dos anos 1950 foi importante para consolidar práticas como pensamento visual, identificação de necessidades, prototipagem e aprendizagem pela prática.
A IDEO, fundada por David Kelley em 1978, também teve papel importante na popularização da abordagem no universo empresarial, especialmente a partir dos anos 1990. A própria empresa reconhece que não inventou o Design Thinking, mas ajudou a tornar suas práticas mais conhecidas e acessíveis.
Ou seja: a história documentada não começa na favela. Mas isso não significa que a favela tenha chegado atrasada à conversa.
Pré-MEIs
É aqui que está a minha provocação. Para mim, muitas das práticas associadas ao Design Thinking já aconteciam, e continuam acontecendo, nas favelas.
Pense nos chamados pré-MEIs, os empreendedores informais das comunidades. Gente que identifica uma necessidade, testa uma possibilidade, observa a reação das pessoas, muda o produto, adapta o preço, encontra outro fornecedor, altera a forma de vender e tenta novamente.
Imersão ou descoberta. Análise e interpretação. Ideação. Prototipação. Experimentação. Tudo isso pode acontecer sem que a pessoa jamais tenha ouvido falar em Design Thinking. E acontece há muito tempo. Não necessariamente porque alguém ensinou essas etapas, mas porque a realidade exige.
Quando o recurso é limitado, a solução precisa funcionar. Quando o público está perto, o feedback chega rapidamente. Quando uma ideia não dá certo, é preciso descobrir outra. Não existe PowerPoint para chamar de processo. Existe vida real.
A favela como laboratório de soluções
Nos últimos dias, eu poderia apresentar pelo menos três situações que acompanhei na favela do Papagaio e que, para mim, ilustram isso.
Tem o artesão que produz sabão a partir de óleo vegetal e pretende abrir uma loja de produtos de limpeza, ao mesmo tempo em que pensa em descentralizar os pontos de coleta de óleo dentro da própria comunidade.
Tem a dona DJ-jornalista que projeta filmes na laje e, sem necessariamente se apresentar assim, funciona como uma espécie de instituto cultural ambulante.
E tem a mulher que já tem 18 filhos adotados e que está saindo do mercado das quentinhas para abrir o próprio restaurante.
Não vou explorar aqui os nomes ou as histórias pessoais dessas pessoas. O objeto não é transformar suas vidas em exemplo exótico de superação. É justamente o contrário. É reconhecer a visão.
Porque existe uma tendência de olhar para a inovação quando ela aparece em uma empresa de tecnologia, em um laboratório, numa universidade ou numa grande corporação.
Mas inovação também pode estar numa cozinha apertada, numa laje, numa oficina improvisada ou numa pessoa que percebe um problema no bairro e resolve tentar fazer alguma coisa a respeito.
Uma pesquisa publicada pela Universidade de São Paulo e pela University of Leeds, por exemplo, discute justamente a relação entre design, empreendedorismo e favelas urbanas brasileiras, mostrando como estratégias orientadas pelo design aparecem em negócios e iniciativas desenvolvidos nesses territórios.
A favela não sai da gente
Existe uma frase popular que diz que a gente sai da favela, mas a favela não sai da gente. Talvez seja justamente isso que eu gostaria que as pessoas entendessem quando ouvirem falar em Design Thinking.
Não é preciso diminuir o conceito, tampouco romantizar a precariedade. Favela não é sinônimo de improviso, assim como empresa de tecnologia não é sinônimo de inovação.
O que precisamos fazer é parar de imaginar que determinadas formas de inteligência pertencem exclusivamente a determinados lugares.
O Design Thinking ganhou nome, metodologia, livros, cursos, consultorias e apresentações corporativas. Tudo isso tem sua importância.
Mas resolver problemas observando a realidade, ouvindo pessoas, testando possibilidades, errando, corrigindo e tentando novamente não é uma invenção recente.
É uma prática humana. E, em muitos territórios onde quase nunca existe espaço para errar, talvez ela tenha sido desenvolvida por necessidade muito antes de receber um nome bonito.
Para não começar segregando
Por isso, ao se depararem com o conceito por aí, por favor, não o vinculem automaticamente a empresas de grande porte, startups ou alta tecnologia. Lembrem-se também do artesão do sabão.
Da mulher que transforma a laje em cinema. Da empreendedora das quentinhas que está abrindo um restaurante. De todos aqueles que encontram um problema na frente e precisam descobrir uma maneira de resolvê-lo.
Não porque fizeram um curso de Design Thinking, mas porque a vida exigiu, e talvez essa seja a parte que eu mais gostaria de ter falado naquela conversa. Além da oportunidade de escrever com liberdade o meu pensamento aqui, eu costumo convidar todos os meus clientes para fazer uma coisa depois do trabalho.
Ir a um bar ou restaurante. É lá que, quando posso, falo tudo que penso, porque de bobo e ressentido eu não tenho nada.
Viva a favela.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



