Belo Horizonte
Itatiaia

Veja quais cidades mineiras podem ter recebido emendas ligadas a Eduardo Cunha

Decisão do STF que bloqueou bens do ex-deputado federal traz uma lista de municípios que podem ter recebido recursos financeiros oriundos de operação feita junto a parlamentares com mandato

Por e 
Sessão de votação do Projeto de Resolução 134/16
Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, quer retomar vida política em Minas Gerais • Fabio Rodrigues Pozzebom | Agência Brasil.

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que bloqueou R$ 6,1 milhões do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) cita a suspeita de que o ex-parlamentar operou, via parlamentares em atividade, um esquema milionário para destinar recursos de emendas para cidades mineiras. A medida foi assinada em 6 de julho.

 

Mesmo sem mandato há quase uma década, Cunha teria articulado o pagamento de emendas da Comissão de Saúde da Câmara, utilizando um "arranjo decisório paralelo" dentro do Legislativo.

 

Segundo a decisão do ministro Flávio Dino, o ex-parlamentar atuava como um "líder partidário de fato", definindo valores e selecionando casuisticamente os municípios beneficiados para consolidar uma "nova base política" no estado. Cunha construiu toda sua carreira, que chegou até à presidência da Câmara dos Deputados, pelo Rio de Janeiro, mas tenta voltar a disputar as eleições neste ano, desta vez por Minas Gerais.

 

Com base em planilhas apreendidas com a servidora Mariângela Fialek ( conhecida como Tuca) e dados do Portal da Transparência, a investigação feita pela Polícia Federal identificou repasses articulados por Cunha para as seguintes cidades mineiras:

 

  • Aguanil (R$ 150.000,00)
  • Aracitaba (R$ 150.000,00)
  • Belmiro Braga (R$ 200.000,00)
  • Cambuquira (R$ 100.000,00)
  • Carmo do Cajuru (R$ 277.020,00)
  • Conceição do Rio Verde (R$ 100.000,00)
  • Espera Feliz (R$ 169.070,00)
  • Ewbank da Câmara (R$ 100.000,00)
  • Goianá (R$ 103.939,00)
  • Governador Valadares (R$ 200.000,00 — destinado após cancelamento em Manhuaçu)
  • Guarani (R$ 250.000,00)
  • Itamonte (R$ 250.000,00)
  • Lajinha (R$ 330.930,00)
  • Martinho Campos (R$ 250.000,00)
  • Mathias Lobato (R$ 100.000,00)
  • Matias Cardoso (R$ 250.000,00)
  • Novo Oriente de Minas (R$ 250.000,00)
  • Oliveira Fortes (R$ 46.061,00)
  • Paiva (R$ 200.000,00)
  • Pedrinópolis (R$ 60.378,00)
  • Piau (R$ 300.000,00)
  • Poté (R$ 250.000,00)
  • Raul Soares (R$ 472.980,00)
  • Rio Preto (R$ 200.000,00)
  • Santa Rita do Sapucaí (R$ 250.000,00)
  • Santo Antônio do Aventureiro (R$ 250.000,00)
  • São João Nepomuceno (R$ 250.000,00)
  • Três Corações (R$ 150.000,00)
  • Urucuia (R$ 200.000,00)
  • Varjão de Minas (R$ 590.000,00)

 

Trocas e Disputas Políticas

 

A investigação detalha que o processo era dinâmico e atendia a interesses eleitorais imediatos de Cunha. Um caso emblemático ocorreu em setembro de 2025, quando ele ordenou a suspensão de recursos para Manhuaçu.

 

Cunha alegou que o "pessoal lá é inimigo" e estava atribuindo a autoria da verba a outro parlamentar. Diante do imbróglio, ele enviou uma mensagem curta à servidora: "Trocar Manhuaçu por essas para acabar com a confusão", redirecionando o dinheiro para Governador Valadares e para a Associação Hospital Belizário Miranda.

 

Outro município citado em diálogos sobre problemas de "limite" orçamentário foi Matias Barbosa, onde Cunha solicitou a substituição da diferença de valores por repasses a Pedrinópolis e Varjão de Minas.

 

Para a Polícia Federal, esse "balcão de negócios" orçamentário visava a cooptação de apoio político local em um estado onde Eduardo Cunha não possuía vínculo histórico, configurando, em tese, o crime de peculato-desvio. Cunha escolheu Minas para retomar a carreira na Câmara dos Deputados após ter perdido o mandato e sido preso no âmbito da Operação Lava-Jato. 

 

Ele foi preso em 2016, mesmo ano em que tocou a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) na Câmara. Sete anos mais tarde, sua condenação foi anulada pelo STF.

 

O que diz o ex-deputado

 

Em nota enviada à reportagem, a defesa de Cunha diz que tomou conhecimento da decisão de Flávio Dino via imprensa e que não foi intimado, ouvido ou chamado a prestar esclarecimentos no âmbito desta investigação.

 

“Eduardo Cunha não exerce mandato parlamentar e, portanto, não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas nas reportagens. Ao contrário. Conforme pode-se observar, elas foram oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, únicos que possuem competência sobre o processo orçamentário. Eduardo Cunha sempre pautou sua vida pública pelo compromisso ético e probidade, respeitando as normas legais, inclusive, enquanto exerceu seu mandato parlamentar”, diz trecho da nota.

 

A defesa complementa rechaçando que o contato feito por Cunha com deputados e senadores em exercício possa ser caracterizado como um exercício clandestino de mandato parlamentar.

 

“É igualmente necessário esclarecer que o montante de R$ 6,15 milhões corresponde ao valor global das emendas questionadas, destinadas a municípios ou outros beneficiários públicos, e nem mesmo a decisão imputa recebimento de qualquer vantagem a Eduardo Cunha. Eduardo Cunha desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas. Cabe ressaltar que a própria PGR (Procuradoria Geral da República) considerou prematuro o bloqueio das contas de Eduardo Cunha”, conclui a defesa do ex-presidente da Câmara.

 

Por

Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

Por

Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio